Quem nos representa na literatura mundial?

Em certa ocasião me detive na seguinte questão: qual a personagem literária que mais se assemelha, em essência, ao brasileiro? Perscrutando os clássicos tupiniquins não me veio ninguém, isso porque nossa literatura há muito se divorciou, ou talvez nunca estivesse realmente casada, com a realidade do povo e do país. Literatura e realidade aqui nessas plagas, ontem e hoje, na melhor das hipóteses moram juntas; dividem o mesmo teto; nunca houve casamento “de papel passado” e na Igreja, com votos de fidelidade, respeito e amor mútuo. Nossa literatura definidamente não nos representa.

Mas e quanto a Weltliteratur? Em qual dos clássicos mundiais podemos buscar o nosso alter ego? Nesse caso a resposta me veio à mente imediatamente, como que inspirada por oráculos: quem melhor representa a nossa natureza é Madame Bovary: a mocinha de província que sonha desvairadamente em viver um grande amor e se tornar uma dama parisiense. Não tem outra, é ela mesma.

Parece ser de nascença a indignação, por vezes acompanhada da mais rancorosa ojeriza, de que padecem os brasileiros diante de nossa essência provinciana. Daí resulta o desejo neurótico de que todos devem brilhar na capital; fazer parte de alguma elite; ser o melhor em alguma coisa, nem que seja só na aparência: é o sujeito que compra camisa com malha de quinta categoria, podendo até ser de estopa, desde que estampadas em letras garrafais grifes como Lacoste, Hugo Boss, Aéropostale e etc; é o outro que passa cinco dias na Disney e o resto do ano com o cartão de crédito estourado, em razão das prestações da viajem; tudo vale para parecer estar acima de suas condições financeiras.

E o pior é quando da cobiça pela glória, segue a reivindicação de que se tem o direito em ser mais do que é na verdade. Sim, o Brasil sempre foi, e pelo visto, sempre será um país periférico, seja na economia, artes, cultura e produção intelectual, tal qual Emma Bovary sempre fora uma moça de província. Mas, assim como ela alimentava repulsa àquela sua vidinha de dona de casa; assim como precisava de algo a mais, acreditando ser seu de direito, a ponto de se atirar aos braços do primeiro Dom Juan caipira que aparecesse, certa de estar destinada a viver um grande romance em Paris ou em qualquer terra exótica, nós, os brasileiros, ansiamos por algo de grandioso por aqui: seja um grande homem, um artista talentoso ou um intelectual com agudeza socrática, mas, como não aparece um desses, vamos nos prostituindo com nossas próprias criaturas; criando nossos próprios frankensteins a partir dos sobejos de virtudes, talentos e inteligência que ainda restam por aqui.