o meu corpo é a minha casa

é, talvez a minha casa tenha mudado um pouco nos últimos tempos. aliás, mudou, mas não foi pouco. fiz algumas reformas, troquei algumas coisas de lugar, mudei o telhado e pintei umas paredes. recebi visitas, cortei inquilinos, troquei as cortinas.

mas eu vou te contar: minha casa tá bem melhor agora. hoje, habitar essa casa é sinônimo de estar em paz.

texto do título — arte da Paula Siebra, maravilhosa.

vou te contar, meu corpo é um negócio que eu amo muito. mesmo com todas as imperfeições e esses 8 (que já foram 15) quilinhos a mais que me incomodam sim, mas não me impedem de continuar gostando muito do conjunto da obra. eu vejo esses defeitinhos — a falta de hidratação das minhas pernas, os quilos a mais, o formato dos meus dedos — como aquela cadeira ou gaveta que toda casa tem, onde ficam todas as coisas que não têm pra onde ir. sabe? você deve ter esse lugar na sua também. as coisas que estão ali não têm lugar certo, mas precisam estar disponíveis na casa. elas precisam existir.

pra casa feita de carne, osso e sentimento, o negócio é simples: a bagunça é o tempero. repara. repara na cicatriz da mão que me lembra de quando eu tava aprendendo a cozinhar e deixei a pele em carne viva tentando refogar um estrogonofe. repara na saliência na cintura que surgiu depois que escolhi sair pra tomar uma cerveja ao invés de renovar a assinatura da academia.

repara sim na unha que não foi feita, porque a moça só tinha horário pras sete da manhã e uma horinha de sono faz muita falta. repara na garganta com voz estranha, porque escolhi gritar à plenos pulmões minha música preferida no show do teatro mágico de sábado passado. repara, por favor, repara no meu dente quebrado que aparece quando eu sorrio largo. ele veio de uma tentativa louca de chegar mais rápido na cozinha pra almoçar logo: mordi a escada num tropeço e esse aqui a dentista desistiu de tentar remendar. acho charmosinho, até. não é?

repara, repara, repara. quando alguém for te visitar, não hesite em dizer: essa aqui é minha casa. por favor, repara na bagunça. cê não tem ideia do tanto que eu vivi pra ter essa zona por aqui.

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