Jamón&Miel.

Ela desejava pelo menos três vezes ao dia que seus braços fossem mais finos.

Não sabia o porquê. Mas os queria. Mais finos.

Apenas ansiava sem saber a origem do querer — e julgava que isso fosse errado. Essa coisa de não saber exatamente a origem dos sentimentos — ela apenas queria.

Mais um desses quereres sem saber.

Engoliu uma abelha. E ficou a pensar o que uma abelha poderia querer dentro dela. Não se desesperou, não gritou. Apenas esperou sentir o caminho que a abelha desenhara dentro dela. Sentiu um leve desconforto dentro de si e logo depois uma pontada no estômago — deveria de ser o ferrão acariciando-a por dentro, esse carinho torto que mais parece uma ferroada — guardou a abelha dentro de si e quis que ela nunca mais saísse (mesmo que a machucasse). Quem sabe não produziria um tipo de mel específico cultivado em cativeiro e assim a deixaria mais doce?
Achava engraçada a dor produzir o sabor doce do mel. Mas andava precisada de doçura.

Saiu à rua para comprar frios. 200g de presunto magro. Esperou que fatiassem o embutido e pensou que gostaria que fatiassem-lhes as coxas. Seria boa a sensação de sentir suas coxas mais finas. Lembrou do que seu pai sempre lhe dissera — Filha, quando você nasceu eu temia que suas coxas nunca engrossassem. Elas eram coxas tão finas. Dava medo — pensou que talvez o pai tivesse desejado um pouco demais. E não só as coxas ficaram grossas mas como também os braços.

Por que haveria de querer que tudo fosse mais fino se seu pai um dia a quis mais grossa? Não entendia.

Queria saber a origem dos desejos. De todos eles.
Os quereres pareciam mudar com os tempos.

Queria ser menor.
Queria ser mais fina.

Talvez se um dia engolisse uma abelha poderia produzir mel.
E ser doce.
Mesmo com dor.

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