Sobre O Homem Comum, de Philip Roth

“Era hora de se inquietar com o aniquilamento. O futuro longínquo havia chegado”. Sim…. aquilo que se afigurava remoto, distante como o é a linha do horizonte para que está na praia, mais dia menos dia chega; e chega rápido. O passar do tempo assemelha-se às ondas que, ao banhar as pernas de um homem à beira mar, arrasta uma porção da areia que havia sob seus pés fazendo-o lentamente afundar no chão. É como um obstinado coveiro que escava sem parar o nosso chão, até que, quando completamente imersos no buraco, ele passa a nos cobrir da mesma terra que tirou dos nosso pés. Eis quando se dá o começo do aniquilamento, ao menos para aquele homem sem nome, protagonista do romance O Homem Comum, de Philip Roth. Para o personagem “os ossos eram o único consolo que restava para alguém que não acreditava na vida após a morte e sabia, sem nenhuma dúvida, que Deus era uma ficção, e que aquela vida era a única que ele teria”.

Antes de entrar na narrativa, convém observar que o título original do livro — Everyman — , não é muito exato traduzir por “homem comum”. O mais correto seria algo como “todo homem”, “cada homem” ou “cada um”. A tradução escolhida é ambígua, haja vista o protagonista não se tratar de uma pessoa ordinária; um sujeito de vida simples e ingênuo — em sendo essa a intenção ele teria um nome qualquer, tipo Joe ou Bill Smith. A obra, na verdade, nos apresenta um arquétipo de determinada categoria de homem: aquela na qual estão todos os que vivem como se o envelhecer fosse para os outros; aqueles para os quais o que importa é viver para a sua satisfação, e se tiver que sacrificar ou simplesmente abandonar alguém na busca desse objetivo, simplesmente o fazem sem qualquer remorso ou arrependimento, pois agem segundo “manda o figurino”. O homem descrito no livro é o estereotipo dos que tentam negar a morte com toda a sua força, vontade e intelecto e costumam repetir, com suas palavras, o mesmo pensamento do protagonista quando diz “só vou começar a me preocupar com essas coisas depois dos 75 anos”.

I

Como é comum em Philip Roth, não há muitos acontecimentos excepcionais: sem reviravoltas vertiginosas, assassinatos, fraudes financeiras ou personagens cativos por perturbadores questionamentos metafísicos e existenciais; apenas a vida de um homem, o tal homem comum e sem nome.

A história se inicia pelo fim, o fim de todos os homens — comuns ou extraordinário; a narrativa começa descrevendo o funeral do protagonista. O narrador nos apresenta as primeiras impressões sobre o defunto a partir do que dizem, insinuam ou revelam mesmo sem dizer palavra, alguns de seus familiares. Temos o discurso emocionado de Nancy, filha de seu segundo casamento; o de seu irmão Howie, e já ao final dos ritos, o silêncio e a estranha paralisia de seus filhos do primeiro casamento, que revelam sentimentos controversos que vão da indiferença ao ódio velado. Eis, portanto, como era visto o tal homem comum.

A narrativa volta então para os dias de vida do protagonista, não subitamente mas com aquela sutileza peculiar ao autor. Roth como que nos toma pelas mãos e, aos poucos, percebemos que voltamos mais de cinquenta anos no tempo: para a infância e juventude do personagem. É até piegas falar de uma infância feliz — geralmente todas são — , mas aqui não se trata daquela fase em que a vida é só brincadeira e diversão; para o homem comum, ela foi talvez seus anos vividos da maneira mais séria e gravemente possíveis.

Ele se realizava ajudando seu pai na joalheria da família, sobretudo no leva e traz das joias — seguramente escondias num bolso do casaco — para clientes em outros bairros da cidadezinha em que morava, trabalho esse, outrora realizado pelo irmão mais velho. Era quando mais se sentia corajoso, confiável, nas palavras de seu velho. Havia também seus banhos no mar em que, galgando as ondas até a praia experimentava aquele certeza, inerente à juventude, de estar sempre no controle da situação e acima das adversidades do mar do mundo; aquela certeza de se ter o domínio de sua vida.

Foi, enfim, uma infância verdadeiramente tranquila e normal. Divertia-se ao mesmo tempo que provava a coragem e virilidade da vida de adulto. O abalo veio apenas por um evento: a cirurgia de hérnia que o fez ficar internado ao lado de outra criança, a qual veio a falecer; ele, porém, saiu com vida e tendo sempre os pais à sua cabeceira. O garoto cresceu, estudou numa escola de arte — tinha inclinação para a pintura — , mas depois, em nome da estabilidade e segurança financeira, decide por uma carreira de publicitário; afinal, é preciso primeiro pensar no próprio sustento.

Casa-se a primeira vez com uma mulher meio histérica e com a qual teve aqueles dois filhos do funeral, mas em seguida os abandona. “Sabe como é: deu certo deu, não deu é partir para outra”. E os filhos e a esposa? “Bom…aí eles deverão entender que, acabado o encanto e começado as dificuldades, não vale mais a pena continuar o casamento. É gastar vela com defunto ruim.” Em outras palavras, era esse o pensamento do homem comum àquela época.

Seu segundo matrimônio já foi mais bem sucedido. Phoebe, com a qual teve Nancy — a filha dileta — era uma mulher de compleição frágil, mas que guardava um inabalável equilíbrio emocional, tudo o que ele precisava, sobretudo, quando, numa segunda ida à mesa de cirurgia, teve que ser operado devido a uma grave crise de peritonite, doença que quase matara seu pai uns anos antes. Foi Phoebe quem segurou a barra e se manteve juntamente com seus pais e irmão à cabeceira de sua cama, e cuidou dele durante os anos que se seguiram.

Seu casamento ia bem até que, depois dos cinquenta anos começaram os casos extraconjugais. Primeiro com uma secretária; depois com uma modelo dinamarquesa de vinte e quatro anos, mulher voluptuosa e que transbordava lascívia e luxúria por todos os orifícios. As mentiras —rebentos de todos os casos de adultério — , cada vez mais frequentes e descaradas vão correndo a confiança de Phoebe, até que, quando descobre que o marido viajou à Paris para se encontrar com a nórdica, exterioriza toda sua raiva num discurso que o deixa absolutamente sem ter como se defender. Outra vez um casamento desfeito, mas seguido imediatamente de um terceiro: troca a mulher de meia idade por uma da metade de sua idade, e casa-se com modelo a fim de “parecer responsável”.

Mas como era de se esperar, o casamento naufraga. Outra internação cirúrgica, agora devido a problemas cardiovasculares, e a jovem beldade sexual, que depois de casada mostra ter um pavor mórbido de doença ou qualquer coisa que lembre velhice e morte, pula fora por não suportar conviver com um homem que não lhe transmite segurança e mais parece uma bomba-relógio a ponto de implodir. Mas quando isso vem a acontecer, nosso homem comum já passa dos sessenta e toma a decisão de se aposentar e mudar-se para uma espécie de vilage à beira mar para idosos ricos e aposentados, e não lhe resta muita coisa a não ser sentar em sua sala “com a boca escancarada cheia de dentes. Esperando a morte chegar”.

II

Do ponto de vista da maioria das pessoas, o protagonista não deveria ter muito do que reclamar. Aposentou-se após uma carreira profissional bem sucedida; viveu com as três mulheres que quis, e, na velhice — rico e gozando de estabilidade financeira — pôde se dedicar àquela sua vocação da juventude: a pintura. De fato uma vida perfeita. O problema é que ele ainda está infeliz.

Mas por que? Lembremos que o protagonista não tem religião, de modo que mesmo seus casos de adultério não deveriam lhe afigurar como algo tão assombroso a ponto de fazê-lo tremer por sua alma. É certo que passou, desde a infância, por diversos procedimentos cirúrgicos, tendo escapado por um triz de falecer jovem, mas mesmo isso não é a raiz de sua depressão. Por que, então, ele continua infeliz? Será o puro, lancinante, ao mesmo tempo natural, medo da morte? Sim, com certeza! Ele está velho, doente e sozinho, e quem não teria medo de morrer nessas condições? Quem não ficaria assombrado diante do desconhecido; das noites passadas em claro à espera de um incerto dia seguinte? Mas não é essa a principal razão de sua infelicidade; ela radica no fato dele olhar para trás e só vê uma sucessão de fracassos. Sua vida nem de longe foi tão perfeita como deve parece a muitos.

Em todas as esferas de sua existência fracassou. Como filho, nunca expressou seus sentimentos aos pais. Como irmão, sua relação com Howie mais parecia a de uma mediação interna girardiana: na mesma intensidade que admirava o vigor e saúde física dele, depois de velho e doente, a admiração se metamorfoseou numa rancorosa e odienta inveja.

Como pai nunca foi presente; como marido, ou traiu ou abandonou as esposas. O amor vocacional que tinha pela pintura, trocou por uma carreira publicitária; deixou de se dedicar à criação do belo através da arte, para trabalhar por dinheiro e fazer propaganda. Assim, ao contemplar seu passado não há como não perceber que tudo o que poderia tê-lo satisfeito, ou trocou ou abandonou em busca das satisfações mais imediatas.

Ele sempre quisera viver como “um corpo do sexo masculino”. Assim desejou; assim viveu, e tal foi sua tragédia: viver para o corpo; para a segurança do corpo; para o prazer do corpo. Quando, porém, na proximidade da morte e sentindo esse mesmo corpo debilitado e impotente para usufruir aquilo que tanto prezava em vida: o sexo, o mar, a pintura, e ainda sozinho sem amigos, família e garotas, vendo à sua volta “só gente morta caindo ao chão” — pois todos seus conhecidos estão morrendo — , não lhe resta nada além da angústia e do desespero advindo da consciência do fracasso que foi sua vida.

Angústia, desespero e melancolia, eram essas as companhias do homem comum em sua velhice, e é provável que também sejam as únicas a permanecer à cabeceira da cama, e em volta do leito de morte, de todos aqueles que se enquadram no estereótipo descrito pelo livro, qual seja, o do homem pós-moderno; aquele que cresce, amadurece e envelhece vivendo apenas para si, e comme il faut.

III

Penso que esse instigante livro de Roth é uma uma releitura, adaptada para nossa época, do clássico A Morte de Ivan Ilitch. E a semelhança não está só na estrutura do livro: começando com o a morte do personagem principal, seguido da narrativa de sua história e terminando no momento imediatamente antes da morte do sujeito. A similaridade entre as obras está na atitude dos dois Ivans em relação às suas escolhas, bem como no trato com seus próximos; ambos, embora tenham levado uma vida comme il faut, ao final se viram submersos por um mar tempestuoso de tristeza e melancolia sem entender o porquê, já que fizeram tudo como era para ser —como manda o figurino — e, só ao sentir o hálito da morte aquecendo seu cangote e ouvir o rugido da indesejada às voltas, é que eles tomaram a consciência de que, pensando que estavam galgando uma montanha, rolavam barranco abaixo.

O que irá diferir de uma obra para outra é a solução que os dois autores encontraram para seus personagens. O Ivan de Tolstói— juiz e burocrata workaholic — , no apagar das luzes de sua existência terrena, tem ao menos a felicidade de contemplar um clarão de natureza divina, e, na consciência de seus erros, encontra sua redenção no arrependimento; ao passo que o Ivan do americano — egocêntrico, lascivo e indiferente em matéria de religião— não vê nada além da escuridão e o aniquilamento, quando muito o branco dos ossos de seus pais.

Para o cristão Tolstói a redenção está aberta e acessível a todos os homens, portanto, mesmo diante da morte, e independente de como se levou a vida, é possível, pelo reconhecimento e arrependimento de seus erros, atravessar feliz e realizado os umbrais da morte. Philip Roth, ao contrário, porque narra a vida do homem pós-moderno — egoísta, dinheirista, ateu e vivendo tão somente como um corpo do sexo masculino — não traz consolação ao seu personagem; para esse não há perdão, redenção ou clarões milagrosos, só lhe restando mesmo agonia diante do aniquilamento.