O cheiro é de pólvora, e eu prefiro rosas

Quando eu era pequeno, eu lembro de um cheiro, era um cheiro o qual eu nunca me esqueci. Não lembro dele, mas eu obviamente nunca o perdi da minha memória. Talvez seja o cheiro de uma das professoras, algum perfume velho que devem ter parado de fabricar. Talvez seja esse o motivo pelo qual eu sinta ele de anos em anos apenas, enquanto caminho na rua. E sempre que o sinto, eu sigo a pessoa com o nariz, depois sigo meu caminho, com um sorriso no rosto nos próximos minutos.

É apenas um cheiro cristalizado na minha memória, mas de alguma forma, aquele simples cheiro me remete ao jardim de infância, me remete aos dias que eu chorava durante as 3 primeiras aulas, porque eu tinha a impressão de que a minha mãe me deixara na escola sem a intenção de me buscar. O que de fato nunca aconteceu. O cheiro me remete a eu e meus coleguinhas todos escovando os dentes depois de comer o incrível mingau que uma das merendeiras fazia, mingau esse que eu nunca provei um tão bom novamente, e talvez eu nunca coma de novo, porque era o mingau que o eu de 7 anos comeu, não o eu de 17, ou 20, ou 45 comerei.

O cheiro me remete a primeira vez que eu fiz massinha de modelar, uma massinha de modelar que nem de perto tinha aquele mesmo cheiro da comprada (pra nossa sorte, talvez, porque assim não tínhamos vontade de comer ela. Inclusive, de quem foi a péssima ideia de por um cheiro tão comestível em algo que pode fazer crianças engasgarem?), e nem tinham tantas cores quanto as compradas, mas era algo feito por mim. E talvez a primeira vez que eu tenha sentido a sensação de criar algo.

O cheiro me remete a sensação de ver minha mãe me buscando no Jardim de Infância, que era uma das sensações mais marcantes, eu nunca esquecerei como o trajeto era, as árvores que tinham no caminho do Jardim até a minha casa, da minha prima que ia comigo e a minha mãe apertados na Bis da minha mãe (eram outros tempos)

O cheiro me remete a minha família ‘super feliz’ aos 7 anos, aquela sensação de estarmos todos unidos, aquela sensação de natal em família, sabe, todos ali, tios, avós, mãe e pai juntos. Talvez nem fosse tudo tão lindo quanto eu me lembro, mas nos olhos do pequeno Junior de 7 anos era, e é assim que eu gosto de me lembrar.

O sentimento de nostalgia é bom e ruim ao mesmo tempo, é bom lembrar, mas se focar muito em relembrar, a gente nota o quão bom foi o tempo, e como é impossível voltar a aquele tempo.

Talvez seja por isso que eu sinta esse cheiro tão poucas vezes, para me manter focado no presente e não ficar vivendo um passado muito melhor que o agora. Mas eu não vejo a hora de sentir ele de novo devo admitir.

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