Em seu Outono da Idade Média, Huizinga indaga-se acerca das obras de arte do século XIV e XV levantando a seguinte questão: como foi possível, diante de todo o horror que assolava a Europa naquele tempo — peste negra, guerra entre França e Inglaterra, cisma na Igreja, rixa entre clãs poderosos, fome e carestia de alimentos — criar obras tão belas, preenchidas com um alegre colorido e cujos temas nem de longe tangenciavam o horror que se vivia naquela época? Como foi possível naquele contexto surgir a pintura flamenga e o gótico internacional? Seria a arte medieval escapista e idealista? Huizinga nos responde que não. O artista medieval não era cego para a realidade que o cercava; ele tinha plena consciência dos males de seu tempo, mas nem por isso se deixava desanimar diante do caos, pois sabia que toda aquela barbárie, violência e iniquidade não teriam a palavra final. O mundo poderia até está no seus últimos dias, mas havia a certeza de que, no fim, o triunfo seria do Bem, e a explicação para toda a beleza das obras daquela época era a de que havia, na mente e no coração do artista, o anseio por uma vida melhor e mais bela.

Os medievais tinham consciência de que essa vida tão anelada, não radicava em qualquer utopia de um paraíso terreno, ela, em verdade, vinha da confiança de que Deus, na Sua Providência, iria restaurar todas as coisas por sua infinita Misericórdia e triunfar sobre o mal. Eles, em poucas palavras, tinham fé. E aqui chego ao ponto que eu queria: o desconforto que temos ante a arte moderna, não é porque ela é vazia de significado ou porque seus criadores são tecnicamente incapazes de criar belas obras, mas é devido a falta de fé do homem moderno — a nossa falta de fé — , aquilo que explica o fato de ser tão perturbador o exercício de contemplá-las.

Sim, os horrores que o século XX conheceu, em comparação com aqueles de outrora, são muito mais hediondos e suas vítimas mais numerosas. A Idade Média não conheceu duas Grandes Guerras, campos de concentração e gulags, explosões atômica e catástrofes radioativas, mas não percamos de vista que os males que o medievo viveu, para ele, eram já o prelúdio do Apocalipse, e, mesmo assim, os artistas souberam representar a esperança de que as coisas poderiam, e iriam, melhorar. Já o moderno, vendo toda a desgraça que se abateu no século XX, não consegue transcender aquilo que vê, e se afunda num abismo de desesperança, angústia, desespero e expressa esse mau estar em suas obras.

Os artistas modernos, ao menos os grandes, não pintam rostos e corpos deformados, parecendo borrões ou colagem de fragmentos, por ódio gratuito ao belo, falta de técnica, ou pela simples necessidade em transgredir os cânones clássicos, como dizem muitos críticos de arte. O artista moderno pinta aquilo que vê e sente em seu coração, todavia, ou porque não tem fé ou porque confia pouco na Providência divina, não tem esperança na soberania do bem, e daí expressa tão somente o silêncio de Deus, que, como que se virasse as costas para o mundo, deixasse-nos entregue às nossas próprias misérias e iniquidades. Para o homem moderno já não há mais a certeza de que Cristo dorme tranquilo na barca da humanidade, castigada pela tempestade do mundo, esperando apenas que nos voltemos a Ele, para que, com Sua ordem apazigue as ondas e os ventos tempestuosos, ao contrário, a crença atual é a de que o barco está furado e na iminência de sucumbir às ondas, e esse é o motivo da arte moderna expressar apenas o desespero, o medo, e a sensação de abandono e orfandade de que provamos atualmente.

Mas é também verdade que, toda grande obra de arte expressa não só a personalidade, os dramas, alegrias e os anseios de seu criador, mas também de toda a humanidade. Uma obra de arte é, a um só tempo, retrato de seu autor, e de todos nós. E aí está o motivo da inquietação que a arte moderna causa, sobretudo naqueles entusiastas da arte medieval e clássica. É que a pintura cubista e expressionista — para citar aqueles estilos mais criticados — , com seus borrões, linhas tremidas e imagens fragmentárias, de alguma forma não expressam apenas o estado da alma do artista, mas a de todos nós, homens modernos. Nós nos vemos naqueles desenhos confusos, pontudos e fragmentados de Picasso e não gostamos muito desse reflexo, daí porque muitos acham por bem repudiar tais desenhos alegando que seu autor não sabia pintar ou queria apenas chocar o espectador. Repudiamos a arte moderna como quem, desfigurado por um acidente, retira todos os espelhos da casa para não se vê ali refletido.

Ao invés de entendermos a arte moderna como o diagnostico da fragmentação e caos psíquico, bem como a falta de fé de que padecemos, para procurar remediar esse males alimentando a esperança na Bondade e Providência divina, voltamos os olhos para a arte do passado, e caímos num idealismo bobo de que tudo que é antigo é bom, e o novo é sempre feio e ruim. Porém, de nada adianta esse ufanismo cronológico em matéria de arte. É preciso, ao contrário, identificar na arte de todos os tempos aquilo que as une, que é o anseio pelo Absoluto.