Capítulo IV

Segundo o autor, nossa alma possui duas capacidades produtivas a ela inatas, quais sejam, autoridade bem informada (também chamada de força produtiva) e a força afetiva.

“dessas duas forças, Deus, que é o criador delas, é sempre incompreensível em relação à primeira, ou seja, a força produtiva. Mas, com a segunda, que é a força afetiva, Ele é, em cada um individualmente, plenamente compreensível.”

A força produtiva se refere à nossa capacidade intelectual em conhecer a Deus por meio da razão. Essa força é como que uma espécie de “engine”, um “motorzinho”, ativo na alma de toda criatura racional que lhe permite, através de faculdade intelectual, chegar ao conhecimento de Deus. Sabemos que, mesmo os filósofos pagãos conseguiram conhecer a Deus através de sua razão, todavia, o conhecimento que daí resulta é sempre limitado e imperfeito. Podemos concluir racionalmente, contemplando a natureza e o cosmo, os quais funcionam, não só de modo perfeito e equilibrado, mas também nos afiguram como algo belo e sublime, que por trás disso há uma inteligência criadora por meio da qual foi ordenada toda a sua criação e a dotou de uma beleza inimitável pelo homem, mas daí para saber que essa Inteligência está unidade a uma Vontade Onipotente, pela interseção do Espírito Santo, e que a essa trindade correspondem três Pessoas com a mesma essência divina, só nos foi possível por meio da Revelação, que nós aceitamos por meio da Fé. Portanto, é pela virtude da fé que potencializamos nossa razão, mas é por meio da caridade, ou seja, do amor, que conseguimos manter um relacionamento pessoal com Deus, e é aqui que entra a tal força afetiva que nos fala o autor. Ela é como um fogo que aquece nossa vontade de desejar amar a Deus, tão somente pelo que Ele é, e permanecer sempre próximo a Ele.

“Este é o eterno e maravilhoso milagre do amor, que jamais terá fim. Pois Ele deverá sempre operar em você e não deixará jamais de fazê-lo.”

Assim, o exercício proposto nos capítulos anteriores de elevar nosso coração, num impulso de amor, unicamente para Deus, de modo a ordenar todas as coisas terrenas para a satisfação desse amor, corresponde a um esforço, com toda a nossa força de vontade, a fim de desejar acima de tudo esse amor a Deus.

“O homem foi feito para esse trabalho e todas as outras coisas para o seu próprio bem, a fim de ajudá-lo e impulsioná-lo a prosseguir nisto.”

Mas é bom lembrar, e o autor não esquece de dizer, que o sucesso desse exercício cabe não só ao nosso esforço, mas, sobretudo a graça de Deus, a qual não podemos nos cansar de suplicar, pelo amor de Jesus, que ela seja derramada em nossos corações, “dando corda” nessa força afetiva para que possamos avançar nessa tarefa de amar a Deus sobre todas as coisas, pois é “no amor de Jesus que se encontra a sua ajuda”.

Por fim, segue uma advertência: tal tarefa não pode ser verdadeiramente bem sucedida apenas por meio de um esforço imaginativo nem intelectual:

“Quem quer que leia ou ouça este exercício, poderá pensar que pode ou que deveria realizá-lo por meio de um trabalho intelectual. Assim, ele para e fica quebrando a cabeça procurando um modo de realizá-lo e, com tais engenhosos raciocínios, ele violenta sua imaginação, talvez até além de sua habilidade natural, de modo a planejar um meio falso de agir que não se adapta nem ao corpo nem a alma”

Isso porque entre nós e Deus existe uma zona de penumbra; a nuvem do não-saber que nos priva de conhecê-lo da mesma maneira que conhecemos um objeto material, ou até mesmo como conhecemos uma pessoal que vive conosco toda a vida.

“Quando eu digo ‘escuridão’ quero dizer uma privação do conhecimento, exatamente como qualquer coisa que você não sabe ou esqueceu é escura para você, porque você não a vê com seus olhos espirituais. E, por essa razão, aquilo que está entre você e o seu Deus, é designado não como uma ‘nuvem do ar’ mas como uma ‘nuvem do não-saber.’”

Capítulo V e VI

Pode haver amor verdadeiro por alguém pelo simples fato dele ser rico, belo, inteligente ou mesmo por deter as mais elevadas virtudes da alma? Nesse caso, não estaríamos amando tão somente suas posses, sapiência, beleza e sua vida virtuosa? Amar verdadeiramente uma pessoa é amá-la pelo o que ela é no todo, e não apenas em seus acidentes e posses exteriores. Enfim, só há amor pleno quando amamos uma pessoa por ela ser que é. O mesmo vale para Deus.

O maior grau de perfeição do amor a Deus é amá-lo por ser Ele quem Ele é: o Ser por excelência. Tal é a meta que o autor nos exorta a desejar durante a vida, e envidar todos os esforços necessários a fim de alcançá-la. E ele vai tão longe no desejo de amar somente ao Senhor, que escreve:

“neste exercício é de pouca ou nenhuma valia pensar na bondade ou na dignidade de Deus, ou de Nossa Senhora ou dos anjos e santos do céu, ou até na alegrias celestes”

Mas com pensar apenas e exclusivamente no que Deus é?

“Não tenho a menor ideia. Pois, com essa pergunta, você me introduziu nessa mesma escuridão, nessa mesma nuvem do não-saber onde eu gostaria que você mesmo estivesse”
(…)
“Por isso, é meu desejo abandonar tudo sobre o que eu possa pensar, e escolher para o meu amor a coisa na qual eu não possa pensar. Porque Ele pode certamente, ser amado, mas não pensado.”

Desse modo, o autor nos encoraja a nada mais que o cumprimento do primeiro mandamento, qual seja, “amar a Deus sobre todas as coisas”, eis o objetivo a ser perseguido através do exercício proposto no livro.

Amar a Deus, e não pensá-Lo, é o que nos foi dado como o princípio de toda a a lei. E aqui fica claro o motivo pelo qual o monge nos adverte de que não é possível atingir essa meta por meios imaginativos e/ou intelectuais, pois que não é possível pensar em Deus, e sim em seus atributos, de modo que a batalha deve ser travada no âmbito da vontade; é preciso um intenso e incessante esforço de vontade a fim de amar a Deus.

“Você tem que bater nessa espessa nuvem do não-saber com um dardo afiado de amor ardente. Não deixe esse trabalho por nada que possa acontecer.”