Filoctetes foi a penúltima peça escrita por Sófocles e a última a ser encenada pelo dramaturgo, e apesar de não ser uma das mais difundidas e comentadas do autor, a peça tem uma característica bastante singular por não se tratar daquelas sanguinolentas tragédias gregas, mas ficar mais próximo de uma tragicomédia, além do fato de que, embora os principais personagens sejam soldados gregos, as únicas batalhas apresentadas passam longe do plano da ação, e ficam restritas na arena da argumentação, persuasão e nos conflitos morais.

O contexto que se passa o drama é o seguinte: a guerra de Troia se arrasta por mais de dez anos, e os gregos, já sem contar com Ajax e Aquiles, e cansados de quebrar suas lanças nos muros impenetráveis da cidadela sem conseguir tombá-la, recebem um oráculo vaticinando que o conflito só poderá virar ao seu favor com a participação de Neoptólemo — filho de Aquiles —, e com o arco invencível de Filoctetes. O primeiro, porque imbuído dos mesmos ideais de coragem e nobreza herdados do pai, e ansioso por provar o seu valor como guerreiro, foi fácil chamá-lo à luta, todavia, o mesmo não acontece com o segundo, que não quer ver soldado grego nem pintado a ouro.

Filoctetes foi um dos primeiros e mais valorosos guerreiros gregos a sair em campanha contra os troianos. Seu arco — que tinha a propriedade de nunca errar o alvo — , foi forjado pelo próprio deus Vulcano tendo sido lhe presenteado pelo semideus Héracles, o qual já havia ganho o armamento de Apolo. Ocorreu, então, que no caminho para a guerra de Troia, a companhia na qual pertencia Filoctetes, juntamente com Menelau e Agamêmnon, resolveu fazer uma parada na ilha de Creta e oferecer uma sacrifício para a divindade local; quando se dirigia ao culto, Filoctetes foi picado no pé por uma serpente e, não obstante ter escapado da morte, ficou sequelado com uma ferida que lhe causava dores lancinantes e nunca cicatrizava, além de supurar incessantemente e exalar um odor fétido e insuportável. Não suportando os gritos do arqueiro e o mau cheiro que saia de seu pé, os outros guerreiros, tendo-lhe na conta de um estorvo pesado demais para carregar durante o conflito, resolveram, persuadido por Odisseu, abandonar Filoctetes na pequena e deserta ilha de Lemnos e continuar o caminho para a Troia. Abandonado e traído pelos seus, permaneceu durante dez anos ali guardando rancor contra os gregos, sobretudo por Odisseu, que tinha como o pior dos atridas, eis ai o porquê da dificuldade em convencê-lo a voltar à guerra, e o mote principal do drama de Sófocles.

A peça, sem muitos acontecimentos e reviravoltas, sustenta-se nos diálogos entre a tríade de personagens Filoctetes-Neoptólemo-Odisseu, os quais revelam verdadeiras encruzilhadas morais na qual são submetidos os dois primeiros, cabendo a Odisseu o papel de engatilhar os conflitos. Aos leitores da Odisseia poderá parecer estranho mas, no drama de Sófocles, o plurivalente e o protegido de Palas Atenas que enfrentou o Ciclope e sobreviveu a Cila e Caribides, é retratado como um canalha maquiavélico disposto a mentir e a usar de ameaças e força física para levar o arco e Filoctetes para Troia; já no primeiro diálogo, Odisseu persuade o filho de Aquiles a enganar o arqueiro, apresentando-se como alguém também ludibriado pelo gregos, a fim de ganhar sua confiança e fazê-lo embarcar na nau da companhia. Isso já põe o garoto em sua primeira sinuca de bico, pois Neoptólemo, grande admirador Odisseu, fica entre a fidelidade a seus ideias de honra, e a obediência ao velho guerreiro, sendo que, num primeiro momento, o aquileu acaba por suspender suas convicções morais e aceita o embuste em nome da causa grega.

Já ao primeiro contato, desponta entre Neoptólemo e Filoctetes uma sentimento de simpatia mútua. O primeiro porque, ao ouvir a versão da história contada pelo arqueiro, é tomado de compaixão por seu sofrimento, e ao mesmo tempo admiração pelo guerreiro que ele foi, bem como pela hombridade com que ele suportava todo aquele infortúnio. Já Filoctetes vê no jovem — que se apresenta como filho de Aquiles e conta a mentira de ter sido enganado pelos gregos — , uma versão de si mesmo de tempos atrás, quando, partindo para a guerra imbuído do desejo de alcançar a glória pelas armas, fora traído pelos seus compatriotas. Mas a coisa toda muda quando Odisseu aparece e cai por terra a farsa contada por Neoptólemo, deixando Filoctetes ainda mais encolerizado com Odisseu e ressentido com o filho de Aquiles.

É então revelado a Filoctetes o oráculo divino de que ele é imprescindível à vitória grega, mas entre lutar ao lado de seus traidores e ficar ali sofrendo naquela ilha, o arqueiro, tomado de ódio por todos os gregos, opta categoricamente pela última opção, obstinando-se na ideia de continuar perecendo em sua caverna com seu pé purulento, só para não dar a vitória aos seus algozes de outrora. Neoptólemo, ainda simpático a Filoctetes, contrapõe-se às ordens de Odisseu e ensaia um confronto com este, mas baixa a guarda ante às ameaças de ter que encarar o resto dos guerreiros que acompanhavam o herói da odisseia.

Neoptólemo ainda insiste a Filoctetes que vá a Troia, prometendo que, ao chegar lá, o levará ao filho de Asclépio — médico que recebeu seus poderes de cura dos deuses — , para que tratem da ferida de seu pé, mas o rancor é de longo tempo, e mesmo com toda a insistência e preocupação sincera do aquileu em buscar o melhor para Filoctetes, não consegue o fazer retroceder.

É certo que, diante de nossa moral judaico-cristã que privilegia o perdão acima de tudo, inobstante as injustiças, perseguições e males sofridos, a obstinação de Filoctetes em não ceder à causa grega, só pelo ressentimento diante da traição, afigura-se para nós como um orgulho já descambando para a estupidez, principalmente se levarmos em conta a promessa de Neoptólemo em levar o arqueiro ao médico; mas para Filoctetes é uma posição de extrema nobreza diante do sofrimento, pois se resignando ao exílio e às dores lancinantes decorrentes de sua ferida, ao mesmo tempo que renuncia à luta contra Troia, ele revela aos demais — sobretudo a Odisseu — que a mais humilhante e sofrível indigência, pode ser mais digna que a traição de um amigo.

Mas no final, esgotado os apelos de Neoptólemo, eis que surge Héracles — o mesmo deus que deu o arco a Filoctetes — , e diz que ele deve sim embarcar na nau e lutar na guerra de Troia, pois que lá encontrará o seu destino como guerreiro e glória das armas, pois será pela flecha de Filoctetes que Paris, o sedutor e sequestrador de Helena de Troia, haverá de morrer.

Resumida a peça, gostaria de apresentar algumas observações que julgo pertinentes a um melhor aprofundamento a respeito do drama.

O nome Filoctetes quer dizer: “aquele que ama o que possui”. De fato o protagonista é uma homem envaidecido pela posse de seu arco invencível, tanto é que ele assim se apresenta a Neoptólemo:

“Menino, filho de Aquiles, creio que conheces de ouvi dizer o dono do armamento de Héracles, filho de Poianto. Aquele é este com que falas: Filoctetes” (grifo nosso)

Antes disso, quando o jovem diz nunca ter ouvido falar de Filoctetes, este fica um tanto magoado por sua fama de outrora não ter atravessado as gerações seguintes, e pelo fato de o conhecimento de sua desdita parecer não ter chegado ao mundo grego. Orgulhoso por possuir algo que nem mesmo era de sua própria criação nem objeto de conquista, mas lhe foi dado por um deus como um presente — ou seja, um dom — , Filoctetes é o tipo tomado pela famosa hubris grega, que consiste numa presunção e vaidade excessivas o que dá causa geralmente a punição, que para ele era o banimento ignominioso e uma ferida incurável, dolorida e abjeta no pé, tendo que usar o seu dom longe dos olhos dos outros homens, e apenas para garantir sua mísera subsistência.

E em sendo os pés símbolos da alma, a coisa fica mais clara, sobretudo se lembrarmos de um outro personagem mitológico, manco de um pé, e cujo drama também fora objeto de uma das mais famosa peça de Sófocles: o rei Édipo.

Édipo era um homem cheio de si; foi feito rei ainda jovem, e sua inteligência lhe permitiu desvendar os enigmas da Esfinge, que, humilhada preferiu se atirar de um precipício, e também ele também tinha um defeito de nascença no pé que representa a grande mácula da alma humana: a hubris.

Outra semelhança é que tanto Édipo quanto Filoctetes, ainda que punidos pelos deuses, recebem a oportunidade de purgarem seus erros. O primeiro, após reconhecer sua sina de responsável pelas desgraças do reino e testemunhar o suicídio da mãe, fura os próprios olhos, deixa Tebas e segue vestido em andrajos como um mendigo — acompanhado apenas de sua filha Antígona — para outras cidades, onde viverá como um errante penitente até terminar na cidade de Colono, na qual morrerá na certeza de ter pago por seus erros.

Com destino semelhante mas não tão trágico, Filoctetes, tido como um exímio arqueiro, depois de ser picado no pé pela serpente, é abandonado pelos seus e deixado à própria sorte na ilha de Lemnos, sofrendo, além da humilhação do abandono, as dores de sua ferida a qual representa o aguilhão em sua alma. Mas, uma vez que abandona orgulho — no caso da peça, por obediência a Héracles — e aceita ir lutar na guerra de Troia, após sua longa e dolorosa purgação, consegue obter a libertação de seu sofrimento, terminando como um dos mais gloriosos guerreiro grego.