Nascido Doménikos Theotokópoulos, originalmente de Creta, daí porque ganhou o apelido de El Greco, mudou-se para Veneza em 1567, quando contava com mais ou menos 26 anos, onde foi influenciado pelas pinturas dos mestres italianos, notadamente, Ticiano, Tintorreto e Veronesse, mas as raízes artísticas do pintor foram mesmo fincadas nas pinturas do ícones bizantinos, com as quais ele teve contato enquanto ainda residia na Grécia.

Dez anos depois é que veio a se firmar definitivamente na cidade de Toledo, na Espanha, onde criou a maior parte das obras, as quais, como poucas daquele período, conseguem conjugar a suntuosidade da pintura renascentista com o misticismo devocional da arte bizantina e medieval.

Na obra El Redentor (datada entre 1610–1614), Cristo abençoa o observador com a mão direita, enquanto a esquerda repousa sobre um globo opaco, como se saindo por debaixo do manto de Jesus. Ele está vestido como é costumeiro na iconografia tradicional: uma veste vermelha cobrindo a metade esquerda de seu dorso, e um manto azul envolvendo todo o restante do corpo.

Tradicionalmente, a cor vermelha das vestes de Cristo representa sua humanidade — pois que alude ao vermelho do barro do qual Deus moldou o homem — , e a azul representa Sua divindade — a consubstancialidade ao Pai.

Na pintura, o vermelho está do lado direito — aquele cuja mão Jesus abençoa — , simbolizando que é toda a humanidade, assumida por Ele pelo mistério da Encarnação, que está sendo abençoada. O discreto globo sobre o qual descansa a mão esquerda do Filho, representa todo o mundo criado por meio d’Ele, e que se encontra envolvido pelo manto azul, simbolizando que a majestade divina não abandonou Sua criação, mas continua velando por ela e a protegendo, e, se bem observarmos, veremos que a mão sobre o globo parece o alisar carinhosamente, nos dizendo que Cristo rege o mundo com autoridade, mas também com misericórdia.

Todo o resto da figura, ou seja, tudo o que não é o personagem e o globo, está completamente no escuro, sendo a única fonte de luz irradiada da cabeça do Cristo, o que nos alude à verdade de que fora d’Ele só há trevas, pois é Jesus a única luz.


Ainda sobre a simbologia das cores das vestes de Cristo, observemos a pintura La Oracíon del Huerto (datada entre 1597–1607).

A

A pintura retrata a oração de Jesus no Getsêmani, local aonde Cristo antecipou em sua alma todo o sofrimento que Seu corpo iria padecer durante a Paixão. Segue trecho do Evangelho de Lucas 22, 39–46

Conforme o seu costume, Jesus saiu dali e dirigiu-se para o monte das Oliveiras, seguido dos seus discípulos.
Ao chegar àquele lugar, disse-lhes: Orai para que não caiais em tentação.
Depois se afastou deles à distância de um tiro de pedra e, ajoelhando-se, orava:
Pai, se é de teu agrado, afasta de mim este cálice! Não se faça, todavia, a minha vontade, mas sim a tua.
Apareceu-lhe então um anjo do céu para confortá-lo.
Ele entrou em agonia e orava ainda com mais instância, e seu suor tornou-se como gotas de sangue a escorrer pela terra.
Depois de ter rezado, levantou-se, foi ter com os discípulos e achou-os adormecidos de tristeza.
Disse-lhes: Por que dormis? Levantai-vos, orai, para não cairdes em tentação.

Na pintura, Cristo encontra-se em posição de genuflexão, como se esforçando para se pôr de pé, tendo o olhar voltado para um anjo vestido de dourado, em cuja uma das mãos traz o cálice da Paixão, e da qual parece sair uma nuvem que envolve os três discípulos que dormiam ali perto. Do alto, desce uma luz que incide quase totalmente na figura de Cristo. Ao centro da imagem, há uma rocha por detrás da figura de Jesus, e, mais abaixo e à direita, um grupo de soldados com as lanças em riste sobe o monte; acima deles uma lua luta para vencer as densas nuvens que a encobre.

Concentrando-se nos trajes de Jesus, vemos que o manto azul está totalmente caído ao chão, e Cristo está apenas trajando a veste vermelha. Penso que tal disposição simboliza que, ali, naquele momento de extrema agonia, Ele provava todo o tumulto da alma humana, sua aflição e angústia diante da morte e do sofrimento, dai porque Ele veste apenas o vermelho que simboliza nossa humanidade, sem, todavia, perder sua divindade — reapresentada no azul do manto — , que dá forças para que se erga com os olhos fitos no céu a fim de enfrentar o momento mais doloroso de Sua missão. Eu diria até que há um movimento de soerguimento transmitido pela parte do manto que está por trás de Cristo, a qual se encontra num plano mais elevado que aquela que se estende mais à frente da figura, como se o manto estivesse servindo de assento ou apoio para Jesus se levantar.