
Das ruínas e escombros da Terra Devastada foi criado um medonho parque de diversões. Lá o importante é ser feliz, e ser feliz é viver sem amarras e responsabilidades. É deixar as preocupações e obrigações do lado de fora e entregar-se às vertiginosas sensações dos brinquedos ali disponíveis, bem como gozar das delicias oferecidas. Nesse parque, todos vivem leves como um balão a planar por entre os coloridos cenários desse empreendimento. Lá, tudo é aprazível e deleitável, mas há um porém; tudo são cenários. Tudo não passa de cenários formados de isopor e tábuas mantidas em pé por frágeis cavaletes.
Aquela terra devastada poetizada por Eliot, já não mais se afigura como cruel, angustiante e desolada. Não se vê mais ratos rastejando por entre ervas daninhas; nem imundices pedregosas ou ossos dispersos numa seca e estreita água-furtada. É tudo muito limpo, higiênico e arborizado — até porque é preciso preservar o meio ambiente para as futuras gerações que venham a viver ali. Mas a cidade, porém, continua irreal.
Os homens agora não parecem sombras sem cor a executar gestos sem vigor, ao contrário, são ágeis e sempre dispostos a exercitar-se na frenética busca por uma perene juventude e inabalável saúde, no entanto, continuam tão mais ocos e com elmo cheio de nada, quanto seus precursores de cinquenta anos atrás.
Eles têm a aparência de palhaços: o nariz, não mais redondo e vermelho, é agora afilado e levantado, porém continua postiço; o rosto deixou de ser pintado de branco, e agora é repuxado, sedoso e polido, mas ainda mantém o mesmo falso sorriso de bufão. Aquela aparência de barril se converteu em corpos esbeltos e garbosos, mantidos artificialmente por horas e horas de academia, esportes, proteínas, aminoácidos e hormônios. Nessa nova categoria, tudo é artificial e dissimulado.
Não estamos mais na era dos homens ocos — habitantes apáticos de uma terra árida e gasta — , o que temos hoje são os homens simulacros: palhaços atuando numa patética e desengonçada pantomima que eles chamam de vida, em cima de um palco montado precariamente em meio a esse bizarro parque de recreações baratas.