Sobre o Livro A Imaginação Educada

Introdução

São Bernardo escreveu que o “átrio ou pórtico da alma é a fantasia, onde as espécies corporais se espiritualizam e dali sobem à vontade”. Entendendo por fantasia a imaginação, a coisa fica mais clara, e vai bem ao encontro do que diz Northrop Frye quando, em seu livro A Imaginação Educada, conceitua essa faculdade como “o poder de construir modelos possíveis da experiência humana”. E é sobre essa obra que gostaria de escrever um pouco.

Ninguém parte para construir, reformar ou criar alguma coisa — ou pelo menos ninguém em sã consciência — , sem antes ter sentado e, pensando com calma, conceber um projeto ou um desenho que funcione como um modelo daquilo que se pretende alcançar ao final dos trabalhos. Nem tão pouco, homem nenhum irá empreender esforços naquilo cujo termo é impossível. A vontade acabaria por se esmorecer e ele perderia o ímpeto em continuar a labuta. É preciso, primeiramente, ter a consciência de que aquilo que se deseja é possível e, aí então, conceber um modelo mental do objeto almejado: seja ele o projeto de uma casa, uma estrada, uma cidade, uma pintura, um livro ou até mesmo um modelo de si mesmo: um “eu melhorado”.

Nesse sentido, se é por meio da vontade que vem ao homem o ímpeto de empreender uma ação visando um fim, é pela sua imaginação — faculdade da alma através da qual o homem começa a engendrar mentalmente um modelo possível daquilo que ele deseja — , que a vontade irá impulsionar todo o ser da pessoa para o objetivo desejado. Mas, e como saber se o que imaginamos é possível de ser concretizado? O que eu imagino para mim está ainda na esfera das possibilidades, mas, será que elas me são realmente possíveis? Como saber se não estou perdido em vaidosos devaneios, desejando ser mais do que me cabe? Eis aí a importância da educação do imaginário — bandeira levantada e protegida pelo crítico canadense Northrop Frye — , educação essa que não pode ser adquirida sem o contato com os clássicos da literatura e da poesia, lidos, não a esmo, mas estudados como um corpus vivo.

O livro está dividido em seis capítulos, originados de palestras radiofônicas, cujo elo que os une são as meditações de Frye acerca do que é a literatura, como estudá-la e, principalmente, é ela importante para alguma coisa? Qual o seu valor para a cultura de uma sociedade? O resultado é um livro que delineia todo um projeto pedagógico visando a construção de um imaginário bem ordenado, e por isso mesmo capaz de fazer o homem, não só pensar melhor, mas também viver consigo mesmo e atuar no mundo que o cerca de maneira justa e harmonizada.

A literatura

O que Frye entende por literatura não é um meio de escapismo, nem um mero relato de fatos passados com terceiros ou com o escritor— ainda que uma obra literária possa ter nascido de experiências vividas por seu autor. A literatura para o canadense não se presta a nos informar o que aconteceu, mas aquilo que acontece sempre. Ela busca, por meio de uma narrativa, seja da vida cotidiana de pequenos burgueses ou de heróis semi-divinos, representar aquilo que é universal em todos nós. É como um portal que leva o leitor aquilo que Ernest Auerbach chama de uma “construção coerente da realidade”, de modo que, quando lemos, somos transportados para um mundo virtual, porém construído de possibilidades genuinamente humanas.

Nesse sentido, pouco importa se algum dia houve uma mocinha nascida em uma longínqua província francesa que, casando-se com um médico interiorano meio bobão, e insuflada por um enorme desejo de ser mais do que realmente lhe era possível, acabou por trair reiteradamente o marido, levá-lo a falência e depois se suicidar ingerindo arsênico. Eis aí a trama principal do livro Madame Bovary, de Gustave Flaubert.

Mas o que interessa aqui é ver Emma como um arquétipo de todos aqueles que, furiosamente insatisfeitos com o que são, criam uma autoimagem fictícia e enobrecida ao extremo, ao ponto de, num desejo descontrolado de concretizar a todo custo suas aspirações e ilusões, sempre desproporcionais a suas capacidades, terminam por quebrar a cara e ainda empurrar seus próximos no mesmo redemoinho de insatisfação, depressão e ruína que eles mesmo criaram. Não é à toa que o Bovarismo é hoje um termo técnico da área de psicologia.

E qual a utilidade prática de entrar nesse mundo de possibilidades?

O poeta T S Eliot escreveu certa vez que o homem não aguentam tanta carga de realidade, e tal é a explicação para essa tendência demasiadamente humana em escapar da vida cotidiana através de formas de entretenimento baratas — que vão desde as drogas, o sexo até aos grupos de autoajuda. Mas, e se pudéssemos experimentar uma outra realidade, que não a nossa vidinha vulgar e prosaica, a qual, sendo ao mesmo tempo uma montagem artificial, é de tal forma um constructo criado coerentemente e fiel ao nosso mundo real? Um realidade, não digo paralela, mas concêntrica e interior a nossa, porque existe em nossa imaginação, por meio da qual experimentamos dramas, alegrias, tragédias, terror, ciúme, medo e tantos outros sentimentos dos mais confusos, mas apresentados para nós de uma forma clara, coesa e coerente de modo que, uma vez saídos desse mundo imaginário, nós estejamos capazes de reconhecer esses mesmos sentimentos em nós? Enfim, e se nos fosse possível entrar numa piscina em um dia quente, fruir daquela sensação refrescante, e, ao mesmo tempo sair dela enxuto e sem sentir frio?

Somente uma construção desse tipo atenderia a nossa fraqueza em escapar da realidade, sem, contudo, nos fazer cair em perigosas quimeras. Somente algo assim teria o poder nos fazer experimentar os mais diversos e complexos dramas e sentimentos próprios da existência humana de maneira, não apenas segura, mas bem explicada e, ao mesmo tempo, belamente escrita; pois nisso consiste o poder da criação literária: tornar possível a experiência, em espírito e em verdade, de viver a história de outras pessoas, de tempos e lugares distintos dos nossos, e, após ter padecido suas vidas ficcionais em nossa imaginação, conseguir absorver em nossa alma o mesmo mundo real que, segundo Frye, a literatura não apenas reflete, mas engole.

A crítica literária

Mas as meditações de Frye não se resumem ao objeto da literatura ou sua importância para o homem, ele também aborda um tema que lhe é bastante caro: qual o papel do crítico? É ele maior que o poeta, já que se põe na condição de julgá-lo? É o crítico um romancista recalcado e sem talento?

Se nenhuma obra literária foi criada do nada, mas, ao contrário, pertence a um corpus e se comunica ou conversa com as demais formando uma espécie de “bibliosistema” — uma biblioteca viva em que livros se relacionam com outros, casam e geram descendentes — , é função do crítico estudar cada obra individualmente a fim de julgá-la em comparação com as outras, e mapear esses parentescos que ligam umas as outras. Mas como fazer esse mapeamento?

Assim como e possível mapear todos os genes de algumas espécies, e do mapa resultante compará-lo ao de outras a fim de identificar a origem de cada uma, Frye postula que a origem de uma obra literária pode ser mapeada por meio dos mitos e arquétipos que estão subjacentes em sua anatomia, e, comparando-os aos mitos e arquétipos já empregados em outras narrativas, decifrar a qual tradição ela pertence, e para Frye é a Bíblia o descendente comum de toda criação literária.

Dessa forma, aquele que se autointitule crítico literário — ainda que ostente o diploma ou certificado da melhor universidade — , se não conhecer profundamente a narrativa bíblica, suas análises sempre se reduzirão ou a tecnicismos acadêmicos, ou, cairá naquele tipo de análise que toma a obra como algo que basta por si só, no máximo influenciada pela vida pessoal de seu autor.

O ensino da literatura

Eu escrevi acima que o resultado de toda essa digressão, um tanto abstrata, acerca da importância da literatura e de sua crítica, serve para Frye nos conduzir a um programa pedagógico de ensino da literatura, tendo por objetivo construir em nossa mente um mundo imaginal ordenado e harmonioso com a realidade, a fim de educar nossa faculdade imaginativa. Pois eis que, no capítulo Verticais de Adão, o autor nos apresente os fundamentos desse programa.

Frye nos diz que toda a literatura segue à mitologia, portanto, é pelos mitos fundantes de nossa civilização que deveríamos começar o estudo mais sério da literatura. E, em sendo a Bíblia a manifestação mais completa desse mito, é por ela que se deve começar a formação do imaginário.

Aqui vale um parêntese: comparar a bíblia a um mito, não implica em dizer que ela é uma história fictícia, pois:

“Um mito é um esforço de imaginação simples e primitivo para identificar o mundo humano com o não humano, e seu resultado mais típico é uma história sobre um deus.”

Além do mais, a palavra mito.

“é um termo técnico de crítica literária; o sentido popular que veio a adquirir, de ‘inverídico’, considero-o uma degradação da linguagem.”

Assim, dizer que a Bíblia é uma narrativa mítica, não é compará-la a uma ficção, mas sim, que ela se trata de uma história verídica, narrada a partir da mesma técnica literária utilizada para nos contar a história de um deus. Fechado o parêntese, continuemos.

O estudo da Bíblia que Frye propõem em seu programa de educação da imaginação, não é tomando a Escritura no seu aspecto religioso ou moral, mas no literário.

“o mais importante na Bíblia é sua estrutura formal total: o fato de ser uma narrativa contínua, começando na Criação, terminando no Juízo Final e, entre as duas pontas, atravessando e sondando o história inteira da humanidade, sob nomes simbólicos de Adão e Israel. Em outras palavras, é o mito da Bíblia que deveria servir de base à instrução literária.”

Na esteira de seu programa, Frye recomenda que, às Sagradas Escrituras se sigam às mitologias clássicas, e após essas, o teatro grego — tanto as tragédias quanto as comédias, e, finalmente o romance.

É claro que aqui se tem um itinerário ideal, que deveria começar já na infância, todavia, o que devemos nos ater é na hierarquia de importância entre as maiores obras da nossa literatura ocidental. Não é que devamos ler toda a Bíblia, e só então passar ao teatro grego e por fim aos clássicos romanescos. Importa é saber o seguinte: não é possível entender profundamente um grande romance, por exemplo Crime e Castigo, se não formos capazes de entrever na estrutura do romance, a parábola do filho pródigo. Assim, entender de literatura é ser capaz de dissecar ou descascar as diversas camadas de uma obra, a fim de identificarmos o conjunto de mitos e símbolos que estão ali presentes.

Mas, como nem só de literatura vive uma cultura, mas do conjunto de todas as grandes obras de artes produzidas pelo gênero humano, segundo Frye, não é só importante para o estudo da literatura o contato com outras formas de arte, tal como a música e a pintura — e eu acrescentaria o cinema — , mas também para a própria educação da imaginação, posto que:

“a imaginação é o poder construtivo da mente liberada para se dedicar à pura construção, à construção por si. As unidades não precisam ser palavras: podem ser números ou tons, ou cores, ou tijolos, ou peças de mármore. Mal se entenderá como a imaginação opera com as palavras antes de entender como ela opera com essas outras unidades.”

Não pensem vocês que o estudo da literatura proposto pelo canadense se resume a formar diletantes ou, quando muito, escritores de ficção, pois que, para o crítico.

“a literatura guarda com as ciências construídas sobre as palavras, como a história, a filosofia, as ciências sociais, o direito e a teologia, mais o menos a mesma relação que a matemática guarda com as ciências físicas.”

Portanto, para o estudo de qualquer ciência pertencente à área de humanas, é a literatura o alicerce que irá fundamentar sua compreensão, e quem pensa que poesia e obras romanescas são puro entretenimento, e só filosofia, história e direito, por exemplo, é que são coisas sérias, já mostra sua incapacidade de estudar, tanto uma coisa como outra. Não é possível entender um livro de qualquer disciplina humanística, sem aquela capacidade de dissecar uma obra literária ao ponto de compreende-la numa profundidade que desça além do que está ali narrado.

A Babel

A imagem que encabeça esse texto é a representação da Torre de Babel, de Pieter Bruegel — o velho. Diz o mito bíblico que houve uma época que o todos falavam a mesma língua, até que os homens, tomados por um arroubo de prepotência, decidiram erigir uma torre que ligasse a terra ao céu, e assim constituir uma espécie de estado mundial, cujo símbolo maior — a torre — , representasse o domínio humano sobre os céus e a terra, de modo a tornar possível ao homem ascender, por ele mesmo, da terra ao céu.

Bom…já sabemos o final da história: Deus, vendo toda aquela insensatez, lançou um castigo cujo resultado foi a confusão das línguas, e de tal forma, que ninguém mais entendia nada o que o outro dizia, originando daí o nome babel, que significa confusão.

No último capítulo, a vocação da eloquência, Frye alude ao mito da Torre de Babel para nos dizer que o mundo à época em que o livro foi escrito, em meados da década de 60, já era uma materialização da famigerada torre após a confusão (imagine o nosso Brasil de hoje, onde alguns patamares a mais foram acrescidos ao empreendimento).

Nesse sentido, estamos um mundo onde, ao mesmo tempo que não há mais barreiras e entraves para a comunicação, são poucos os homens capazes de se comunicar numa mesma língua, e não falo daquela língua ancestral comum, mas da linguagem genuinamente humana, aquela na qual eram fluentes Shakespeare, Dante, Virgílio, enfim, no idioma de todos os homens verdadeiramente livres.

Hoje, o que impera é a incapacidade de se expressar e criar vínculos mais estáveis uns com os outros, a não ser através da linguagem dos clichês sociais, científicos, mercadológicos e políticos — linguagem essa que só serve para unir pessoas de mentes vazias e cujo único objetivo de vida é crescer financeiramente, e assim poder ascender a patamares mais elevados de uma torre mal acabada, pensa e prestes a desmoronar. Como nos diz Frye:

“O âmbito da fala corriqueira, na minha visão, é um campo de batalha entre duas formas de discurso social: o discurso de uma turba e o discurso de uma sociedade livre.”

Hoje, o discurso da turba é baseado no clichê do politicamente correto, aquele cujas palavras se transformaram num pacote vazio a ser preenchido com o significado que a mídia ou o Estado desejarem — significado esse que poderá ser rapidamente convertido em seu oposto, ao gosto daqueles que estiverem na cabeça da torre. É o discurso que aprisiona a inteligência, a vontade e todo o ser da pessoa impedido-a de descer da torre — de escapar da confusão imposta por um modelo de vida que só preza o prazer o status social — , e ir em busca de outros campos, longe das nuvens e em terra firme, porém com a alma livre, pois que, é por meio dela que ascenderemos ao verdadeiro céu.

Mas, e onde é que entra nesse cenário a imaginação e a literatura, assuntos principais do livro?

Eu lembro de um comercial, lá pelo idos anos 80 ou começo dos 90, em que um homem parecia estar se afogando, e, desesperadamente procurava, sem sucesso, nadar para a superfície; era o comercial do Ministério da Educação, a fim de promover uma campanha contra o analfabetismo, e o coitado do afogado representava o analfabeto em seu sofrimento num mundo de informação.

Pois bem, é certo que hoje o número de analfabetos “de pai e mãe” — os que não sabem ler nem escrever — diminuiu muito, porém, vêm crescendo exponencialmente aqueles denominados analfabetos funcionais, e eu acrescentaria ainda, os que chamo de analfabetos da imaginação; homens e mulheres que não conseguem conceber um outro modelo de vida que não se resuma a ganhar dinheiro, viajar muito e parecer jovem e sexualmente ativo, ou seja, são pessoas incapazes de, sequer, imaginar que possa haver um outro tipo de existência em que dinheiro, sexo e aparência, desçam do alto da hierarquia e cedam lugar a Deus, à família e às virtudes. E é ai onde entra a importância da educação da imaginação, que não é possível sem o contato mais íntimo com a literatura, mecanismo mediante o qual é construido na mente do leitor um mundo imaginal, porém montado coerentemente à realidade.

E é no esforço de abrir uma estrada que leve o leitor a tirar o máximo proveito da literatura — seja na forma da poesia, teatro, romance ou até mesma nas Sagradas Escrituras — , que se fundamenta todo trabalho de Northrop Frye como crítico literário, o que o põe numa posição de destaque na área, e faz de sua obra uma verdadeira escada de emergência, para todo aquele que deseja escapar da babel que nos encontramos hoje.

Enfim, se a imaginação é o pórtico da alma, tal como disse São Bernardo, construí-la sobre firmes fundamentos é muito mais que um mero ornamento; é já começar seu processo de educação por completo, orientando a vontade para o bem e o intelecto para a verdade, e só assim será possível construir uma sociedade de homens verdadeiramente livres. Homens porque, estando suas almas orientadas para as coisas permanentes e transcendentes às meras aparências, serão capazes de oferecer resistência aos sedutores discursos ideológicos que prometem erigir um paraíso na terra, seja na forma de uma sociedade igualitária ou de uma torre arranha céu.