Todo intercâmbio #5, O bebê

[Esse texto é uma continuação de outros, mas os textos são em algum grau independentes: você pode ler um, dois, todos, nenhum, ler metade de um e ler na ordem que quiser. Tudo está acontecendo agora.

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- E onde é que tá meu sobrinho? Tô louca pra conhecer ele. — Ela disse pra irmã.

- Ele está dormindo agora… E não quero acordar ele, o pequeno demorou tanto pra pegar no sono tadinho… — A irmã disse ajudando ela a tirar a mala do carro.

- Ah, desculpa vir a essa hora da noite… Peguei um dos últimos ônibus. Parece que eu sempre faço isso. Obrigado por me deixar passar essa noite aqui na tua casa. Amanhã eu vou pra casa do pai e da mãe. É bom que vocês moram pertinho… Mas eu tava afim de ficar um pouco só contigo.

- Ai, imagina! Eu super te entendo… Não é fácil ficar com a mãe e com o pai. Quer dizer, eu também morro de saudades deles… Mas, enfim. Você não tá com fome?

- Tô!

- Então vem que tem uma lasanha de hoje cedo no forno… Vou esquentar ela pra você. — A irmã disse.

Ela comeu e a irmã a assistiu com satisfação. Estavam ali as duas irmãs, depois de quase um ano desde a última vez que se viram. Ela viera para as festas de fim de ano.

- Eu trouxe uns presentes de Natal pro seu filhinho… Eu não sei se são coisas que você tá precisando, mas enfim, dá pra trocar qualquer coisa… Mas só lá nas lojas da praia. Bom, numa dessas a distribuidora é aqui na capital né.

- Ai, relaxa! Tava gostosa a lasanha?

- Muito!

- Eu não sei cozinhar muita coisa, mas agora eu tô me virando… Bom, na verdade quem cozinha mais é o meu marido, né. Se fosse a lasanha dele você ia tar comendo a melhor lasanha da tua vida, juro.

- Ah, que bacana. O meu namorado também faz umas coisas muito gostosas. Mas a gente anda tão sem tempo, os dois sempre tão cansados… Andamos pedindo mais pizza do que outra coisa.

- Ah, mas pizza é uma delícia também.

- Ah, sim, com certeza. Mas a gente sempre pede, sei lá. Acho que vou falar pra gente cozinhar algo juntos da próxima vez, igual como quando a gente se conheceu. Sabe aquele negócio que a mãe fala que cozinhar a própria comida faz bem pra alma?

- Ah, é, com certeza. Vocês se conheceram cozinhando?

- Ah, sim. Quer dizer, a gente saiu pra jantar antes. Mas quando ele foi lá em casa, assim, oficial, a gente cozinhou.

- Ai, que legal. Falando em cozinha, eu tô louca pra ir naquele restaurante chiquérrimo de frutos do mar… Sabe? Um que tinha só na praia? Veio aqui pra capital, acredita?

- Nossa, eu fui lá ontem! Mas no da praia, óbvio.

- O que? Não me diga! E não trouxe nenhuma lagosta pra sua irmã?

As duas deram risada.

- É, eu realmente comi lagosta.

- Rica! — A irmã sorriu pra ela.

- Que nada, meu namorado pagou tudo.

- Puxa… Vocês devem estar bem felizes juntos.

- É… — Ela suspirou.

- Ih… Eu te conheço. Fala pra sua irmã o que tá acontecendo.

- É que… Pra ser sincera, isso me deixou irritada. Na verdade, eu reclamei que estávamos só comendo pizza. E aí, como ontem a gente saiu pra comemorar antes de eu vir pra cá e tal, ele resolveu me levar nesse restaurante. E ele pediu os pratos mais caros, e ficou me fazendo mil juras de amor…

- E o que tem de errado nisso?

A irmã empurrou o resto do molho de tomate do prato pra longe de si com o garfo.

- É que às vezes eu não consigo acreditar, sabe. Todas as juras de amor, as flores, os pratos caros… Tudo parece um exagero, algo que não é sincero, como se ele me dissesse “eu te amo” tantas vezes pra que ele acreditasse que isso é verdade, sabe?

- Como assim? Você acha que ele não te ama?

- Não, provavelmente ele me ama… Mas talvez ele me ame menos do que ele pensa. Sei lá.

- E o que te leva a pensar isso? — A irmã perguntou.

- Ontem mesmo eu fui ao banheiro no meio do jantar… E quando eu voltei ele tava no celular. E eu comecei a conversar com ele. E ele continuou no celular. E ele respondia tudo que eu falava, e pior, respondia certo. Mas… Talvez seja egoísmo meu, mas…

- Não, não se julgue por nada. Diz o que você sente pra mim.

- Eu queria que a atenção dele, naquele momento, fosse toda dada pra mim. Entende? De que valeu ele passar o dia dizendo que me amava? E me levar no restaurante mais caro da cidade? Era o nosso último dia juntos antes de eu vir passar o Natal aqui com meus pais…

A irmã respirou fundo. Guardou a lasanha no forno. As duas estavam em silêncio. A irmã pegou um copo d’água. Outro. Colocou dois copos na mesa. Ela ficou esperando uma resposta da irmã. A irmã não dizia nada, apenas pensava. Então ela continuou:

- Eu fico tentando valorizar as coisas boas que ele faz… Ele é muito bom pra mim… Mas no fim das contas tudo pesa menos do que as pequenas atitudes que eu queria que ele fizesse.

- E o que ele pensa de você? — A irmã disse.

Ela olhou as unhas sóbrias da irmã. Estranho, a irmã sempre usou unhas tão coloridas…

- Aquilo que todos os meus namorados sempre me disseram. Que eu sou fria e esquisita.

- Credo, ele te disse isso? Que babaca!

- Não, não é assim, calma… Ele não falou nessas palavras. Ele só reclamou um dia que eu não mandava muitas mensagens. — Ela sorriu e riu. — Na verdade eu realmente demonstro bem menos do que ele, quer dizer, não sou escandalosa e dramática como ele com meus sentimentos, você me conhece. Dizer todas essas coisas pra você já é uma conquista muito grande…

A irmã segurou a mão dela e sorriu-lhe com os olhos.

- E tenho certeza que você dedica muitas pequenas atitudes pra ele, como você sempre fez com todos que amava… Acho que entendi. O seu amor é silencioso e clandestino como um sussurro, e o amor dele é um grito, que ecoa, mas desaparece no ar.

Ela apertou a mão da irmã. Sentiu vontade de chorar.

- Isso! Isso mesmo! Meus ouvidos e minha garganta até doem com todas as vezes que ele me disse “eu te amo”. É, meus ouvidos e minha garganta doem há tanto tempo… De tanto ouvir e engolir esse amor plástico, esse grito vazio no vazio…

A irmã bebeu um gole de água. Ela também. A irmã disse:

- Esses dias o meu marido sentou no piano e tocou várias e várias vezes uma música insuportável.

- Justo o seu marido? Que te conquistou com os choros do Nazareth? — Ela disse.

- Não, você não tem noção de como era insuportável.

- Como uma música de piano pode ser insuportável?

- Tem várias músicas insuportáveis. Já ouviu estudos de escalas? A desses dias era uma música pop que uma mulher queria pro casamento dela… Ela contratou ele e tal. A música nem era tão ruim, mas ele ficou estudando e arrumando a música milhões de vezes… Já era bem tarde da noite, eu queria dormir e o bebê também, nós brigamos… Enfim. Foi o maior barraco. Ele estava preocupado com o trabalho dele, com a música que tinha que tocar no casamento da mulher, com a grana que ia ganhar. No fim da discussão eu fui dormir, o bebê de algum jeito pegou no sono e ele continuou estudando a maldita música noite adentro.

- Que merda.

- Sim. Eu me revirei na cama durante um tempão até pegar no sono. Ainda bem que não percebi ele vindo dormir depois, se não tinha chutado ele. Senti muita raiva por ele ter sido egoísta, não só comigo, mas também com o filho dele. Ficamos de mal no outro dia, ficamos em silêncio, ele foi tocar no tal casamento e só voltou de madrugada… Enfim, só fomos conversar sobre o que aconteceu quase dois dias depois. E sabe o que ele me disse?

- O que?

- Que ele se sentiu mal a noite inteira enquanto tocava. Ele precisava consertar a música e achar os acordes certos, era pra tocar com outros instrumentistas, ah, eu não entendo nada de música… Mas enfim. Ele me disse que precisava tocar, treinar e compor várias coisas da música, do arranjo, e não conseguiu parar de tocar naquele momento porque estava preocupado com o casamento. Ele disse que sim, ele devia ter parado de tocar imediatamente, e devia ter pensado em mim e no filho dele. Mas ele não conseguiu. Ele falhou. Mas ele se sentiu mal. E continuou se sentindo mal no dia do casamento da mulher na hora que tocou a música. Claro, se sentia mal por nós.

- E depois dele falar isso vocês se acertaram?

- Não. Eu ainda estava chateada. Ele vive fazendo essas cagadas. Mas aí ele me disse o seguinte: “o que mais me chateou é que eu só percebi o quanto aquilo te machucava meia hora depois de termos terminado o barraco e você ter ido dormir. E aí eu fiquei muito, muito triste pensando em você”.

- E aí?

- Bom, primeiro eu me senti triste. Porque ele demorou uma eternidade pra entender que eu tava triste. Tipo assim, ele não lê minha mente, não tem jeito. Mas aí eu me senti feliz porque eu existia nos pensamentos dele. Ele me colocava, dentro dos seus pensamentos, pra confrontar os seus valores… Ele me colocava confrontando a mulher do casamento que pediu o arranjo da música. Talvez naquela noite ela tenha ganho a luta, afinal ele continuou ensaiando… Mas eu continuei lá, lutando dentro dele pra que ele conseguisse pensar em mim como prioridade…

Ela arrumou os cabelos atrás das orelhas.

- Acho que entendi aonde você quer chegar. Acha que eu estou vivendo a mesma coisa? Mas isso não é terrível? Sonhar com um amor que ele jamais vai demonstrar? Me contentar que eu estou nos pensamentos dele?

A irmã ajeitou a postura. Olhou as próprias unhas e considerou pintá-las de outra cor.

- Não é se contentar. É saber e confiar que você está lá. Lembra da última conversa que tivemos? Se você disser as coisas que você sente pra ele, num primeiro momento será horrível. Ele vai se sentir péssimo por não ter largado o celular naquela noite. E então ele vai confrontar as coisas que ele acredita… Se ele quiser continuar com você é porque todas as certezas dele estão constantemente mudando de lugar… E isso é lindo. Isso é um amor sincero, e uma entrega plena dele para você. Lute pelo seu amor porque ele existe. Continue sendo quem você é, mas não desista de encontrar esse alguém que ele também está buscando dentro de si próprio.

Ouviram o choro de um bebê.

- Xi… Parece que teu sobrinho quer te conhecer hoje. — A irmã disse. — Anda, vamos lá no quarto.

Quando elas entraram no quarto o marido da irmã estava com o bebê no colo.

- Pronto, pronto… O que aconteceu? — Ele dizia.

- Oi amor… Você tava acordado? — A irmã disse.

- Não. Mas eu acordei do nada, no meio da noite, pensando no nosso filho. E aí ele começou a chorar. Ah, e a tia dele tá aqui, que bacana! — Ele e ela se cumprimentaram.

- Puxa… Ele é lindo.

- Quer segurar? — Ele disse.

- Quero. — Ela respondeu.

Segurou a criatura nos braços… Ele já não chorava mais. O bebê provavelmente sabia que estavam todos ali na casa e queria companhia.

- Ele é tão lindo! — Ela disse. — Ele é a coisa mais linda que eu já vi na vida! É tão pequeno, tão frágil…

A irmã então pegou ele dos braços dela e colocou-o outra vez no berço.

- Olha só, esse moleque já pegou no sono outra vez… Só queria te conhecer mesmo.

- Eu também queria muito conhecê-lo. Vamos cercar ele com todo o nosso amor…

Estou pensando em você.

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