O percurso diacrônico do feminismo. 
 A luta emancipatória da mulher enquanto sintagma e as diferentes correntes feministas enquanto paradigmas.

O surgimento do feminismo e uma breve linha do tempo

O primeiro registro que se tem do termo “feminismo” é datado de 1837. Há divergências entre historiadores a respeito do que se pode caracterizar como feminismo ou luta feminista propriamente dita, mas, de modo geral, pode-se empregar o conceito de feminismo a uma causa que tenha abarcado a luta por equidade entre os gêneros e pela emancipação das mulheres enquanto cidadãs dotadas dos mesmos direitos dos homens.

Registrou-se durante a Revolução Francesa o primeiro ato reivindicatório referente ao direito feminino de votar, de frequentar instituições públicas e de ter participação política, a Declaração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Publicada em outubro de 1791, foi uma resposta à Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão que, durante a Revolução, anunciava direitos de liberdade e igualdade que se aplicavam apenas aos homens, enquanto as mulheres permaneciam invisibilizadas. A Declaração da militante francesa Olympe de Gouges foi completamente rejeitada à época, tendo sido retomada e republicada somente em 1986.

Apesar desse importante marco inicial, o feminismo só ganharia força nos séculos seguintes, com o surgimento de movimentos mais organizados, a partir dos quais pode-se dividir a história do feminismo em três grandes momentos, registrados como primeira, segunda e terceira onda.

A primeira onda refere-se às reivindicações travadas durante os séculos XIX e XX em que mulheres, sobretudo no Reino Unido e nos Estados Unidos, reivindicavam direitos contratuais de detenção de propriedades privada, participação e direitos políticos, oposição aos casamentos arranjados e ao pertencimento das esposas e filhos aos maridos.

A segunda onda focalizou-se principalmente nas reivindicações por igualdade não apenas políticas, mas também sociais e culturais. Os movimentos de luta por direitos sexuais e reprodutivos se acirraram nos anos 1960 associados a obras como O segundo sexo (1949) da escritora francesa Simone de Beauvoir que afirmava que a subalternidade das mulheres enquanto gênero é fruto de uma construção social e não biológica como é comumente naturalizado.

Feministas nos anos de 1960,o aborto legal e seguro como pauta pelos direitos reprodutivos femininos.

Já a terceira onda, estabelecida como todas as lutas e reivindicações que foram retomadas a partir dos anos de 1990 e se estendem até os dias atuais, aborda todas as pautas já levantadas pelas feministas do passado, ressurgindo como uma reação às falhas presentes na forma como muitas dessas reivindicações foram abordadas, incluindo o apagamento de mulheres pobres, negras, pertencentes a outras etnias e a grupos sociais marginalizados.

Uma relação diacrônica: os erros do passado nas pautas atuais

O feminismo atual, ou o feminismo da terceira onda, trabalha a luta por equidade social, política e econômica entre os gêneros e discute, entre outras temáticas, os apagamentos trazidos nas lutas ou ondas anteriores.

No feminismo interseccional, corrente surgida no final dos anos de 1980 com figuras como Kimberlé Crenshaw, tem-se como diretriz o recorte das especificidades dos diferentes tipos de mulheres as quais o feminismo em tese deveria abarcar.

Kimberlé Crenshaw, feminista interseccional.

Diferentemente do perfil das sufragistas britânicas que no inicio do século XIX conquistaram o direito ao voto sob as condições de serem maiores de 30 anos e possuírem uma ou mais propriedades em seu nome, as mulheres pobres, não brancas, mães solteiras, lésbicas ou transgêneras, possuíam, e ainda possuem, demandas mais urgentes e essenciais, como a de serem vistas como humanas, no caso das mulheres negras.

Exemplo desse apagamento de minorias femininas veio a público às vésperas do lançamento do filme As sufragistas (2015), longa que retrata a luta das mulheres no Reino Unido pelo direito à participação feminina na política. Mulheres pertencentes aos mais diferentes grupos sociais, historicamente marginalizados, questionaram a ausência na representação de mulheres comuns.

Isto é, aquelas que o filme não retratou, justamente porque o movimento do sufrágio não abarcou outras categorias de mulheres, uma falha num movimento que deveria ser amplo e democratizado.

A interseccionalidade surgiu a partir da demanda dessas mulheres historicamente invisibilizadas de serem ouvidas e vistas como mulheres que, além de sofrer com o machismo e com a misoginia, também têm de enfrentar o racismo, a pobreza, a transfobia e o preconceito motivado pela orientação sexual.

Ainda hoje a diferença nas demandas entre os diversos grupos de mulheres ilustra o tamanho da desigualdade que, enquanto mulher, é preciso se enfrentar.

De acordo com o Mapa da Violência de 2015, relatório divulgado pela Flacso, o feminicídio contra mulheres negras aumentou 54% de 2003 a 2013, enquanto que o mesmo crime cometido contra mulheres brancas teve um índice de diminuição de 9,8% no mesmo período, mulheres negras chegam a ganhar menos de 40% do que ganham homens brancos[1], o acesso a direitos básicos de saúde a mulheres negras é restrito, estas são vistas, de forma estereotipada, como fortes podendo suportar procedimentos dolorosos sem anestesia[2].

De acordo com a história e com o percurso que a luta das mulheres trilhou ao longo dos séculos é possível afirmar que, de fato, muito se conquistou até os dias de hoje, e com base nos índices apontados, é nítido também que muito se deixou de lado. Cabe acrescentar que vários direitos tão básicos deixaram de ser assegurados ou simplesmente não se tornaram demandas reivindicáveis pelo fato de o feminismo ter sido durante muito tempo uma causa restrita a meios e grupos estruturalmente privilegiados.

Com a popularização da internet e de suas redes sociais isso mudou, o feminismo tornou-se acessível, com uma linguagem direcionada e inteligível, aos mais diferentes grupos. A criação de blogs, sites, páginas e perfis voltados a minorias específicas levou à disseminação e ao debate de ideais que antes ficavam restritas a meios acadêmicos e a grupos homogêneos que, por não possuírem diferentes vivências, deixavam de trabalhar pautas essenciais, que hoje podem ser apontadas e discutidas.

Campanhas que surgem nas redes sociais de forma autônoma e independente denunciam e questionam o machismo vivido nos dias de hoje.

A emancipação feminina enquanto sintagma e as diferentes correntes feministas enquanto paradigmas.

É sabido que a luta pela emancipação política, econômica e social feminina é uma só, mas ao longo desse percurso pautas e modos de efetivar determinadas reivindicações divergiram, dando abertura para que o movimento se ramificasse originando algumas correntes, que criam uma gama considerável de possibilidades em uma mesma luta.

O feminismo radical

Ao contrário do que se pode supor em primeiro momento, o “radical” da terminologia não está ligado a extremismos, mas ao que é relativo a raiz, às origens da luta. O feminismo radical tem como base, entre outras, o materialismo, conceito que entende que as relações sociais de opressão são fruto dos mais diferentes construtos sociais não sendo necessariamente inatas. Uma das marcas mais características do feminismo radical atual é a ideia de que o conceito da divisão de gêneros por si só é o que motiva opressões como o machismo e a misoginia e que em um mundo igualitário ideal o gênero será algo inexistente.

O feminismo liberal

O feminismo liberal ou feminismo universalista carrega esse nome por tratar das questões feministas como um caráter individual, aproxima-se aos ideais do liberalismo econômico, entre eles o de que através do próprio esforço e luta as mulheres terão suas demandas alcançadas. Nessa corrente acredita-se que a educação e uma reforma no capitalismo seriam suficientes para que equidades de direitos entre homens e mulheres sejam alcançadas.

O feminismo interseccional.

O conceito de interseccionalidade surge da necessidade de se trabalhar as demandas dos diferentes perfis de mulheres e as diferentes estratégias de reivindicações. Durante muito tempo o feminismo permaneceu restrito a um grupo de mulheres que por pertencerem às camadas dominantes da sociedade inviabilizaram por anos as pautas de diversos grupos minoritários, hoje contemplados pelo feminismo interseccional.

Considerações finais

A luta pela igualdade de direitos entre os gêneros é perceptível e se faz necessária há séculos, o percurso do feminismo ao longo dos tempos, as pautas, as reivindicações e as demandas se intensificaram e se modificaram ao passo em que sua trajetória se legitimara.

Ao lançar mão de um comparativo entre a trajetória diacrônica de Saussure nos estudos da ciência da linguagem e o percurso histórico do feminismo, pode-se traçar um paralelo em que assim como os estudos Sausurreanos se desenvolveram a partir do confronto de percepções pertinentes à suas respectivas épocas, da mesma forma em que a luta pela emancipação das mulheres ao longo da história vive de resgatar as conquistas do passado para entender que estas possibilitaram os caminhos trilhados na modernidade.

Mantendo essa mesma lógica comparativa, o conceito de sintagma dentro dos estudos da linguística enquanto um conjunto que abrange uma série de possibilidades, sob um olhar generalista, pode ser relacionado a toda a luta emancipatória feminina. Enquanto que suas correntes, sendo estas as muitas possibilidades de significa-la, seriam os seus paradigmas.

Cabe concluir que entre as diversas conquistas do feminismo está o fortalecimento do movimento que hoje caminha rumo a uma universalização no que se refere ao seu alcance. A necessidade, ainda hoje, da promoção do debate de demandas básicas e a ampliação da discussão acerca de questões específicas das mulheres é marca de uma sociedade que tem caminhado vagarosamente rumo à dissolução de suas próprias desigualdades e injustiças.

[1] Fonte: IPEA.

[2]“Desigualdade racial no Brasil: um olhar para a saúde”. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/desafios/index.php?option=com_content&view=article&id=2688:catid=28&Itemid=23>. Acesso em: 23 maio 2016.