Quando comecei a me interessar por literatura.
Conversava com um amigo na faculdade e em algum momento falei que ele estudava filosofia para pegar mulher (rimos, provável que seja um pouco verdade) e falei que comecei a ler para pegar mulher, lógico que não funcionou e nem funciona até hoje (nem para mim e nem para ele).
Depois dessa conversa, eu comecei a pesquisar na memória quando foi que eu comecei a ler e por qual ou quais motivos eu leio livros. Pensei em registrar esse trabalho de rememoração em texto.
Segue.
Quando falei que comecei a ler para pegar mulher, eu estava lembrando de quando comecei a ler Bukowski — isso foi com 18 ou 19 anos-, que conheci por causa de um seriado chamado Californication. A personagem principal tinha influências de Bukowski. No seriado e nos livros de Bukowski, a personagem principal tinha um traquejo com as mulheres que eu queria aprender, aprendi algumas coisas com Bukowski, mas não foi em relação as mulheres, e sim como um não-exemplo, algo que eu não queria e ainda continuo não querendo ser. Sua vida cheia de problemas, o abuso do álcool, suas relações que não duravam, sua indiferença a quase tudo. Depois de amadurecer um pouco, não vi motivos para tomá-lo como exemplo de algo. Uma coisa que a leitura dele me causou foi o interesse por literatura de ficção, depois dele, sempre estou lendo um livro.
Porém, não foi nessa época que comecei a ler sem ser “obrigado” pelo colégio. Lembrei-me dos livros de auto-ajuda que lia na adolescência, quando não tinha muita coisa para fazer e minha mãe tinha vários livros desse tipo. Um livro que lembro é Jesus, o Maior Psicólogo que Existe. Lembro-me desse e de um livro pequeno em tamanho físico e de conteúdo mais clichê impossível. A sensação depois de ler esse tipo de livro é horrível, principalmente se você é um adolescente tímido e inseguro. Há várias “dicas” de como “melhorar” sua vida e essas dicas são as mais genéricas possíveis e o mais distante da realidade possível, se você fosse seguir cada dica, você teria que ter pelo menos 30 horas no seu dia. Graças a Deus não levei adiante a leitura desse tipo de literatura.
O trabalho de rememorar ainda não tinha terminado e comecei a buscar onde tinha começado esse gosto pela leitura. Lembrei que mais novo eu lia os quadrinhos da Turma da Mônica, li bastante quadrinhos e gostava de lê-los. Acredito que foi aí que comecei a tomar gosto por histórias, sejam elas “verdadeiras” ou “falsas”, a descobrir um sentido naquilo que lia. A cada página lida, eu queria pular para outra, queria saber como ia terminar a história. Acredito que foi aí o começo do meu gosto por narrativas.
Entretanto, quando adolescente, eu já não lia com muita frequência e já tinha passado da fase de ler auto-ajuda -amém - e não lia mais os quadrinhos da turma da mônica. O que fazia quando não estava jogando vídeo-game era ajudar meu avô na lanchonete. Lembro das histórias que ele contava: suas aventuras de quando era mais novo, suas saídas, como conheceu minha avó, a noiva que perdeu em um acidente (se não fosse esse acidente, talvez eu não estivesse aqui), etc. Cada história era uma porta que abria e cada porta aberta era algo que eu conhecia mais do meu avô, depois viciei-me em abrir as portas e sempre estava querendo abrir uma nova porta. Através dessas histórias eu conseguia ver sentido nas suas atitudes diárias. Talvez tenha sido nessa época que eu tenha levado adiante o meu gosto por narrativas, cada nova narrativa do meu avô era uma nova sensação causada. Até hoje, os livros que guardo com mais carinho na memória são os que causaram algum tipo de sensação a mim. Se fico indiferente ao que estou lendo, o livro não valeu muita coisa para mim.
Hoje a leitura é uma parte de minha pessoa, ando com livros para todos os lugares que eu vou, não falo disso com a intenção de parecer alguém inteligente (sou burro e se não conseguir um dia ser inteligente, não ser burro bastará).
Com o tempo as formas de conhecer as coisas foram mudando. Comecei pelos quadrinhos, passei para a auto-ajuda, o abandono dos livros e o desejo de conhecer alguém mais afundo (meu avô), voltando a ler por causa de um seriado. Todas essas formas de conhecer são movidas pela minha curiosidade de querer saber de algumas coisas e de gostar de ouvir, de assistir, de ler o que os outros têm para contar. Isso tudo que falei não é uma grande história, é apenas minha história e quis compartilha-la.
