Capítulos LVIII a LXII

Na época em que a Nuvem do Não-Saber foi escrita, havia um certo alvoroço em torno das experiências místicas. Pululavam gente afirmando ter recebido a graça das contemplações divinas, visões do paraíso, do inferno e arroubos para o terceiro, quarto e enésimo céu, enfim, digamos que o Tribunal do Santo Ofício teve muito o que analisar para separar os verdadeiros místicos, daqueles que confundiam experiências extáticas, gozadas por meio da graça sobrenatural, com sua mera fantasia imaginativa, daí porque o autor adverte diversas vezes para, no momento da oração, não forçar nossa capacidade imaginativa a fim de criar cenas em que anjos, santos ou o próprio Cristo descem à terra para nos visitar, pois os santos que foram agraciados com tal dom, o foram não porque tinham imaginação fértil, mas porque o Senhor assim o quis.

O monge também alerta para que a oração não se reduza a um espetáculo histriônico, onde o fiel se preocupa mais com gestos, do que com sua postura interior. A advertência era para um certo tipo de pessoas para as quais o rezar era, menos um exercício espiritual, e mais uma ginástica corporal. O sujeito pensava, porque Jesus ascendeu aos céus, que se rezasse com os olhos fitos no firmamento era mais fácil ver o Cristo, ou que era mais certo imaginar Jesus em pé nas nuvens, a visualizá-lo sentado, pois que certos santos assim O tinham visto, ou seja, eram um tipo de fiel — e ainda hoje há muitos assim — , que só conseguem entender as coisas no sentido literal, sem sequer imaginar que possa haver um significado espiritual nas aparições e mesmo no narrativa bíblica.

Quando no Evangelho se diz que Cristo subiu ao monte para orar, ou, no trecho em que se narra a transfiguração do Senhor, em que, tendo subido à montanha Pedro, João e Tiago, todos os três testemunharam Jesus no esplendor de Sua divindade, não entendamos com essas passagens que a oração é mais válida se for feita no cume de um monte, ou que é mais fácil ver Nosso Senhor estando no pico do Evereste, posto que, não obstante os fatos terem assim ocorrido, a montanha para nós deve ter um significado espiritual, e não material.

“Você tem que compreender que todos aqueles que se dedicam a exercícios espirituais, e particularmente aos exercício descritos neste livro, ainda que leiam as palavras ‘levantar’ ou ‘entrar’
(…)
devem observar cuidadosamente o fato de que este movimento não significa nem elevar-se fisicamente ou em sua essência, como também não é um movimento local, isto é, de um lugar para o outro.
(…)
Porque a perfeição desse exercício é tão pura e tão espiritual em si mesmo que, quando é bem e claramente interpretada, deverá ser compreendida como algo que nada tenha a ver com qualquer movimento ou lugar.”

Portanto, seja no exercício descrito no livro ou em qualquer outro tipo de oração, o que irá torná-la mais agradável a Deus é a nossa disposição interior. O nosso desejo sincero em estar na Sua Presença em espírito e em verdade. Assim, estejamos em pé, de joelhos ou sentados fisicamente, o que interessa aqui é que nossa alma esteja se esforçando em dirigir sua atenção exclusivamente a Deus.

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Aqui só um parêntese se faz necessário. No que se refere à postura nos momentos de oração, em que não devemos nos obrigar a se pôr de joelhos ou sentados; com os olhos abertos ou fechado, e de cabeça baixa ou levantada, mas que procuremos uma postura que não nos tire a atenção, seja pelo excessivo confortou ou desconforto, é evidente que tais recomendações são dirigidas quando de nossas orações particulares, pois que, no âmbito da liturgia há momentos em que se faz necessária a genuflexão, o estar de pé e o permanecer sentado, ao menos, é lógico, quando não for possível permanecer em tais posições.