o que aprendi andando oito dias no sertão com uma espada na cintura
os pés. imagine o efeito no corpo de andar em média trinta quilômetros por dia. Conhecer teu pé, teu balançar, teu compensar de erros e a experiência do silencio fadiga, do andar de cento e oitenta quilômetros pelo sertão mineiro o sertão lá do
cerrado. tu em meio ao um deserto de areia fofa que de súbito se inmeia em vereda e rio: “Perto de muita água, tudo é feliz”. E como se não bastasse o múltiplo do cerrado, dos verdes, das areias coloridas em meio ao infinito rosa: há Rosa e sua
literatura. textos de guimarães entrecortam o caminho: teu caminhar começa no rele(r)mbrar o universo-mundo-linguarem de Rosa e ver que o que ele fala existe: o Urucuia, as veredas, o Sertão. Uaikai e há
o real, como se já não fosse muito: o sertão em sua bruteza bunita dos conflitos de vida, entre lutas de água, agronegócio, assentamentos e desenvolvimento. Ouvir seu Romualdo, aprender com Cida, e ter dimensão do afeto e resiliencia das pessoas que no sertão mineiro vivem e resistem e enfim
os caminhantes. Pouco mais de cinqüenta mulheres e homens engajados em Brasil: de andarilho do rural e da cidade, havia beleza em todos os sorrisos e acho que não há nenhum olho em que não vi um brilho. Caminhar dez horas por dia faz a emergência do diálogo, da troca, do ouvir.
Dia 1 — Uaikai do Portal de Sagarana. Foto de Julia Chacur
Pois fui ao sertão e não voltei. Em minha despedida, falei das cansagens, das duvidezas e coisações que havia em mim. Não há. Por oito dias que foram mais, percorri o caminho do sertão — de sagarana à chapada gaúcha, rumo ao Liso do Sussuarão. Quase 180 quilometros a pé, que ainda me faltam palavras pra explicar. Nem hoje pretendo. Os cinco acima é a estrela de cinco pontas do caminho, que ando repetindo feito pregação na cidade. Engraçado que me chamaram profeta do sertão mas hoje venho dizer que
por oito dias e todos os quilômetros do Caminho do Sertão, carreguei uma espada na cintura.
Jián. 剑. Lâmina chinesa reta.
No início, acharam que era um bastão de caminhada, mas acabaram vendo: uma espada mesmo. As perguntas eram várias, a explicação em início a mesma:
daqui a duas semanas eu tenho uma competição muito importante e, conversando com meu professor e meu fisioterapeuta, concluimos que não seria bom ficar 10 dias sem praticar, logo na cara do Pan-Americano. Daí trouxe pra treinar.
De tanto repetir, descobri que era verdade e era mentira. Mire-veja: tem coisa que é mentirosamente verdadeira. A verdade é que o campeonato Pan-Americano de Kung-Fu é breve e este foi o motivo pelo qual pensei em levar a espada. Após as caminhadas, tirava ao menos uma hora pra praticar. E pratiquei. Descobri que o andar não impedia o treino: o intensificava. Durante estes dias, treinei no livre do sertão e descobri o mundo de praticar sem teto ou paredes.
As pessoas ficavam intrigadas. Umas duvidavam eu acho. Lá pelas tantas, começaram a se preocupar. “Tá conseguindo treinar, Gabriel?”. Pois sim. Ganhei nome: Shaolin do Sertão. Samurai do Sertão.
Dia 6 — Samurai do Sertão — Foto de Larissa Mayumi
Mas foi no dia do renascer que descobri a mentira. Em diálogo com Marcus, o Andarilho da Luz, entendi que estava mentindo: havia o simbólico do carregar a espada na cintura. Como os guerreiros que sempre li sobre, num universo longe no oriente. E ali, nas terras da jagunçagem, me vi rurouni, andarilho: como os samurais, os guerreiros, a andar pelas encruzilhadas portando a espada na cintura. Manejando o corpo-espada pelo mato-areia: foi quando ouvi minha própria voz dizendo aos meus alunos:
tua arma é uma extensão do seu corpo. Tua arma é parte do teu corpo.
Daí percebi que passe a vida buscando no oriente algo que havia aqui: o épico. Não tivemos medievo ou japão feudal, mas nossa batalha de sekigahara acontece(u) nos sertões deste brasil, em canudos, no Rio e mais. Grande sertão: veredas: épico de um Brasil de guerreiragens, cuja história torpe e oficial nega o caráter político. Andando pelas terras dos conflitos de Nhô Augusto, percebi que há um mundo de artes de facas, facões, fuzis e sertões neste brasil. E eu, arauto das técnicas chinesas, tomei um susto ao ver meu reflexo no vidro do carro, depois de dias sem espelho: eu vi um espadachim do sertão.
Dia 2 — Close de como andei nos gerais. Foto de Julia Chacur.
Chegar todo dia depois de trinta quilômetros e desembainhar sua espada pra praticar cortes no ar, pois há de estar sempre pronto. “viver é muito perigoso”, disse-me Riobaldo, mas também Taira Shigesuzke, ao escrever ao jovens guerreiros que sempre portassem suas espadas à cintura. Como no sertão fiz.
A esgrima é a arte de se fazer totalmente presente no instante. Uma luta real não dura mais de dois segundos. Um hesitar: morte. “Uai, mas é rápido, né?”.
Uai, é sim. Menos que uma
U nidade de A tenção ao
I nstante
Originally published at propositura.wordpress.com on July 24, 2017.
