Era domingo e Ingrid acordou mais cedo que de costume. Geralmente frequentava a missa pela tarde, e digo frequentava, pois ia mais por hábito que por devoção, mas naquele dia fora pela manhã, já que a tarde tinha outro compromisso.

Os ritos iniciais foram cumpridos com o automatismo de sempre, como quem passa mecanicamente as marchas do carro. Todavia, se porque tinha poucos pensamentos na cabeça, ou porque assistia a celebração de pé, a homilia lhe chamou atenção. Era a passagem em que Cristo, em companhia de seus discípulos à caminho de Jerusalém, é perguntado se são poucos os que serão salvos, e Jesus lhes responde com uma provocação: “ Esforçai-vos por adentrar pela porta estreita, pois Eu vos asseguro que muitas pessoas procurarão entrar e não conseguirão”. O sermão era mais ou menos assim.

“É importante observar que o grupo estava à caminho de Jerusalém, o que simboliza a caminhada da vida na qual todos nós estamos rumo à Cidade de Deus, a Jerusalém celeste. A preocupação dos discípulos é absolutamente lícita e não deixa de ser também a nossa: ‘tenho chance de ser salvo? Se forem muitos os que chegarão no reinos céus, talvez eu tenha alguma chance, mas em sendo poucos…ai não tenho mais tanta certeza.’ Todavia, Jesus, ao invés de redarguir com números ou grandezas, lança aos seus uma provocação: exorta-os a se empenhar em chegar lá. ‘Esforçai-vos por adentrar pela porta estreita’, é a resposta/exortação de Cristo para nós hoje. É preciso, pois, esforçar-se, lutar, empenhar-se para passar por essa porta estreita, a fim que sejamos reconhecidos pelo Pai quando todas as outras portas se fecharem. A questão é, de que porta Jesus está falando? Do ponto de vista puramente literal, conseguimos entender a passagem, mas, e na prática, no dia a dia, para o quê nós precisamos nos esforçar?

A porta estreita é a vontade de Deus para nós. Espremer-se para passar por ela, é nos curvarmos para aceitar cumprir a vontade do Senhor. Do contrário estaremos cruzando a porta larga, que é a nossa vontade, movida por nosso egoísmo, lascívia e preguiça. Temos um espírito largo e espaçoso, porém essa amplidão é preenchida pelo vazio, a que damos o nome de vaidade. Jesus, então, nos pede para nos esvaziarmos de nossa vontade, a qual não tem substância. Somos como que um balão inchado de ar e preso à terra por uma tênue linha, que é nossa existência terrena. É preciso secá-lo para chegar ao chão, em terra firme. Somos como esse balão suspenso pelas quimeras que imaginamos e desejamos para nós.” Nesse instante, Ingrid baixou a cabeça e contorceu os dedos dos pés.

“Secar o balão é fazê-lo descer. Inclinar-se para baixo. E o que é essa vontade de que falo? É a verdade! A verdade de Deus para nós. É preciso confessar essa verdade: a de que somos criaturas mesquinhas, cheias de si, porém medíocres. Esforçar para cruzar a porta estreita é renunciar a si mesmo, anulando nossa vaidade, e se adequar à vontade de Deus. Aí seremos nós mesmos. Mas esse esforço dói. Não é fácil, pois implica dor e a decepção em aceitar que não somos quem pensamos ser. ”

“Enfim, é isso. Oremos para que Jesus nos dê forças para encarar o desafio de entrar pela porta estreita, aquela que tem a forma de cruz, mas é a vontade de Deus e a única que nos leva à salvação.”

Ao fim da homilia e até o final da missa Ingrid continuou sem prestar muita atenção ao restante da celebração. Agora, não por descaso pelo que ouvia, mas devido a uma sensação inquietante que lhe fazia secar a boca, arder seu estômago e palpitar o coração. De repente não conseguia mais fixar sua atenção no altar; seu olhar vagava a esmo por entre a igreja, mas sem se ater em nada o que olhava, como um farol que lança luz no ar, mas nada vê. Aquilo que tanto relutara em fazer, já não tinha mais como adiar. Precisava contar a ele sua verdade.

Ao chegar em casa ligou para Beth e lhe disse qualquer desculpa para não ir ao barzinho no fim de tarde, desligou sem encompridar a conversa. Tão logo encerrou a chamada, ligou para Julio.

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