A tentativa de narrar a inenarrável e oculta história do maior piloto brasileiro de todos os tempos.

Lendário corredor de rachas de rua do início dos anos 90, no Brasil, GEADA NEGRA recebeu essa alcunha devido a seu Chevette Tubarão totalmente negro. Ganhou mais de 420 corridas de arrancada em Tarumã e mais uma quantidade incontável de corridas de rua. Sempre intrigando o público por quase nunca descer do carro, mantendo assim, por muitos anos o mistério de quem estaria por trás do volante. As únicas pessoas que tinham acesso ao cokpit eram o presidente do autódromo, Seu Jair Valin, e o chefe de pista, Miro Zanelli. Nas ruas eram apenas ele, seu possante Chevette negro e, mais alguém que essa história só veio a apresentar mais tarde.

GEADA NEGRA disputou corridas históricas até mesmo com carros muito mais potentes que o Chevette Tubarão. Chegou a ganhar de carros como o Lamborghinni Del Rosso 7, trazido por empresários argentinos só para desafiá-lo. Famosas marcas tentavam patrocinar GEADA NEGRA que alegava que qualquer adesivo colado em seu Chevette seria o mesmo que um cicatriz em sua cara. Manteve-se sem nenhum patrocínio até o final da carreira, contando apenas com a ajuda financeira dos autódromos que na época pagavam altas cifras para que o piloto e sua incrível máquina negra se fizessem presentes.

Boatos que povoam a história do GEADA NEGRA e o imaginário dos fãs se intercalam. Em alguns momento convergem. Em outros chegam a conflitar. Ir em busca de fragmentos dessa história remontando um quebra cabeça de peças metalicas, pedaços de asfalto e borraça queimada, nos leva a uma veloz viagem que começa no inverno frio de 81, na cidade de Camaquã.

Quanto aos mistérios que rondam a origem do seu carro, poucos até hoje sabem ao certo. Alguns dizem que o jovem GEADA ganhou o Chevette já usado do pai, um dos melhores mecânicos da cidade e quem ajudou a transformar o filho em um mestre na arte de entender, sentir e ajustar um motor de carro.

“Carros tem alma. Alma que é compartilhada com quem os dirige e os enxergam além de um veículo. Quando a alma do motorista também é compartilhada com seu carro, seu motor, o mais forte dos corações, responde e vibra na mesma altura”.

Lições como essa foram passadas para um ainda iniciante na arte de acelerar.

Em uma madrugada ao voltar pra casa, após passar a noite com sua primeira garota, o pai encontrou o garoto sentado no sofá da sala com sorriso contido, porém visível. O pai sabia o motivo da alegria do jovem e também sabia que o filho, naquele momento, já vivia sua fase de amadurecimento. Convidou-o então para irem até o galpão abandonado da fazenda. O garoto ainda anestesiado pela sua primeira noite nos braços de uma mulher pode ver o pai arredando tábuas, caixotes, tonéis e uma grande lona empoeirada. O movimento de descortinar o que havia por debaixo daquela lona, apesar de rápido, pareceu lento e suave aos olhos atentos do rapaz.

Algumas lâmpadas do galpão iluminaram o carro negro que agora encarava ele. Após quase um minuto contemplando o carro sem dizer um única palavra, olhou rapidamente para seu pai e voltou a olhar para o carro. Até hoje, nem o pai nem o filho souberam dizer quanto tempo ele passou admirando o veículo até emitir novamente uma palavra.

O Chevette pertenceu em mistério por alguns anos a seu pai e agora era dele. O presente que veio do passado, mas que a partir dali, escreveria o futuro de um ainda atônito rapaz, que possívelmente estava tendo a melhor noite de sua vida.

Após alguns galões de gasolina o som mais perfeito aos ouvidos do garoto explodiu dentro do galpão a cada acelerada. Antes de se recolher seu pai o incentivou a acelerar pela estrada que passava em frente a fazenda e experimentar o Chevette que por meses vinha sendo preparado em surpresa para ele.

Ainda era noite e um milhão de estrelas ajudavam a iluminar aquela incrível noite. Em alguns momentos da estrada a lua cheia virava um grande farol na contra mão e em outros se tornava apenas a maior espectadora da primeira das muitas voltas que os dois viriam a dar juntos.

Já passava das 5 da manhã quando voltaram para a fazenda. Estacionou o carro em frente a varanda e ficou ali sentado na escada admirando cada centímetro de um carro que parecia ainda respirar após vários kilometros de retas, curvas e pé no fundo. A fria noite abraçava o Chevette enquanto que uma forte geada caía sob sua brilhosa lataria negra. Geadas densas como aquelas costumam deixar branco tudo por onde caem. Do mais verde dos pastos ao mais inquieto rebanho de gado. Porém esse efeito observado a cada inverno pelo rapaz se dava exatamente ao contrário, ali bem a sua frente. A geada que cobria o Chevette parecia ficar ainda mais escura a cada cair da madrugada.

GEADA NEGRA. Foi assim que o nome do carro surgiu em sua mente resultando em um leve sorriso no rosto naquele exato instante, antes do jovem ir -tentar- dormir embriagado de alegria.

Não demorou muito para o nome chegar ao conhecimento dos amigos e também para que o nome do carro se confundisse rapidamente ao seu.

Nas corridas de rua, que marcaram boa parte de sua adolescência, não ganhou muito mais que fama e alguns amores que vinham e iam com a mesma facilidade de uma troca de marchas e com a mesma rapidez do giro do seu motor. Esse período também trouxe alguma quantia em dinheiro e peças de carros, frutos de apostas tão ilegais quanto suas corridas. Boa parte do dinheiro foi investida no próprio carro, em combustível para viagens para outros Estados e países da America do Sul e também para ajudar a família e alguns poucos amigos.

Neco Pacheco, amigo do piloto desde os tempos de colégio nos conta uma história que marcou sua vida para sempre e umas das tantas que compõe a biografia do piloto. Após GEADA NEGRA descobrir que seu amigo Neco necessitava de delicada e cara cirurgia nas cordas vocais para não perder a já prejudicada fala, abasteceu o carro e na mesma madrugada rumou em direção ao norte.

“Uma certeza que trago comigo até hoje, é que ele sempre pilotou com o coração. Alguns tiveram acesso a esse jeito de amar e de pilotar. Eu fui um deles”.

Da viagem, apenas o amigo sabia. Dos motivos, apenas GEADA. Mais tarde soubesse que GEADA NEGRA veio descendo de Minas Gerais até o Sul, disputando toda e qualquer corrida que pudesse render algum dinheiro para a cirurgia. Uma semana depois buzinou em frente a casa do amigo, com o porta malas trazendo uma quantia em dinheiro alta até mesmo para um carro forte. Tiveram que embrulhar todo o dinheiro em um grande cobertor. Como de costume, GEADA sorriu, entrou no carro e acelerou. A cirurgia foi um sucesso e até hoje a voz de Neco é uma das mais entusiasmadas vozes a narrar a trajetória do amigo.

GEADA NEGRA jamais disputou uma corrida sob a luz do dia e nunca em sua carreira disputou mais que um racha por noite. Dizia que “o motor também precisa o tempo dele”.

Sua primeira aparição ao público foi em 93 na Corrida da Borracha Queimada, em Tarumã. Ao descer do carro para saudar a multidão, o público pode pela primeira vez conhecer Marquinho Piolho. Alemão aparentemente calmo, com cabelo liso e ralo. Vestia moletom azul escuro e chamou a atenção sua baixa estatura -1,57m -. Não deu nenhuma palavra e apenas acenou em direção ao público que ansioso e admirado contemplava o famoso GEADA NEGRA. Por meados de 99, o Chevette Tubarão foi perdendo o embalo e Marquinho Piolho deu adeus as pistas. Jair Valin conta que GEADA não era de muitas palavras. -sorria muito mais que falava e quando falava o seu olhar parecia contar boa parte das suas histórias”.

Talvez seu grande amigo foi o cão da raça boxer que ganhou ainda adolescente, antes da morte de seu pai. Para a extinta revista da epoca ARRANCA & CORRE, Marquinho Piolho contou que o segredo de sua corrida não estava no box e sim no boxer que esteve dentro do carro com ele, participando de mais de 95% de suas corridas.

GEADA NEGRA dizia que suas trocas de marchas eram baseadas nos latidos que o cão dava ao longo da arrancada.“Esse cachorro cresceu dentro da garagem ouvindo e entendo os sinas do motor do Tubarão”.

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Todos os anos nas madrugadas do dia 26 de agosto, milhares de admiradores e chevetteiros de todo o Brasil se reunem no autódromo para celebrar os feitos do pequeno gigante Marquinho Piolho, o GEADA NEGRA. Réplicas do característico carro do piloto, adesivos, camisetas e até mesmo tatuagens são algumas das homenagens que os fãs trazem consigo para juntos relembrarem alguns dos grandes feitos de quem hoje é venerado como o maior de todos os corredores de arrancada da história.

Em 2004, na cidade de Tapes, familiares e amigos da eterna lenda criaram o Instituto GEADA NEGRA que ajuda jovens da industria pesqueira da região a montarem seu próprio veículo.

O lançamento do Instituto contou com a inauguração de um dos mais importantes e significativos monumentos da história do automobilismo. Um Chevette negro inflável que fica boiando as margens da Lagoa Dos Patos em memória dessa grande lenda das pistas.

Quando fui procurado para contar essa história o sujeito que me ajudou a chegar em algumas das informações aqui contadas me aconselhou a encerrar o texto com a seguinte frase:

Parte dessa história aconteceu, está acontecendo ou está prestes a acontecer.

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