Dando uma de abelhudo — Parte 1

Heart and Brain, theawkwardyeti.com

Era um dia bonito, início de verão no Rio de Janeiro, e eu estava no meu estágio em uma agência digital cumprindo com meus afazeres quando recebi um e-mail de um ex-chefe: “Essa vaga é a sua cara!”.

Naquele momento eu era um formando do curso de Administração, apaixonado pelo marketing digital, com planos claros de ser um grande executivo de marketing um dia… quem sabe até ser um CEO! (Nunca tinha conhecido um, mas todo mundo falava e parecia ser algo importante).

Li o e-mail e realmente era interessante a oportunidade: uma startup contratando um analista de marketing. Apliquei pra essa vaga e também para uma em um tradicional grupo de varejo.

Acontece que, apesar de ser meio traumatizado com processos seletivos, acabei sendo aprovado nas duas empresas.

Excelente! Agora é só escolher!

Amigos, não estamos falando de um prato de comida, se vai pra praia ou pro bar, ou a cor da camisa. Tô falando de decisão importante: Pra que lado eu vou colocar a minha carreira? Qual empresa escolher?

De um lado, uma startup com pouco menos de 20 funcionários, com um projeto sedutor e uma proposta de mudar a maneira com que as pessoas compram e vendem produtos e serviços. Do outro, um gigante varejista, tradicional, com plano de carreira, estrutura sólida, nome consolidado no mercado… e me oferecendo um salário 50% maior que a startup.

Xi, agora salgou…

Até então, a maior escolha (na vasta experiência que meus 22 anos me haviam dado), que eu tinha tido que tomar na vida foi se terminava ou não com a minha namorada. Ambicionando bem mais que as migalhas que o estágio me dava, tive que decidir.

E eu escolhi a startup.

Por quê? Porque eu sabia que ali seria a melhor opção pra minha carreira e… mentira, sabia nada. Simplesmente segui pela opção de trabalhar em algo que eu acreditava ser melhor e mais prazeroso. Foi intuição.

Sabia que a startup era instável, uma aposta. Mas também sabia que no varejo iria trabalhar longas jornadas de trabalho, focado 100% em aumentar os lucros dos acionistas. Provavelmente seria apenas mais um. Algo me dizia que eu queria “algo a mais”.

E entrei nessa aventura.

1,2,3 anos… E quando percebi, era gerente da área de marketing que, muito provavelmente, foi a maior investidora de mídia digital em 2014. Ganhei alguns prêmios, fui reconhecido no mercado, tive contato com grandes profissionais de mercado. Aquela pequena startup era o bomnegócio.com.

Quando me peguei racionalizando tudo isso, percebi o quanto foram boas as decisões que tomei pensando em, simplesmente, ficar em paz internamente, fazer o que eu gosto de verdade e trabalhar pra um propósito maior do que simplesmente enriquecer.

Agora é mole falar isso sendo gerente de uma empresa grande, né?

Então… um dos meus traumas de processo seletivo era sempre aquela famigerada pergunta: "Onde você se imagina daqui a X anos". Nunca tive coragem, mas sempre quis responder: "Amigo… me falta imaginação pra te responder o que eu posso estar fazendo."

Acontece que após esses maravilhosos 3 anos e meio de empresa, eu resolvi pedir demissão. O motivo? Acreditei que meu ciclo estivesse encerrado e já não me sentia feliz como era no começo.

E pra delírio da família, amigos, conhecidos, animais de estimação, fauna, flora, etc. Eu saí pra ir pra… lugar nenhum.

Tinha em mente que uma simples mudança de empresa seria o suficiente pra reacender aquela empolgação inicial. Porém, após algumas viagens, reflexões novas, novas experiências, contatos com diferentes pessoas, e até mesmo processos seletivos, resolvi que eu não queria voltar pro modelo tradicional. Não enquanto o tradicional ainda for do jeito que é hoje.

Ih, virou hippie… e o dinheiro?

Calma, não virei hippie, apesar de achar um movimento bem interessante!

Resolvi simplesmente dar um tempo pra me conhecer melhor e entender como eu poderia me encaixar num modelo em que, o que eu fizer vai ajudar mais pessoas e poderia também ajudar o mundo. Talvez achar uma empresa que pudesse fazer isso.

Tá, tá… muito bonito, mas vai viver como? De luz?

Não, infelizmente não faço fotossíntese.

Apesar da decisão de pedir minha demissão ter sido tomada em menos de duas semanas, eu tinha um dinheirinho guardado. Não era nenhuma fortuna, mas se eu apertasse bem daria pra viver por 1 ano sem fazer muitos cortes.

A idéia era ótima, pena que eu não tinha a menor idéia por onde começar. Após passar dois dias inteiros em casa e não fazer absolutamente nada, eu quase surtei. Precisa fazer ALGUMA coisa.

Alguma coisa pra achar essa empresa maravilhosa, né?!

Não, qualquer coisa… só precisava sair de casa. Comecei a falar com meus amigos e perguntar se eles precisavam de alguma ajuda. Pra qualquer coisa mesmo. Se eu queria ajudar o mundo, por que não começar ajudando meus amigos?

Foi em uma dessas ligações que recebi uma missão: “Vem cá pra ajudar a montar umas cadeiras!”. Era a Ana Julia Ghirello. “To montando um coworking e incubadora aqui em Santa Teresa”.

Que fase, hein? De gerente a montador de cadeira…

Calma, filho.

Lá fui eu pra Santa Teresa. Pra quem não sabe, fica em um morro localizado bem entre o centro e a zona sul do Rio de Janeiro. Lugar super charmoso, onde antigamente passava um bonde e era local da boemia carioca.

Bom, transporte público no Rio não é um primor de qualidade e abrangência. E eu, morador de Niterói, tinha um problema pra chegar lá.

Estimativa de chegada das barcas até Santa Teresa de ônibus: 43 min

Estimativa de chegada das barcas até Santa Teresa a pé: 48 min, 4,5km

Fui andando.

E simples assim redescobri algo que sempre gostei de fazer e nunca tinha tempo: andar por aí. Clareia as idéias, conhece lugares novos, emagrece, pega uma corzinha… tive idéias que já estão virando projetos, pensei em assuntos que nunca tinha tido "tempo" pra pensar.

Então, na dúvida, siga sua intuição e escolha um lado pra virar… e vá caminhando.

Continua…