Gato Murr
Gato Murr
May 27, 2018 · 6 min read

A primeira vez que tive contato com Joana D’arc, de Mark Twain, foi há alguns anos quando o vi, meio que exprimido entre tanto outros, no nicho mais baixo de uma prateleira da Livraria Cultura. Atentando só para o título, grafado em letras garrafais, imediatamente peguei o livro, dei aquela breve folheada mas, ao bater os olhos no nome do autor, confesso que cedi a um preconceito dos mais bobos possíveis: embora não tenha julgado o livro pela capa, julguei-o pelo autor; pensei “o que um escritor, nascido em meados do séculos XIX, no sul dos Estados Unidos, à beira do Mississippi, e, principalmente, um não católico, teria a dizer sobre uma das santas mais fascinantes da história, e cuja devoção se concentra preponderantemente em sua terra natal, ou seja, na França?”. Acabei por não levar o livro; tendo justificado para mim mesmo que seria mais uma daquelas abordagens modernas, semelhante aquela do filme de Luc Besson sobre Joana D’arc. Ledo engano. O livro é não só um excelente romance histórico protagonizado pela Dama de Orleans, mas talvez a única hagiografia escrita por um não crente, e sem qualquer preconceito ateísta ou tentativa de reduzir a figura da santa a uma jovem histérica ou patriota xiita.

Mas antes de apresentar brevemente o livro, é necessário ilustrar o contexto histórico em que se passa a narrativa, até para termos uma pequena noção da importância que Joana teve para sua terra, pois, não é nenhum exagero dizer que, não fosse por aquela jovem garota de Domrémy — ou melhor, não fosse pela intervenção divina manifestada através de Joana — , a França teria se convertido numa província da Inglaterra.

Joana D’arc nasceu no ano de 1412, no auge da famosa Guerra do Cem Anos entre França e Inglaterra. A guerra consistia numa série de conflitos travados entre 1337 e 1453 (116 anos ao todo) , motivados pela disputa do trono francês por parte da Inglaterra, haja vista que, depois da morte do rei francês Felipe IV, Eduardo III da Inglaterra, neto do falecido, achou por bem reivindicar o direito à coroa francesa.

Assim, quando a menina veio ao mundo já haviam transcorrido mais da metade da guerra, com a balança pendendo em favor dos ingleses, sendo a França um reino moribundo encabeçado por um rei doente da cabeça.

Carlos VI, o Louco, era de fato um homem doente mental. Subiu ao trono aos 11 anos, todavia, em virtude da pouca idade a regência ficou nas mãos de seus quatro tios: os duques de Borgonha, Berry, Anjou e Bourbon, até o rei chegar à idade de 21 anos. O problema é que pouco tempo depois de Carlos tomar o cetro real, o rapaz começa a ser acometido por acessos de demência, cuja primeira crise se deu por volta do ano 1392; aproveitando a fraqueza do poder real, o duque de Borgonha começa a mover seus pauzinhos em vista a tomar o trono, dando causa a invasões de terras e saques de aldeias, chegando inclusive a se aliar aos ingleses, e dividindo a França em dois “partidos”, o borgonhês, a favor dos ingleses, e o armagnacs, chamado de os “patriotas”.

Para completar o cenário, em 1415 — quando Joana D’arc tinha lá seus três anos — , deu-se a famosa batalha de Azincourt, quando uns 6.000 ingleses encabeçados por Henrique V, o então rei da Inglaterra, derrotaram corajosamente mais de 30.000 franceses.

À vergonhosa derrota, soma-se o indecoroso tratado de Troyes assinado pelo rei louco, no qual ficou assegurado à Inglaterra todo o norte da França, inclusive Paris, além de que, o Delfim Carlos VII, herdeiro do trono ficava deserdado do seu direito, o que seria o fim da soberania francesa, já que a princesa Catarina, filha de Carlos VI, foi dada em casamento ao rei Henrique V, ficando ao futuro filho casal a garantia de reinar sobre França e Inglaterra.

Assim, humilhados com as sucessivas derrotas no campo bélico e político, sofrendo os horrores da guerra civil entre borgonheses e armagnac, além da epidemia de peste negra que dizimava o restante da população civil, não restava muita esperança para os franceses senão esperar um milagre dos céus, e que de fato veio, mas não caído do alto, e sim saído da humilde vila de Domrémy, na figura de uma jovem mocinha de seus 16 anos. Deus, de fato, confunde os sábios e derruba os poderosos. Mas voltemos ao livro.

A obra se divide em três partes: a primeira narra os anos de infância e adolescência de Joana D’arc em Domrémy, ao que se seguem os dias na Corte e no campo de batalha, ficando a terceira parte incumbida da narrativa do julgamento e martírio de Joana.

A história é contada não por um imparcial narrador onisciente e onipresente, mas por um Sr. Louis de Conte, amigo de infância da heroína, e depois seu pajem e secretário, que, aos oitenta e dois anos de idade resolveu passar a limpo tudo que ouviu e presenciou pessoalmente acerca da santa de Domrémy.

É para Louis de Conte que Joana irá revelar, pela primeira vez, as experiências místicas que teve ainda na adolescência, as quais incluíam visões de anjos e santos; será também ele o primeiro a tomar conhecimento da singela missão que a menina receberia do próprio São Miguel Arcanjo: levar o banido Delfim Carlos VII ao trono real, e expulsar os ingleses do reino da França.

E, do ponto de vista estilístico, talvez essa opção tenha sido a grande sacada de Mark Twain, pois, transferindo a autoria da história para a pena de uma fonte primária dos acontecimentos, fica garantida a veracidade dos fatos, bem como, dá mais liberdade ao autor — Mark Twain — para expressar toda a sua simpatia, admiração, e, por que não dizer, devoção à Santa Joana D’arc.

A primeira parte do livro é aquela aonde se abre maior espaço para licença poética, já que se trata dos primeiro anos de Joana, dos quais há pouca informação histórica. Ali somos imersos naquele lúgubre contexto histórico em que padecia a França, e a uma Joana que, não obstante a pouca idade, já demonstra possuir todas as virtudes com as quais ficaria conhecida, vale dizer, a coragem, sabedoria e caridade.

Conta-nos Louis de Conte que, durante um rigoroso inverso, estava ele jantando na casa do Sr e da Sra D’arc em companhia de Joana e outras crianças, e eis que surge um homem com as roupas aos farrapos e um rosto sofredor, pedindo qualquer ajuda para matar a fome. A pequena Joana, compadecida daquela pobre criatura, oferece sua rala sopa, mas o Sr. D’arc a impede de entabular conversa com o estranho, provavelmente um ladrão ou algum malfeitor que vagava por aquela região.

A menina tenta convencer o pai de que, independente do que homem tenha feito, seu estômago não tinha culpa dos seus feitos; o prefeito, que também jantava na casa dos D’arcs, dando razão a Joana, aproveita a deixa para desvelar um longo discurso sobre a injustiça em fazer o estômago de um homem pagar pela culpa de sua cabeça. Trata-se de um discurso puramente demagogo, mas que acaba por convencer a todos, inclusive o Sr. D’arc, que, emocionado com a retórica do governante, pede a esposa que dê um pouco de sopa para o sujeito, porém, antes que a mulher encha o prato, Joana já havia dado o seu jantar para ele. Vemos na menina aquela caridade própria dos santos; eles, tão logo notam alguém em dificuldade, diligentemente se põem a ajudá-los, sem necessidade de serem convencidos por meros discursos.

Já a segunda e a terceira parte, as mais longas e com detalhes mais minuciosos, narram aqueles acontecimentos mais conhecidas por todos. Joana conseguirá fazer com que o Delfim seja coroado; será nomeada uma espécie de general e irá marchar à frente do exercito francês na batalha de Orleans, donde sairá vitoriosa, revertendo o cenário da guerra em favor da França, mas, por fim, devido a covardia do próprio monarca, será presa e julgada, sob a acusação de heresia, por um Tribunal eclesiástico comprado, do qual sairá culpada e condenada a ser queimada viva; acontecimento que se dará no ano de 1431, na idade de 19 anos.

O processo de Joana D’arc começará a ser revisto em 1456, quando será considerada inocente pelo papa Calisto III, sendo, finalmente, beatificada no ano de 1909, pelo papa Bento XV.

A história, é claro não é narrada naquela forma seca das crônicas, há alguns eventos episódicos e tudo é contado num ritmo muito semelhante ao daqueles grandes épicos do cinema, mas sem deixar de se aprofundar no drama de Joana D’arc.

Grande livro que faz jus a heroica e emocionante história de Santa Joana D’arc, a qual, como nos lembra Loui Kossuth — político húngaro e um dos líderes na luta por uma Hungria independente dos austríacos — , “foi a única pessoa, entre homens e mulheres, que chegou ao comando supremo das forças militares de uma nação aos dezessete anos de idade”.

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