Eu acho que sou solitário, por fim das contas.

De tantas as coisas que descubro sobre mim mesmo, a solidão sempre foi uma grande incógnita. Nunca soube se ela era uma conseqüência ou uma coincidência, mas sei que ela sempre esteve lá, rastejando pelos meus pensamentos.

Quando criança, lembro bem dos meus hobbies favoritos. Passar a noite vendo filmes, jogando jogos, ou até mesmo ouvindo musica. Tudo apenas com a minha presença. Ora, quando pequeno eu tinha uma lógica simples, eu não sabia como conversar com meus colegas de classe, logo eu devia ser uma pessoa fechada, um nerd qualquer que tem poucos amigos e é zoado na escola. Tal pensamento nunca me deixou triste ou chateado — grande parte pelo fato de eu nunca ter diretamente sofrido algum tipo de bullying ou até mesmo um simples xingamento — eu apenas sabia que minha realidade era aquela e estava confortável com isso. A solidão nunca me assombrou. Meus dias favoritos eram os que eu faltava as aulas para ficar trancado no quarto a manhã toda, saindo apenas para refeições e banheiro.

Obviamente eu tinha amigos, não era como se eu fosse totalmente fechado. Você fica entendiado em um lugar com pessoas entediadas e eventualmente vocês viram amigos. Eu gostava deles — e ainda gosto, diga-se de passagem — porém nunca queria passar muito tempo socializando. Era muito exaustivo me forçar a fazer piadas e estar por dentro dos assuntos, a maioria tinha hobbies diferentes então nunca fui de apresentar meus passatempos favoritos para eles. Sabe como é difícil explicar um jogo sem diálogo para alguem que não sabe nada de vídeo game? Só de pensar já me deixa exausto.

Mas histórias de lado, minha infância foi regada de solidão e ela não chegou nem um pouco a me machucar como machuca agora. Nem preciso falar que com a idade as coisas mudam, porém dessa vez eu consigo entender essa solidão bem melhor e, com essa compreensão, veio a parte ruim da cognição, a dura realidade.

Solidão é uma merda. Simplesmente é. Te faz se sentir o intruso no formigueiro que é sua própria vida. A pior parte é que ela não tem nada a ver com ser introvertido ou extrovertido. Ela vai muito mais além. Você pode ser a pessoa mais querida de um lugar e ainda se sentir solitário. Você pode adorar ficar sozinho e odiar se sentir solitário. Porque a solidão não nasce do estar e sim do ser. Quando você está solitário, você não necessariamente é solitário.

Foi nisso que eu percebi que a solidão da minha infância não é nada comparada a solidão que o eu de 21 anos sente. Ela, hoje, vem das incertezas e inseguranças que eu trouxe na bagagem que todos carregam pelas suas vidas.

Quando comecei com os antidepressivos, lembro que a primeira coisa que o médico disse foi que eu não era o único. Falando agora parece papo furado, mas a explicação que ele deu amenizou demais a dor que eu sentia no momento. Ele pegou um pequeno livro que tinha em sua gaveta que foi escrito por uma psiquiatra sobre a depressão. Disse, em seguida, que se o meu caso fosse único, tal livro não existiria, tudo isso em um tom amigável e simpático. Pela primeira vez, eu não me sentia um total covarde conversando sobre meus pensamentos suicidas.

Nós realmente não estamos sozinhos como pensamos que estamos. Por isso estar solitário era algo desejável para mim quando criança, mas ser solitário não, pois no primeiro caso, você tem a certeza do que quer e o desejo de se isolar temporariamente, enquanto no outro nunca me pareceu uma escolha e sim uma conseqüência injusta.

O que quer dizer então quando digo que sou solitário, como fiz no título do texto? Exatamente que agora me sinto perdido em um mundo que eu não compreendo nem um pouco, sem saber como e nem a quem agradar.

Me sentir assim me transformou em um extrovertido ao longo dos anos. Sentia que quanto mais pessoas eu me relacionasse, menor seria o sentimento. Obviamente não deu certo. O resultado foi que o sentimento de solidão acaba me acompanhando para a maioria dos lugares. Em realidade, essa transformação em extrovertido piorou o meu sentimento de solidão.

O que concluo disso e desejo para esse novo ano, é que eu me entenda mais. Ninguém merece se sentir sozinho. Ponto. Seja como for, os danos da solidão são de longo prazo, sendo um processo lento de autodepreciação e surgimento de problema como ansiedade e crises de pânico. Algo que eu sinto na pele hoje, mas que fico feliz de consegui r escrever sobre.

Portanto, se estiver se sentindo sozinho(a), espero que encontre aquilo que te faça sentir incluído, assim como eu estou procurando.

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