Gato Murr
Gato Murr
Aug 8, 2017 · 4 min read

Se para chegar à experiência do sagrado é preciso admitir a existência de uma realidade transcendente, e, considerando a inata dificuldade do homem em sair do mundinho circunscrito ao diâmetro de seu umbigo, então, a primeira barreira a ser quebrada para se relacionar com Deus — a razão do sagrado — , é aquela que nos encastela em nós mesmos e nos impede de ir ao encontro com o outro. É como está foi dito na primeira carta de São João:

Se alguém disser: “Amo a Deus”, mas odeia seu irmão é um mentiroso: pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, a Deus, a quem não vê, não poderá amar. E este é o mandamento que dele recebemos: aquele que ama a Deus, ame também seu irmão.

Não é possível transcender a realidade visível e entrar no domínio do sagrado, relacionando-se com Deus tal como uma pessoa verdadeiramente presente em nossa vida, sem antes vencer as barreiras do egoísmo indo ao encontro dos outros, e encarando-os como pessoas dotadas também de um “eu”, semelhante a si mesmo.

Sei que expus um argumento baseado nas Sagradas Escrituras, o que pode parecer que eu esteja querendo força a barra e sair do contexto do livro, que não se trata de religião mas de filosofia, mas se o fiz, foi só para demonstrar que as argumentações do autor chegam por vias diferentes na mesma conclusão dos ensinamentos da religião cristã.

Scruton bate na tecla de que as pessoas não se relacionam entre si movidas apenas pelos impulsos cegos do desejo e de interesses, tal como fazem os animais, mas comprometendo-se umas com as outras por meio de relações de fidelidade e alianças, e, ao agirem assim “elas criam um território de instituições e de leis nas quais se encontram cada vez mais à vontade do que elas poderiam estar em um estado da natureza”. É certo que aqui não há qualquer alusão ao amor ao próximo no sentido dado pelas religiões, mas o fato de que os homens procuram firmar alianças uns com os outros, seja por meio do casamento ou de relações contratuais e legais, já indica que o homem, embora tendente ao egoísmo, tem algo em sua natureza que o impele a se relacionar com os demais de igual para igual.

Lembra Scruton que, desde o tempo de Noé, o Deus bíblico tem firmado alianças, na qual Ele próprio se põe sob obrigações para com as suas criaturas, como se estivesse dizendo que, se Ele que é Deus e onipotente sujeitou-se a um pacto conosco, mantendo-se fiel, mais ainda nós, mortais e cheios de contingências, devemos também procurar firmar laços uns com os outros, posto que isso já é o primeiro passo para romper com egoísmo e abrir uma vereda em direção ao amor ao próximo.

Um exemplo claro é o matrimônio. Não se conhece sociedade, por mais tribal que seja, em que os votos matrimoniais não sejam proferidos através de um ritual geralmente acompanhado de festas e comemorações, por meio do qual se invoca a bênção dos deuses ou de Deus, sendo justamente a presença divina o que irá conferir a gravidade do enlace — para nós católicos o matrimônio é inclusive elevado à condição de sacramento, tamanho o grau de importância dado a esses votos. Mas, independente de religião, tanto o casamento, quanto às obrigações dos filhos para com os pais e vice-versa, em qualquer cultura são obrigações investidas de uma pesada e densa atmosfera moral, tidas pela comunidade como inflexíveis e com ecos na eternidade.

O problema é que hoje, como escreve Scruton “o mundo das obrigações foi gradualmente refeito como um mundo de contratos, e, portanto, de obrigações que são rescindíveis, finitas e dependentes de escolhas”. O casamento já não é mais encarado como uma instituição sagrada, tendo sido reduzido a um acordo entre as partes (atualmente aceita-se partes de qualquer natureza, como se vê os “casamentos” autorizados entre pessoas e animas), podendo ser firmado e rescindido ao prazer dos interessados, resultando no abandono do senso de responsabilidade e fidelidade entre homem e mulher, e entre estes e seus filhos, e, quando as obrigações firmadas por meio de votos de fidelidade não guardam vínculos com o transcendente, as pessoas perdem a noção de sacrifício e o mundo que vai sendo criado é “um mundo onde nós, seres humanos, não estamos verdadeiramente em casa”.

Aproveitando o gancho, até mesmo a natureza perdeu o significado de antes: florestas, árvores, animais e rios eram tidos como presentes da divindade; mesmos as cidade-estados da Grécia, não obstante serem obras humanas, eram consagradas aos deuses. Hoje, ao contrário, o planeta e o meio ambiente já não são mais dádivas divinas concedidas aos homens, mas converteram-se em verdadeiros ídolos cultuados pelos ambientalistas; ídolo ciumento e possessivo que exige, inclusive, preferência ante os próprios seres humanos — vide toda a propaganda falaciosa e peçonhenta que compara seres humanos a vírus que infectam o planeta.

Volto então para o início do texto. Não é possível chegar a uma experiência com o sagrado pelo desprezo ou objetificação das pessoas, nem tão pouco idolatrando tudo em nossa volta, somente por meio dos vínculos de piedade é que

“entramos no domínio das coisas sagradas, das obrigações que não podem ser explicadas em termos de qualquer acordo que fizermos, e que falam de uma ordem eterna e sobrenatural”.

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