Li em algum lugar, não sei se num ensaio de Milan Kundera, ou vindo de Henry James, que a arte do romance é a arte da ironia. O bom romancista é aquele capaz de expressar uma coisa, escrevendo o seu contrário. Ele não resolve as contradições, na verdade as expõe. Cervantes criou o seu (e nosso) Dom Quixote de um modo que podemos entender o personagem tanto como um pinel que, de tanto ler livros de cavalaria, sai por sua aldeia e imediações crendo ser um cavaleiro andante e vivendo numa segunda realidade, bem como um idealista, uma espécie de santo profano, que se faz de doido para disseminar entre seus contemporâneos os ideais religiosos, de bravura e honra que envolviam as figuras dos cavaleiros andantes. O próprio Henry James se coloca como brilhante e talentoso continuador da tradição iniciada por Cervantes, visto que o desenho que ele estampa em suas obras pode ser apreciado, tanto por cima quanto por baixo do tapete. Assim também é o romance Stoner, de John Williams.

Há quem veja William Stoner, protagonista do livro, como um niilista apático e refém das circunstâncias, outros já o veem como um herói, não da envergadura de um Aquiles ou Odisseu, homens que enfrentam a morte com sangue nos olhos, espada em punhos e faca nos dentes, mas de um tipo de heroísmo estoico, paciente e imperturbável. E eu sou dos que leem nessa segunda perspectiva. Stoner pode não ser comparável aos cavaleiros medievais e aos guerreiros gregos, mas mesmo assim é um herói, ainda que da vida cotidiana, aquela em que a maior parte de nós está imersa.

O livro narra de forma linear, com prosa simples e sem pompas, a vida de William Stoner. Filho único de uma família de camponeses, cuja terra, hoje árida e pouco produtiva, fora herdada por seu pai dos seus antepassados e estava destinada a Stoner para continuar a mesma tradição. Seu destino, portanto, estava traçado: continuar trabalhando a mesma terra dos seus, e ele nunca pensara que poderia fazer outras coisa, até que seu pai o envia a uma espécie de escola técnica de ciências agrícolas, pertencente a universidade local. Embora receoso diante da ordem paterna, ele a acata sem se contrariar, porém não deixa de trabalhar. Fica hospedado na casa de uns amigos da família, pagando a estadia com serviço prestado à fazenda, cujo trabalho vai ficando cada vez mais intenso e pesado, tanto devido à exploração dos donos da casa, quanto pelo fato de que, à medida que o curso avança, o trabalho braçal vai se tornando cada vez mais cansativo e monótono. Mas Stoner segue em frente. Não reclama dos patrões, não pragueja da vida; ele simplesmente se resigna diante daquele situação. Acorda mais cedo para terminar logo as tarefas e estende suas noites em dedicação aos estudos. A coisa começa a mudar quando, numa aula de introdução à literatura de língua inglesa, ele tem uma espécie de epifania. Quando o rígido e exigente Archer Sloane, professor da disciplina, lê o soneto 73 de Shakespeare, Stoner, mesmo sem entender muito do que se trata o poema sai de si mesmo e se encanta com aquelas palavras, com seus sons e melodias que saem do velho Sloane. Fica atônito, pasmo e admirado com aquilo tudo, e percebe que algo mudou em sua vida; entrara a partir dali num outro nível existencial; não sabe ainda do que se trata, mas tem certeza de que já não é mais possível ser aquele mesmo camponês de antes, como quando alguém que sai de uma sala totalmente escura, direto para o Sol do meio dia, e fica meio cego com a claridade, mas certo de que saiu da escuridão. Stoner se apaixonou pela literatura, que passa a ser uma música cuja melodia não mais sairá de sua cabeça e o ritmo o fará dançar durante toda a vida. Ela será a clave de seu heroísmo e o sentido de sua vida.

Dai em diante o livro narra a odisseia de Stoner em busca de si mesmo. Casa-se com Edith, uma moça de ego fraco e que, aos poucos, vai perdendo equilíbrio psíquico. Ora só pensa em arrumar a casa, ora cai numa melancolia profunda, e, por fim declara uma verdadeira guerra fria em casa, cujo inimigo é seu marido. Depois do nascimento de Grace, filha do casal, Edith se entrega ao que hoje seria diagnosticado como depressão pós-parto. Sem querer cuidar da filha, o trabalho acaba sendo assumido por Stoner, que o faz com todo o comprometimento e carinho possíveis. O resultado é que o afeto que antes sentia pela mulher é canalizado todo para a filha, e pai e menina adquirem uma cumplicidade terna e plena de afeição; é como se eles se bastassem um ao outro. Porém, Edith aos poucos vai cooptando a filha para si, o que termina por afastá-la do pai, até Grace crescer, tornar uma bela moça, engravidar e se mudar de cidade. Mas nesse ínterim Stoner, cujo único lazer consistia em ler em seu escritório, é despejado por sua esposa e obrigado a estudar nos fundos da casa — gelado no inverno e sufocante no verão — , mesmo assim, sem reclamar, suporta pacientemente a guerra assimétrica instaurada contra ele em sua casa.

E não é só em sua casa que o professor é atormentado. Devido a um desafeto com um estudante de pós-graduação, Stoner é perseguido e tem sua carreira sabotada por Lomax, chefe de departamento, cujo aluno era seu protegido. O único alívio que encontra, já aos quarenta anos, é uma professora com a qual tem um relacionamento extra conjugal. Descobre o amor na velhice a ponto de cogitar em se separar de Edith, mas seus planos são frustrados pelo mesmo Lomax, o que resulta na demissão de sua amante da universidade e sua posterior saída da cidade. Estoicamente, ele engole a dor da separação e volta às suas atividades.

O único episódio que o Stoner parte para o ataque é quando, relegado a ministrar apenas cursos introdutórios para calouros, ele chuta o pau da barraca, joga a ementa no lixo, e resolve lecionar para os calouros tradição medieval, disciplina avançada, e de sua especialidade. No semestre seguinte, o velho professor volta aos cursos de pós-graduação e mestrado. Perda e aceitação resignada. Nisso se resume o heroísmo de Stoner.

Ernest Becker diz que heroísmo é enfrentar a morte, o que, em outras palavras é não temer a vida; é lutar contras as adversidades e suportar as perdas impostas pela vida, que constituem um tipo de morte. E diante do adeus às pessoas que amamos, das derrotas e daquelas contrariedades inelutáveis pelas quais todos passamos só há duas opções: desespero e revolta diante do irreversível ou tocar a vida pra frente apesar dessas mortes diárias. Stoner escolhe, ou melhor, ele é um homem forjado para a segunda opção. Depois de uma infância e juventude dura, sofrida e adstrita àquele mundinho limitado da fazenda de seus pais, sem muitas perspectivas ou sonhos, ao se abrir ao mundo e enfrentá-lo ele o faz por meio de uma personalidade austera e espartana, porém flexível o suficiente para suportar os golpes da vida. William Stoner é como um impávido rochedo à beira mar que suporta a força violenta das ondas, aceitando perder algo de si a fim de não se despedaçar completamente, e assim, mesmo cedendo a impetuosidade do mar, que é símbolo do mundo, permanecer obstinadamente de pé.

Ao fim de sua vida, deitado num sofá-cama no quartinho dos fundos que ele fazia de escritório, Stoner passa seus últimos dias. Ali termina sob os cuidados de Edith, que cuida dele como de uma criança e o faz companhia conversando trivialidades. Ambos, sem precisar dizer palavra, perdoaram um ao outro.

Enquanto moribundo, Stoner se pergunta “O que você esperava?”, e o que lhe vem à mente é uma sucessão de derrotas em todas as dimensões da vida: como marido fracassou; como professor foi medíocre; e no amor, deixou sua amada lhe escapar entre os dedos, mas, no seu último dia “uma suavidade o envolveu, e uma languidez se insinuou em seus membros. Uma sensação de sua própria identidade lhe veio com força súbita, e ele sentiu o poder dela. Ele era ele mesmo, e ele sabia quem tinha sido.” A sensação de fracasso se esvaiu de seu coração. Virou a cabeça e pegou o seu livro, aquele que só tivera duas lacônicas críticas, mas, ainda assim foi ele o autor. Não foi um sucesso de vendas ou de críticas, mas era dele; Stoner escrevera seu próprio livro, viveu sua própria vida e pouco importa se ela foi na dimensão de uma epopeia ou de um modesto romance, como esse de John Williams, o que importa é viver a vida aceitando-a o que ela traz, lutando contras as adversidades e conformando-se com o que não nos cabe mudar, tudo o mais é graça.

A pergunta que Stoner faz, façamos também a nós. O que esperamos da vida? Esperamos coragem e integridade em assumir as responsabilidades por nossos atos, nossas decisões e, principalmente por aqueles que Deus põem em nossa volta e aos nosso cuidados. Busquemos escrever nossa própria vida sem delegá-la aos outros. É certo que devemos nos entregar a Deus; é Ele o autor, editor e corretor do livro da nossa vida, mas devemos ser seu coautor.

Por fim, termino com as palavras de Archer Sloane dirigidas a Stoner “você precisa lembrar do que você é, o que escolheu ser e o significado do que está fazendo. Há guerras e derrotas e vitórias da raça humana que não são militares e não são registradas nos anais da história. Lembre-se disso quando estiver tentando decidir o que fazer.”