mães, dates e a incrível capacidade humana de falar merda.

aí ela me disse que não era legal eu estar saindo com uma mulher que era mãe. Ah, gabriel, você é tão novo, isso não é bom pra você. eu fiz uma pergunta de keep going pra ver até onde minha amiga ia com aquele papo e, olha, ela ia. Porque você ainda é novo, gabriel, se isso ficar sério, vai ser um problema essa coisa dela ter um filho pequeno; cê vai acabar ocupando essa função, não é legal. Entende?

Evidente que não. Quer dizer, eu entendo várias coisas tortas a partir do ela disse, mas nessas horas cê tem que respirar, porque, né, não sei nem por onde eu começo.

No que ela fala tem uma teleologia do relacionamento. É assim: todo encontro sexual-amoroso se dirige pra um fim, e este fim é constituir uma família. Essa noção, profundamente heterossexual-monogamico-e-mais diz que vocês começam a sair, depois namoram, depois casam, depois tem filho. Famiglia. Então se a mulher que eu estou saindo já tem filho, então ela não serve pro meu date-teleológico: porque algum dia eu vou querer ter filho e aí ela vai falar, ai, bicha, já tenho.

Falando assim parece besta, mas é EXATAMENTE o que minha amiga disse. Acho que já paramos de verificar a virgindade pra habilitação da união, mas pelo visto a maternidade ainda não.

Uma outra premissa se esconde na fala dela: 1. que eu quero ser pai; 2. que eu quero pai de um filho geneticamente meu 3. que eu quero adotar o filho de alguém; 4. que esta mulher, que happens to be a mãe, tá procurando um pai pro filho dela.

De todos os pontos, o 4. é o que me grita. Donde foi que minha amiga tirou que uma mulher, só por ser mãe, quer introduzir seus filhos em todo e qualquer relacionamento dela? Ou ainda que ela PRECISA de um homem-pai? Parece que a pessoa já assume: mãe, está solteira, o pai não existe. Bicho, às vezes ele existe: a mulher está solteira, a função-mãe não precisa ter nada com isso.

Isso me parece esse acoplamento identitário que diz que a mulher, depois de exercer a função mãe, ela ontologicamente mudou pra mãe. Daí, não é bem mulher que ela é: mulher procura um parceiro, mãe procura um pai.

Que ideia. Eu, hein.

Eu não vou entrar na parte moralizante da coisa, que atribuí negatividade a conduta sexual de mães; que dúvida do caráter de mulheres que não são a companheira do pai das crias; que me parece a grande e velha negatividade do sexo, sempre estigmatizando mulheres — nunca homens.

Porque eu DUVIDO que tu encontra um paizão no rolê e pergunta, mei-surpresa-mei-inxirida, “com quem cê deixou as crianças?”. Essa conduta — a constante checagem das crianças — só acontece com mães: e não é cuidado, é supervisão moral da maternidade; forma social de coerção constante sobre mulheres. Porque até parece que você tá oferecendo companhia&cuidado perguntado isso no rolê, copin de cerveja na mão. Né.

Tudo isso me parece uma coisa que eu chamaria (alguém deve ter nomeado melhor) de “gestão pública da maternidade alheia”. Que tá interessada sempre em se tem filho, se não teve, se abortou, porquê, como. e nunca é pra cuidado e acolhimento. É “só pra saber”.

Este pedaço do rolê patriarcal tem uma agência feminina enorme, nesses círculos de controle de atividades maternas — que vai dessas perguntas bobas, passando pela moralização do cuidado de crianças, a ideia da necessidade constante da presença da mãe, quem vai nas reuniões de pais. A agência masculina opera: na ausência, mas também na ação — isso que minha amiga falou eu já ouvi de homens, dizendo que “fulana vem com kit”. Kit são as filhas/filhos.

[e digo mais: esse rolê meu “companheiro herói” porque “aceitou meus filhos” é parte do problema, mas fica pra outro dia]

O que eu quero destacar é como esses discursos que legitimam e constituem situações de desigualdade são cotidianamente produzidos por geral. Um homi babaca que “não sai com mães” e um outro babaca looks like cool que “adoro mães, adoro criança” fazem parte da mesmo conjunto que opera a partir dessas noções. As palavras fazem coisas, genty. Pra parar de fazer merda, tem que parar de falar merda.

Gabriel Guarino de Almeida

Written by

Artista Marcial que escreve. Escritor que ensina a dar soco. Às vezes a mão dói e não dá pra escrever.

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