O dia em que virei clichê
E aqui estou eu, em pé, olhando para você dentro do caixão. Parece que você está prestes a levantar e reclamar! Que a maquiagem que fizeram não cobriu alguma mancha ou que o cabelo não ficou bom!
Logo você que era um camaleão de uma vaidade sem igual. Se havia alguém que mudava o cabelo (cor, corte e etc.) conforme o humor ou o tempo, esse alguém era você. É, minha amiga, realmente este caixão não te faz jus. Jus à pessoa que você era. Esse Ser Humano maiúsculo, que se doava a todos, que tinha uma energia tremenda, uma força, uma coragem, que eram de se invejar. Jus a quem deixou tantos amigos com o coração um pouco mais vazio, eu incluída nesse grupo.
Eram tantas coisas que eu queria te dizer, ao vivo, saboreando uma deliciosa taça de vinho, dando risadas, chorando juntas, dando aquele abraço apertado que só você sabe dar. E de que tantas saudades vou sentir!
Queria te dizer o quanto você é/foi (já não sei mais!) especial na minha vida e quantas lembranças maravilhosas me deixou. Queria ter finalmente agendado aquele almoço que nunca saiu do What’s, do Face e do LinkedIn. Queria ter levado meu filho para brincar com a sua filha, quem sabe eles não seriam bons amigos? Queria ter marcado de fazer compras juntas, de fazer um encontro de meninas quando os maridos fossem viajar a trabalho e ver aqueles romances bobos na TV onde tudo termina sempre bem. Queria ter aberto meu coração, pedido desculpas pelos meus erros e ter repetido que te amava pela milésima vez…
E aí me percebi o clichê! Clichê, no sentido figurado, é uma ideia já muito batida, uma fórmula muito repetida de falar ou escrever, um chavão.
Eu mesma que sempre detestei repassar clichês, me vi naquelas frases batidas: “não deixe de dizer a alguém que o ama, que sente muito, porque quando quiser, pode ser tarde demais!”
Graças a você agora faço parte da população que cria os clichês! Espere, não vou sair por aí gritando: “Aproveite o dia! Dance e cante como se não houvesse amanhã!” Claro, essa não sou eu.
Mas com certeza, de agora em diante, vou pensar em ser mais amorosa e tolerante, em passar mais tempo com as pessoas que amo e que me fazem bem, em usar meu tempo de maneira mais produtiva e agradável.
Porque, fico pensando aqui olhando para você, nos últimos momentos, eu não ia tolerar trocar um abraço, um gesto, uma palavra por uma mensagem virtual, seja ela como e qual for! E tenho certeza que você também não! Quem te conhece desde a adolescência e sabe o quanto você era animada, que gostava de festas e de reunir pessoas, de falar tudo em alto e bom som, com certeza não ia se contentar com um simples e singelo What’s!
Por isso, querida, esteja você onde estiver, saiba que você conseguiu deixar um legado. Além de uma família maravilhosa, um enorme respeito profissional e pessoal, ajudou muitos a saírem da mesmice de uma vida sem brilho, sempre disposta a ouvir e mexer céus e terra para ajudar a quem precisasse.
E eu sou eternamente grata por cada momento! E, se a gente tiver a sorte de se reencontrar um dia, o abraço estará guardado para, finalmente, te entregar à altura!
De quem sempre vai te amar.
Gabriela
Nota: este texto é dedicado a minha querida e amada amiga, Aline Leandre Guerra, que partiu nesta data para sua outra jornada. Espero que os céus a recebam de braços abertos com o respeito que merece. Aline era uma pessoa incompreendida por muitos. Mas era uma guerreira, vaidosa, inteligente, perspicaz, com um senso de humor aguçado. Que gostava de roupas coloridas, de fazer as unhas e mudar de cabelo. De comer coisas gostosas (que seu marido fazia) e saborear um bom vinho. Estava sempre disponível aos amigos, não importava a hora. Tinha um coração do tamanho do mundo! Viajou muito mesmo sem gostar tanto. Queria ter uma família e conseguiu! Com seu eterno namorado formou uma relação muito especial, daquelas de cinema mesmo. Amava animais, principalmente seu cão e gatos. Colecionava Espíritos Santos, era religiosa na medida certa mas seguia o espiritismo. Sem fanatismo. Dava gostosas risadas altas. Não tinha vergonha nem papas na língua. E, acima de tudo isso, era minha amiga!