Alice e o gato branco


Poderia ser engraçado se não fosse trágico. Alice sempre odiou seu próprio nome. Antiquado, sem graça e para piorar todo mundo a relacionava com a outra, do país das maravilhas. De maravilha sua vida não tinha nada. Era apenas uma sequência interminável de dias parecidos e horas arrastadas. Não se considerava triste, tampouco efusiva. Era apenas comum.

Comum como o cinza de uma tarde de inverno. Se fosse definir a paleta de cores da sua vida essa seria definitivamente uma combinação de pigmentos acinzentados, azulados e brancos.

Por conta do seu nome, detestava gatos! Odiava a possibilidade de alguém a relacionar com a das maravilhas só por conta do gato.

Mas como eu disse antes, seria cômico se não fosse trágico….

O dia amanheceu como outro qualquer. Alice se espreguiçou sob as cobertas amarrotadas e deu um grande suspiro. O suspiro do cansaço de começar mais um dia. Ainda no automático dirigiu-se à minúscula cozinha, quase cega pelo branco que invadia a janela. Café era mais necessário do que qualquer necessidade fisiológica.

Foi então que algo saiu da rotina. Um ruído estranho, inédito nas suas manhãs modorrentas. Parecia um gato. Será possível? Sim. Era um gato.

Pequeno e delicado, do lado de fora da sua janela. Chorava, miava, Alice não sabia ao certo.

Resolveu ignorar e continuou no automático para mais um dia de trabalho na agência descolada da qual fazia parte.

Já podia antecipar a agenda, afinal sua vida era uma sequência de horas iguais. Reunião. Café. Redes sociais. Reunião. Tentativa frustrada de escrever. Mensagem do cara da vez. Sexo à noite? Bar com as amigas e uma tonelada de fotos felizes. Quem poderia imaginar que Alice fosse tão branca e tão sem graça. Não era o que o Instagram colorido dizia…

Quase se atrasou, perdida que estava em devaneios. E o gato? Não vai parar de miar nunca? Só faltava essa….

Já havia tido relacionamentos longevos mas nenhum que ocupasse qualquer espaço. Família e amigos, sempre mais próximos pelo WhatsApp do que pelo olho no olho.

Gato maldito! Seu ronronar despertou sentimentos que ela sequer sabia que existiam.

A solidão da cama vazia na manhã seguinte de uma aventura. A intimidade superficial com as melhores amigas, sempre marcada pela competição ao invés da solidariedade. A preocupação constante em parecer, sempre aquilo que não era. Bem resolvida. Serena. Feliz…

Resolveu abria a janela. O gato entrou e sem pedir permissão aninhou-se aos seus pés.

Cogitou até em postar no Instagram uma foto daquele momento único. Pensou melhor: não. "Tão único que vou guardar comigo".

Sentiu amor. Lembrou-se de quando era menina e a mãe a aninhava no colo. A mãe que já não havia mais…

Espirrou! Talvez fosse alérgica a gatos. Talvez fosse alérgica ao amor. Quem há de saber.

As horas correram, mas agora de uma maneira diferente. Alienou-se do mundo. Olhava para o gato, que olhava para ela.

O cinza ganhou um tom. Decidiu-se por fim em tentar ser outra Alice. A Alice de quem vivia fugindo, a Alice que se entrega, confia, ama e se deixa amar. Virou Alice maravilhada pelo gato branco.