“Tememos nossa mais elevada possibilidade(…). Apreciamos e até nos emocionamos com as possibilidades divinas que vemos em nós mesmos em tais momentos culminantes. E, no entanto trememos simultaneamente de fraqueza, pasmo e medo diante dessas mesmíssimas possibilidades.”

(Maslow)

A epígrafe desse texto foi extraída do livro A negação da morte, de Ernest Becker. E que impacto ela teve em mim! Foi como um golpe dado numa superfície de gelo, rachando-a em blocos e evidenciando o rio que ela cobria. Somos todos uns covardes! Fala-se tanto em vocação; busca-se com tanto afinco aquilo que faz nossa existência ter algum sentindo, mas, quando nos damos conta daquilo que nos eleva acima de, não só de todos os animais, mas da maioria dos homens, nós nos retraímos e nos acovardamos diante da mais elevada de todas as possibilidades humanas, na verdade, daquilo que nos faz ser realmente humanos: a santidade.

Ela tanto seduz, instiga-nos a almejá-la, quanto, imediatamente depois, nos amedronta. Fugimos dela. “A santidade é para monges medievais, padres, freiras ou ermitões”, é o que, no fundo dizemos de si para si. Para nós nos cabe o conforto e um estilo de vida que deixe alguma brecha para aqueles nossos pecadilhos de estimação. No entanto, é a santidade nossa vocação por definição. Fomos todos chamados a ela, não importa se leigos ou religiosos; é o caminho que precisamos trilhar para, não digo nem nos aperfeiçoar como homens e mulheres, mas sim, atingir nossa verdadeira condição de humanos.

Que drama vive o homem! É como um náufrago que, tendo o barco afundado, ao invés de nadar em direção à superfície da água, mergulha cada vez mais para o fundo atrás dos restos do navio até lhe faltar completamente o ar e ser tragado pelo mar. Mas o que motiva a repulsa íntima ante essa vocação sublime? Por que fugimos da santidade? Só há uma resposta: covardia.

Somo todos covardes, e assim o somos porque ela é uma chamado, não ao descanso de férias, mas a uma aventura numa terra habitada por toda a sorte de seres perigosos e ameaçadores; povoada por monstros, muitos dos quais internos a nós mesmos. Nessa aventura é preciso atravessar pântanos alagadiços, desertos de um calor sufocante e escalar montanhas íngremes e traiçoeiras. É uma missão que exige trabalho, desconforto, renúncia; enfim, é uma aventura que exige a morte, e quem está disposto a enfrentá-la? Quem, ao menos, pensa na indesejada? Todavia, não há outra maneira de atender essa vocação que não com o contínuo morrer para si mesmo. Matar o ego, e fazer o Narciso que existe em nós emergir das águas profundas e voltar para beira do rio

Ernest Becker, naquele mesmo livro que citei, fala de um “projeto edipiano”: que é algo como o desejo de “matar Deus” a fim de tomar o Seu lugar nas nossas vidas, e nos tornarmos senhor de nosso destino; uma louca e perigosa quimera para a qual somos todos inclinados. É como se vivêssemos numa constante tentativa de fazer de nós uma torre de babel; uma construção que, partindo da terra, pudesse, por ela mesma chegar ao céu, no entanto sabemos como terminou aquele projeto: em confusão, fracasso e queda.

Nossa vocação, por outro lado, nos exige a “demolição” de nós mesmos para que o Espírito Santo possa nos reconstruir, erigindo em nós Seu templo para então fazer dele Sua morada. No entanto isso requer coragem e morte diária, e é a morte que estamos sempre negando; é dela que passamos toda a vida a fugir.

Não é possível sair da possibilidade para o ato sem que aja o movimento, e a vida é movimento. Permanecer na esfera da possibilidade é estar sempre inerte. Nada acontece no plano do meramente possível. É com o fazer e o agir que atualizamos as possibilidades, extinguindo-as a afim de que surja o ato. Uma bola diante da trave aberta e sem goleiro traz a possibilidade de gol, mas ele só acontece se alguém mirar e chutar a bola. É aí que saímos do “pode ser” para o “é”’, tornando-nos, dessa forma, partícipes do Ser.

Surge então o paradoxo trágico diante do qual está o homem: ao temermos a morte, ao negarmos o morrer para si mesmo e insistirmos em permanecer fixos no plano das possibilidades sem “matá-las”, atualizando-as, estamos negando a vida, que é ato e reside no Ser. Fugir da morte é então fugir da vida. E é para a vida que fomos chamados, e seu caminho a santidade.

É na aventura da santidade que encontramos a vida — a nossa vida — , aquilo para o qual fomos criados. Não encarar essa odisseia é ficar sentado numa pedra, à beira mar, em qualquer ilhota por aí, sentindo apenas a espuma do mar lambendo os dedos dos pés, quando, na verdade somo vocacionados para nos lançar ao mar da vida — o qual parece um mar de morte — sempre pronto para nos engolfar, todavia, é confiando Naquele para o qual caminhar sobres as ondas é como um passeio num dia fresco, que seremos capazes de atravessar o mar da vida, cumprir nossa vocação e conquistar a vida em terra firme; a vida eterna.