Chico Gomes, ferreiro habilidoso do distrito de Santa Teresa, em Tauá / Foto: Iana Soares © O POVO 2014

História marcada

Editorial
A imagem da capa deste especial é uma porta exposta no Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza. Pertenceu ao ferreiro José Pereira, artesão de marcas de ferrar gado no Cariri

Nos sem-fins dos sertões cearenses, onde o mundo é recriado em invenções e memórias, acontece de o homem ser dono de tudo: terra, bicho, fidelidade. E acontece assim: a ferro e fogo. Desde os mil setecentos e pouco, quando os navegantes portugueses desembarcaram aqui com “a ideia de propriedade, de domínio, de posse” — avista o pesquisador Gilmar de Carvalho, estudioso da cultura popular.

O Ceará foi colonizado aos poucos e ao contrário, do Interior para a Capital, à força e pela resistência. Era preciso se arranchar onde houvesse um fio d´água que desse de beber aos viventes. Dos rios, traçaram-se léguas e léguas de fazendas de criação de gado. Foi o primeiro desenho de civilização do Interior, desdobrando-se em vilas, distritos, cidades inteiras. E poder, registrado na carne da rês, para sempre.

A ribeira do Jaguaribe é considerada a porta de entrada de incontáveis rebanhos que adentravam o Estado no tempo das vacas gordas, como se diz. Neste caderno especial, seguimos por ela e por mais três mil quilômetros de rodovias e meio do mato. Viajamos por cinco regiões do Ceará – além do Jaguaribe, a Zona Norte, os Inhamuns, o Cariri e o Sertão Central – para reencontrar a origem nordestina em histórias marcadas no couro do boi.

As marcas de ferrar gado, como primeiro observou o escritor cearense Gustavo Barroso, no livro Terra do Sol (1912), assumem importância na vida dos sertões. As letras e os desenhos que simbolizam famílias tradicionais se constituem em uma herança de “nobrezas sertanejas”, dialoga o pesquisador Oswald Barroso. Perpetuam patrimônio e significam poderio.

Neste percurso pela heráldica sertaneja, a morte do escritor Ariano Suassuna, fundador do movimento Armorial, cruzou o caminho. Mas, naquela tarde em que o vaqueiro de dona Nira ferrava o novilho assustado, parecia que Ariano estava tanto no céu de Carnaubinha quanto na marca indelével do ferro em brasa.

O Ceará chegou a ter mais de 800 sesmarias, contam estudiosos da colonização. A partir delas, o boi nomeia propriedades e festas e tem valor de ouro e de afeto. Nossa viagem vai também por casas de vaqueiros e oficinas de ferreiros, antigos e novos. E segue adiante, até os atuais mercados de consumo, que atualizam sentido e significado das marcas de ferrar em logotipia tão valorosa quanto a memória que temos de nós mesmos.

Um longa e instigante viagem que você está convidado a acompanhar nestas páginas e ver muito mais no portal O POVO Online (http://especiais.opovo.com.br/sertaoaferroefogo).


Ferretes em bytes

Texto: Gil Dicelli / Editor-Executivo do Núcleo de Imagem

Não é de agora que os meus olhos deitaram sobre as marcas de ferrar gado. Encantei-me pela possibilidade de releitura do rude ferro em brasões ancestrais que contavam a história das famílias do sertão. Pelas mãos do jornalista e pesquisador Gilmar de Carvalho, que me revelou um universo de nuances.

O assunto silenciou em mim por mais de 10 anos. Eis que em 2013, voltou a me sussurrar possibilidades. De lá para cá, O POVO abraçou a ideia e ampliou imaginações. Ferros polifônicos, rastros de tradição, poder e territorialidade, traços dos nossos quintais que desconhecem fronteiras. O mundo é aqui. E o design um canal para traduzi-lo.

Desenhar esse conceito é navegar num universo concreto e, ao mesmo tempo, simbólico. O projeto gráfico rasga o conteúdo. Marca, tal qual estigmas, o couro, a foto. Aponta leituras. As colunas de texto são forjadas na bigorna. A tipografia, criada especialmente para este caderno e batizada de “Chico Type”, homenageia e reproduz a letra do ferreiro Chico Gomes, de Tauá. Redesenhada pelo nosso infografista Pedro Turano, ressoa moderna, digitalizada. Marcamos no computador com ferrete de bytes.

As manchas pretas são lembranças do ferro virgem, protegido por um óleo para não enferrujar. Uma promessa de permanência para as histórias que estão nas próximas páginas.

É fogo, é ferro, são vários caminhos. Um universo de possibilidades que se abrem. Os sentidos estão em chamas.


No couro, calor e fumaça trazidas pelo ferro incandescente desenham letras da família Cidrão, de Tauá. Na imagem menor, o fogo do maçarico esquenta o que vai marcar o rebanho. Foto Iana Soares © O POVO 2014

Curral de ferração

A carne queima, o bicho estrebucha. No ferro incandescente, a família se desenha no couro da rês e prossegue a marca da própria história

Ao lado, marca criada para o repórter Cláudio Ribeiro

Cláudio Ribeiro

Quando o ferro sai do fogo em brasa, empunhado pelo vaqueiro, o animal já está dominado. Vista arregalada, a íris querendo se desgarrar do branco do olho, as arrobas do corpo sem chances de reagir. O garrote foi deitado à força no areal do curral por três ou quatro peões. Por isso berra e bufa, esperneia. Vai estrebuchar mais quando a brasa lhe arder a carne.

As quatro patas precisam ser atadas, nó firme numa corda só. Um homem lhe dobra o pescoço, intencionalmente sem piedade. Outros dois contêm no animal o que ainda é derradeiro de resistência. É uma futura leiteira, raceada de vaca Gir com touro Holandês, de pouco mais de um ano de vida. Tamanho, força, mas completamente vencida. A marca incandescente é encostada de uma vez pelo vaqueiro. Não há vacilo na lida sertaneja.

O couro assa, sobe fumaça. A labareda até se molda direto na carne, vez em quando, no mesmo desenho de uma das letras da linhagem Castelo Cidrão. Sobe também o cheiro da pelagem queimada. O ferro com o símbolo do dono queima a pata traseira direita, o da freguesia religiosa marca a pata esquerda. Lugar certo, não desvaloriza o couro na venda. Dali, a família desenha-se para sempre no bicho.

A faca afiada complementa o serviço. Decepa-se a ponta de uma das orelhas, faz desenhos com vários nomes e significados. Sangra. (Em Dona Guidinha do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva, é “canzil, mossa redonda, buraco de bala, pé de viado, ponta de lança, ponta troncha, brinco, levada, barbil, forquilha, garfo, mossa quadrada, bico de candeeiro, rabo de piranha, dente, entralhada, e não sei que mais…”) Por ali, em Tauá, informa-se nisso a idade, se é novilho, garrote ou bezerro. A rês está marcada.

https://www.youtube.com/watch?v=8GPXu30KeeM

Seu Raimundo Castelo Cidrão, 88 anos, o dono da fazenda na vila de Marrecas, em Tauá, vê isso desde menino. Assistia ao avô, ajudou o pai, ensinou aos filhos… A ferra do gado é desde os tempos do rebanho que corria em pastos livres no Ceará. De quando o vaqueiro bravo trajava couro, selava cavalo, desviava de espinhos e galhos da caatinga dos Inhamuns até resgatar o boi barbatão — o que saltava do curral e fugia por dias. Ou tangia até a fazenda a criação, solta por meses na mata.

O fogo para a ferração agora sai de um maçarico, alimentado por botijão de gás. Em terra de tanta seca e cercas, o gado come mato pouco e ração de saca. Senão afina e morre. A água pra amenizar a sede é de poço ou resto de chuva que não virou inverno. Mas ainda é certo só ferrar uma vez por ano, depois que acabam as nuvens e quando some a mosca varejeira, perigo de doenças para o animal.

O heroísmo do vaqueiro também se confinou. Marcar a rês ainda é sabedoria, mas já não há festança no povoado. Usa-se brinco de plástico, tinta, chips. O boi de curral dá menos trabalho, há cada vez menos gado em anos seguidos de estio.

Ferrar o animal não deixa é o dono e essa gente se desgarrarem da própria história.


Donos de gado e gente

O fazendeiro, com sua marca de ferro e poder, também apadrinhava e protegia os seus. O vaqueiro lhe oferecia força e fidelidade

Cláudio Ribeiro

Noutros tempos cearenses, o ferro abrasador que carimbava o lombo do bicho marcava mais. Ia além de desenhos ou letras simbólicas da nobreza sertaneja. A tatuagem quente demarcava patrimônios, territórios, história, tradição e os muitos que estavam sob a influência do patrão do lugar. A ferra era a assinatura de um poder bem maior.

“O fazendeiro era dono de gado e gente. Ali ele marcava tudo, tudo era dele. Aqueles ao redor eram gente dele, a expressão da família clânica, patriarcal. Era gente para castigar e para defender, gente que ninguém toca. ‘Só eu’, ‘outro não pode’, dizia esse senhor”, ilustra Oswald Barroso, jornalista, dramaturgo e pesquisador da cultura popular.

A medida do poder, pelo chão, ia longe. Latifúndios ainda sem cercas, terras de léguas. As referências usadas eram marcos das regiões: de uma ribeira a uma pedra, de um pé de serra à morada vizinha, do que a vista alcançasse até onde o gado bebesse água. A fazenda adotava a cerca para definir suas plantações de subsistência. E os pequenos proprietários, bem mais modestos, se avizinhavam dos poderosos, trabalhavam para eles, viravam “gente” deles.

Na segunda década do século XVIII, com o aparecimento da cultura algodoeira — e depois da matança de índios na disputa por faixas de terra, ou incorporados como mão de obra, as propriedades ganharam delimitações mais visíveis. Mas os rebanhos ainda pastavam soltos, lembra o historiador Francisco Pinheiro, hoje parlamentar e também estudioso dos núcleos familiares precursores de poder no Estado. O Ceará, segundo ele, chegou a ter mais de 800 sesmeiros (titulares de terras distribuídas pela Coroa portuguesa).

As marcas espalhadas nos rebanhos andarilhos eram o emblema desse domínio. Nessa plebe rural, no entorno do senhorio, destacavam-se os vaqueiros. Eram o povo da confiança do patrão, o lugar-tenente do fazendeiro, o substituto na ausência do dono.

“O vaqueiro é um índio, nômade, caçador, que se aliou ao branco”, amplia Oswald Barroso. Quando obedientes, tocavam o dia a dia operacional da propriedade. Cuidavam do boi, faziam a ferra, recapturavam os fujões. Eram imprescindíveis, protagonistas de pouca posse naquele universo de três séculos atrás.

Conta-se a sina de um vaqueiro assim, quase nesse mesmo enredo-tempo-cenário, desde os primeiros clãs se sedimentando no Interior, no fim dos anos 1600, até os anos 1960, segundo Pinheiro. “Ainda alcancei essas grandes festas de ferra na fazenda do meu avô, em Jaguaribe, que ficava a 24 km da sede da cidade. A gente ia e no caminho não via nenhuma cerca. Na feira, reconhecíamos animais pela ferra do dono”, remonta à infância.

A maioria dos sem-sobrenome ou sem-letra-na-vaca preferia aceitar o compadrio destes senhores à rivalizá-los. Muito por falta de opção. Também havia fazendeiros generosos, amados de sua gente, e igualmente também surgiam vaqueiros insurretos, rebelados, que acreditavam em honra maior que obediência. “Pelo casamento (entre as famílias poderosas) ou pelo compadrio (afilhados menos abastados) dá para entender como se dava a estrutura e a articulação de poder nessa época”, resume Pinheiro.


As dores da alma

Oswald Barroso, dos seus escritos e leituras sobre o vaqueiro, dá a descrição de “um drama quase trágico”. O homem que no sertão reina (na mata) e obedece (na fazenda) é às vezes obrigado a se desfazer de sua cria, mas ele próprio matando-a. “Porque é ele que cuida do boi, dá nome ao novilhos, cria como a um filho. E depois é ele mesmo que tem que abatê-la, matá-la, pra tirar a carne e o couro. Isso é uma dor profunda que ele traz na alma como um estigma”. Aí nem citadas por ele as dores da ferra, sofridas pela rês.

As brincadeiras do boi, folclore muito presente no Interior, teriam nascido no Brasil dessa reverência e respeito ao animal. Como se amenizassem essas dores presentes e permanentes no ofício sertanejo. Na história do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, nas brenhas do Crato, seguidores do beato Zé Lourenço optaram por viver numa comunidade fraterna e à parte da sociedade cratense.

Lá, obedeciam ao líder e também cultuavam o Boi Mansinho, um touro reprodutor dado de presente pelo padre Cícero. Um dia, em 1937, já tratados como hereges pela Igreja, foram atacados a bombas pelo Exército, lançadas de aviões. Morreram mais de 400. Boi Mansinho sobrevive santificado pelo povo.


“Porque é ele (vaqueiro) que cuida do boi, dá nome ao novilhos, cria como a um filho. E depois é ele mesmo que tem que abatê-la, matá-la, pra tirar a carne e o couro. Isso é uma dor profunda que ele traz na alma como um estigma”.

Oswald Barroso — dramaturgo e pesquisador cultural

O Senhorio do rebanho

As fazendas de gado estabeleceram povoados, vilas, cidades nos sertões do Ceará. Um traçado antigo que vem encurtando com as secas do novo milênio

Ao lado, marca criada para a repórter Ana Mary C. Cavalcante

Ana Mary C. Cavalcante

Aos 88 anos “e quase oito meses”, o fazendeiro Raimundo Castelo Cidrão tem a vida que pediu desde menino: deitado em uma rede, no alpendre de casa, ele apenas espera a hora do almoço e dos remédios, o dia de fazer exames em Fortaleza, o anoitecer. O chocalho das vacas voltando do pasto, de muito longe, marca o tempo: já começou a tarde.

O canto do rebanho de 200 gados restantes é música para a memória do fazendeiro: faz Raimundo Cidrão lembrar o quanto é bom viver no quente e empoeirado distrito de Marrecas, a 22 km de Tauá (Sertão dos Inhamuns). Um povoado de 301 anos, comemorados em abril com a festa dos padroeiros Jesus, Maria e José – “a terceira maior do Estado”, engrandece seu Raimundo, a vila de 4.544 habitantes (Censo 2010/IBGE).

Da rede, com vista para o rebanho bebendo água na pequena lagoa em frente, ele restaura o começo daquele mundo. “Partia-se do zero: o rio Puiu” e contava-se légua e meia de frente e de fundo para se instalar uma fazenda. Marrecas cresceu na soma dos currais.


“Se a vaca não tiver marca, qualquer um pode ser dono”

Raimundo Castelo Cidrão

A Fazenda Monte Cristo, da família Cidrão, é das pioneiras. João Freire Cidrão, o patriarca paterno, ensinou a marcar boi e posses. “Se a vaca não tiver marca, qualquer um pode ser dono”, aprendeu seu Raimundo, que repassa a sabedoria ao filho mais novo, Bruno, 25. E se o couro do bicho é documento válido entre os da lida, o registro das marcas da família na Secretaria do Desenvolvimento Agrário é a garantia legal de propriedade.

Na fazenda, as histórias em torno do gado são contadas também pela árvore de pau-ferro, plantada há mais de cem anos e que alimentava as reses nas secas. As estiagens têm subtraído os rebanhos da região: seu Raimundo diz que, das 800 cabeças de gado que enchiam o curral, restam 600; 400 delas num arrendamento no Piauí. “Em 2010, a coisa arruinou aqui”.

A falta d´água sempre castigou os sertões e desafiou os viventes. Em Tauá, outro município do Estado que se fez mais por insistência da criação, o fazendeiro Honório Alves Feitosa e Castro, 80, “era um rico de terras secas”. Aos três anos de idade, ele herdou pra mais de sete mil hectares, espalhados em quatro fazendas que foram povoando a região de gente e de gado, bode, ovelha.

“Eu era muito ruim de enxada. Pra pegar gado, eu era bom. Com dez, 12 anos, já andava encourado… Minha vida foi no rio Jucá. Andei muito no campo, apanhei muita oiticica”, lembra-se, antes de correr o País trabalhando em uma multinacional estrangeira. De falar inglês e cantar tangos.

Hoje, depois de secas e da reforma agrária, as fazendas somam 4.200 hectares, do rio à serra do Coronzó; a criação tem cerca de 200 reses mais uns mil caprinos. E o que foi a vida é servido com cachaça branca, “vinho bom e simples, whisky bom e simples”, seu Honório oferece na conversa.

Uma mulher no comando

O escritor cearense Gustavo Barroso (1888- 1959) abriu olhares e percepções para as marcas de uma heráldica sertaneja na prática de ferrar o gado. A primeira obra dele, Terra do Sol (1912) contribuiu, inclusive, para que a “raiz subterrânea do sangue aflorasse à consciência” do armorial Ariano Suassuna (1927 — 2014), como mesmo reconheceu Ariano. Para Barroso, as marcas no gado são “o desenho mais original e mais digno de estudo; já pelas suas denominações interessantes, já pela importância que assume na vida dos sertões”.

“É a melhor forma de identificação. Quando sai uma rês, o povo diz logo: vamos olhar de quem é a ferra”, a fazendeira Maria Alzenira (dona Nira) Fernandes, 54, dialoga com o escritor. Uma de suas quatro fazendas, a Ipueiras, na paisagem de Carnaubinha, distante 17 quilômetros carroçais de Milhã, tem mais de 200 anos “e, desde sempre, foi assim, a ferração”.

A marca de ferrar que pertenceu ao pai, de 1922, ressurge em brasa para atestar a tradição. Outra assinatura em ferro é a do marido, Jorge Bezerra (JB), falecido em 2013. Naquela tarde quente da entrevista, dona Nira comandava nova rodada de ferração do rebanho. Ao lado do vaqueiro Bel (José Wagner da Silva), 43, deixava sua marca, para sempre, na história do lugar. (AM)

Foto Iana Soares © O POVO 2014

“Foici, Xibamca e letra”

O ofício de dar ao ferro letras e desenhos é ensinado desde o mil avô. Os ferreiros são parte importante da força que sustenta a tradição de marcar o gado

Ana Mary C. Cavalcante

Fotos Iana Soares © O POVO 2014

A sete léguas e meia de Tauá, no sertão dos Inhamuns, uma placa na BR-020, indicando o distrito de Santa Teresa, quase despercebidos (a placa e o lugarejo), faz o viajante voltar no tempo. O calçamento, a partir dali, vai bater à porta da oficina Orienti F.G.B, de tijolo e pó, de um senhor de mãos escurecidas, Francisco Gomes Bezerra, 72 anos – 60 dos quais, ferreiro.

Seu Chico Gomes foi alfabetizado, aos 12 anos, pela cartilha das marcas de ferrar gado. A educação para a vida, quem lhe ensinou foi o pai, João, do distrito de Santo Antônio (mais despercebido ainda), “o mestre dos mestres” – como ressoa na oficina dos Gomes há três gerações. João ensinou a Chico que ensinou a Iran, o filho, entre seis e mais 25 netos, que segue a tradição do avô.

“Foi a vida inteira fazendo isso”, pausa seu Chico. O martelo, o fogo e a paciência (a cada dia, mais do que a força) dobram o ferro bruto em “maxado, picareti, labamca, xibamca, foici, badal, xucai”. Ferramentas escritas na tabela de preços (de R$ 4 a R$ 60), afixada na parede, em letras que inspiram a tipografia usada neste caderno especial.

Além delas, o ferreiro se especializou nas curvas, extensões e soldas das marcas inventadas por fazendeiros e vaqueiros para assinalar o gado. Ele conta que manufatura uma centena de marcas de ferrar por ano, “até do Pará, vem gente encomendar”. A modernidade lhe apresentou o maçarico, e seu Chico demora, hoje, cerca de duas horas para fazer cada peça (negociada a R$ 70, em média).

Mas, “de primeiro”, ele emenda, usava o fole, “era o dia todim pra acender o fogo e esquentar o ferro… Criei meus filhos foi trabalhando nesse bicho!”. Nesta esquina da prosa, está Cecília Maria de Jesus, 71 — quase 60 dos quais, a outra metade de força e paciência de seu Chico. “Começamos a namorar com 12 pra 13 anos… Ela me ajudava muito, batia marreta (para moldar o ferro)”, os dois se dizem.

https://www.youtube.com/watch?v=YcWXMbjKKy8

A narrativa é sob a luz da tarde que entra pela única janela da oficina e parece desenhar um palco de onde seu Chico protagoniza outra arte: a de tocar rabeca. Então, as mãos escurecidas puxam um assento, afinam o instrumento semelhante a um violino e entoam a trilha sonora de uma vida vivida a ferro e fogo. Nuances entre lamento e beleza.“Vocês gostaram?”, seu Chico espera os aplausos da pequena plateia em redor. (Quem não espera, ao final?)

Despercebido naquele esquecimento do mundo, ele é dos últimos ferreiros que domina a artesania das peças de ferrar gado. “Só tem eu que faço”, afirma com simplicidade e a existência própria dos sertões. Nas histórias do Ceará, Chico-ferreiro, com suas mãos de rabeca, é um homem importante.

Foto Iana Soares © O POVO 2014

Aboios e feitiços

Pelo sertão, há os que dominam a rês num gesto ou preces silenciosas. Ou, como em feitiço ou fé, protegem roças de subsistência. Vaqueiros também cantam toadas para se proteger na caçada ao bicho desgarrado

Cláudio Ribeiro

Luiz Monteiro domina aboios e versos, aprendidos no tempo em que dominava bois barbatões. Hoje, gosta de contar seus feitos, com a memória precisa e certeira. Foto Iana Soares © O POVO 2014

Quem tivesse medo de boi brabo, ou não achasse jeito de voltá-lo para o curral do dono, que chamasse Raimundo Firmino. Em Quixeramobim, fala-se de uma fama dele como encantador de barbatão. De bastar bater o chicote umas vezes na perna, quando fosse encontrado na mata, junto com uma toada mansa e baixinha, que o indolente amansava e obedecia. Começavam o trabalho nas madrugadas.

Às vezes, o “feitiço” — talvez fosse — era tanto que nem precisava da máscara, botada cobrindo o rosto da rês fujona logo após a recaptura. Se já não fosse novilhote ferrado, esse ia receber a primeira marca quente no couro. Era um dom secreto, mas afamado, o de Raimundo Firmino. História das boas essa contada por seu Oziel Firmino, 80, lembrando dos feitos do irmão que já se foi. “Ele nunca me disse como fazia isso”.

Oziel (tinha sobrenome Avelino Monteiro, mas todos da família ganharam Firmino por causa do pai) não seguiu as manhas de tanger e acuar boiadas. Mas teve três de seis irmãos – Chico, Zé e Raimundo — nesse domínio. Ele conta que sua família também tinha seu avô, Zé Romão (José Domingos de Lemos), como sertanejo mandingueiro. No caso dele, orações para proteger roçados. “Ele sabia fazer reza pra derrubar lagarta das plantas. Protegia a roça das pragas. No dia seguinte da reza, a lagarta que tava sumia”. E disse que os roçados vizinhos que não tivessem essa proteção de prece continuavam sofrendo da larva.

O que é o aboio senão também um chamamento mágico? A toada de ajuntar rebanho sumido pelo sertão é da vida de Luiz Monteiro. Aos 86 anos, ele já não corre mais atrás de animal desgarrado, o que fez muito, mas é celebrado como um dos vaqueiros mais antigos de Quixeramobim. E ainda canta aboios, faz versos de improviso e exalta suas próprias histórias.

https://www.youtube.com/watch?v=bRhvUo8Jg90

Como narra do dia em que, ainda rapaz desconhecido, inexperiente, mas valente, ganhou a primeira reverência como vaqueiro de respeito. Por conseguir pegar um bezerro corredor no meio da mata num lance que impressionou outros vaqueiros tarimbados.

Luiz, nesse dito dia, havia saído pela mata formando dupla com Nonato Tinoco, “que era corredor afamado, fizeram até chateação nimim” — relembra. Achavam que fôra atrevido demais ao se oferecer como dupla para o vaqueiro conhecido.

Numa garrancheira de pau branco, o novilhote deu olé, tirou Nonato Tinoco do páreo e Luiz Monteiro seguiu. Corria muito. Outra dupla que tentava a mesma captura, na freada brusca da rês, acabou caindo, com montaria e tudo. “Mesmo na hora, pulei por cima dos quatro (os dois cavalos e os vaqueiros) e arrastei o novilho pelo rabo”. Os que presenciaram deram o testemunho aos demais da região. “Aí peguei a fama”, lembra. E, de gibão e chapéu de couro na sala de casa, cantarolou: “Êêêê, ôôôô, gaado mansooô…Ê, boooi”. É nos aboios e preces que todo vaqueiro se resguarda.

Expedito Seleiro. Foto Iana Soares © O POVO 2014

O domador de couro

Em Nova Olinda, no alto do Cariri, na mesa de sua oficina — que até chamam de ateliê -, Espedito Seleiro, 74 anos, é domador do couro. Ou um encantador da pele do boi. É dela que imagina, corta, cola, desenha, tinge, sofistica e também marca. Assina a ferro quente. E esse couro vira sandália, bolsa, bota, sela, gibão, chapéu…

Espedito Seleiro é feito poucos em seu ofício. Só que ele descobriu que suas criações de couro estavam sendo copiadas e vendidas como se dele fossem. Daí resgatou uma tradição dos vaqueiros-seleiros de sua família, o pai e o avô, de ferrar o gado e, há cerca de 10 anos, passou a carimbar a ferro as peças produzidas. A marca que usa está na foto acima.

No balcão onde trabalha, com caneta e papel na mão, foi à memória e trouxe o desenho do ferro que via seu pai usar no gado. Um R que emendava a ponta ao P e se juntava ao C. “Todos conheciam ele por Raimundo Seleiro,mas era Raimundo Pinto de Carvalho. Quando tacava no gado, ficava”. A dele próprio era E e S e C, de Espedito Seleiro de Carvalho. “Nunca gostei de ser vaqueiro. Caí de um cavalo quando tinha 16 anos”. Preferiu fazer outra arte. (CR)

Fotos Iana Soares © O POVO 2014
© O POVO 2014

Buquê de ferros

Os sangues foram se misturando. E por causa disso, as propriedades e os rebanhos ganhando marcas que fiam histórias

Ao lado, marca criada para o repórter Demitri Túlio

Demitri Túlio

O gado, as terras, os ferros de marcar e os afetos se juntaram quando dona Maria Nadir Rodrigues de Castro, 82, aceitou ser desposada, há 53 anos, por Pedro Paulo de Castro, 86.

Os Castro e os Rodrigues, das bandas da Vazante em Morada Nova, se perpetuam há gerações no que resta (e ainda é razoável) da herança de propriedades dos velhos Salustiano de Castro (pai de Pedro) e de Gregório Rodrigues (pai de Nadir).

Terra promissora no semiárido brasileiro. Tanto, que o Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs) pagou indenização para cavar um açude e o governo estadual fez passar, bem no meio da Fazenda Bento Pereira, a CE-265 ou avenida Presidente Geisel.

Foto Iana Saores © O POVO 2014

Um estirão de chão, parcela que coube a Maria Nadir. Também herdeira das insígnias de assinar com ferro quente o couro do gado. Marca que desenha em brasa as letras do nome do avô e que chegaram até ela pelas mãos do pai.

Para diferenciar das reses das irmãs, dona Nadir carimbou também os bezerros com o numeral 2, ferro complementar à marca da família. Indicativo que aquele animal é das posses da segunda filha nascida entre três.

De seu Pedro e dona Nadir para mais quatro filhos: Salustiano Neto, Francisco, Maria do Socorro e Gregório. Mas apenas um deles, Francisco de Assis Rodrigues de Castro, o Dide, se dedicou ao dia a dia na fazenda.

Dide, um rapaz maduro de 51 anos, pai de sete filhos em seis casamentos ou relacionamentos de “vaqueiro”. Ele prefere não explicar os destinos e onde as histórias se cruzam.

É dele a declaração mais amorosa ouvida na Fazenda Bento Pereira. Ao cavalo “Roxinho”, um mestiço de quarto de milha, todo o zelo.

Um cuidado de amigo, ainda mais agora na velhice do animal que tanto o serviu nas vaquejadas e na fazenda.

“Roxinho” quando potro era marrom. Hoje, aos 23 anos, foi tomado pelo branco. “Cavalo bom, rejeitei muito dinheiro quando estava no auge. Sozinho, ele tangia um desgarrado”, conta Dide e um álbum de fotografias da Sonora.

Não fosse a habilidade do cavalo, companheiro de mais de dez anos nas pistas de vaquejada, não teria ganhado moto, dinheiro, troféus e fama de ser homem de pagada.

Foto Iana Soares © O POVO 2014

Boi encantado

Duas estátuas grandes, pombas brancas do bico vermelho, avisam ao forasteiro que Morada Nova é devota do Divino Espírito Santo. O padroeiro do município, distante 155 km de Fortaleza. Mas a imagem escamotea um culto pagão que atravessa a história naquele pedaço da região do Jaguaribe.

Forte mesmo, ali, é a reverência que se faz ao vaqueiro e a saga histórica no povoamento do Ceará pelas ribeiras do rio Jaguaribe ou nas mangas do Banabuiú. Há também estátuas à vaqueirama, seu cavalo e o boi… Um Museu de referência, onde funcionou a Cadeia Pública, e um Largo do Vaqueiro em construção.

Mais que isso. Há 71 anos, persiste (perto do museu) a Associação dos Vaqueiros e Criadores de Morada Nova. Concebida, conta a gerente Ylzair Castro, 48, para preservar e difundir a memória desse personagem dos sertões. Por Morada Nova, ainda ativo, um dos primeiros fundadores: Clóvis Pereira Lima. Centenário na semana que passávamos por lá, mas em Fortaleza e o desencontro.

Em torno da Associação, mais de 500 sócios entre homens e mulheres. Desses, 380 que disputam a tradicional vaquejada de Morada Nova no segundo fim de semana de junho.

Vaquejada tradicional (da idade da Associação), mas polêmica por causa da “judiação” com o animal na pista. Para minimizar sofrimento dos bichos, “não é permitido mais afugentar nem açoitar o boi e o cavalo. Desclassifica o competidor”, ameniza Ylzair. A competição, diferente de outras pelo Brasil, não tem paga em dinheiro ou automóveis. “É cultural, só troféus e brindes”.

A vaquejada nada mais é do que a releitura das pegas do gado marruá na caatinga. Hoje um jogo para plateias. Quem conta assim é a professora Francisca Carneiro de Girão, uma da 25 madrinhas de vaqueiros da Associação. Mas nem por isso, tão fã da perseguição e derruba das reses na arena.

É dela a autoria do Hino do Vaqueiro e o cordel sobre a saga da “Pega do Boi Moleque”. Uma epopeia da caatinga que narra a audácia do vaqueiro Hermógenes Girão atrás de uma rês desgarrada, em 1894. Primeira notícia que se tem, ali, sobre uma peleja entre o homem e o gado barbatão. Quando Morada Nova era ainda do mapa de Quixadá. (DT)

Foto Iana Soares © O POVO 2014

Tino de rastrear

Vaqueiro de sangue. Alberto Moiar é herdeiro legítimo do ofício de vaqueirar. Uma casta de destemidos forjada na lida com o boi na caatinga

Vaqueiro jacu seu Alberto Araújo de Freitas não é. O dizer é dele num sotaque ligeiro, típico de quem nasceu, estudou pouco e se criou nas brenhas do Vale do Jaguaribe. A imagem do jacu, ave morosa da caatinga e de outras florestas, é usada para dizer dos que não trouxeram de nascença a virtuose para a lida nos sertões com gado barbatão, solto na “brabeza”.

Uma história é o vaqueiro das pegas heroicas nas capoeiras, quase um legionário sertanejo. E outra coisa é o vaqueiro de vaquejada, “um jacu”. Sem menosprezo, mas uma diferença que se conta em léguas.

O traço de jacu não cabe em Alberto. Ele é descendente da família “Moiar”. Linhagem rude de uma nobreza caatinga, homens que rebentaram talhados para “vaqueirar”. O avô Augustinho Moiar veio ao mundo assim, herdou do pai e passou para o filho Gustavo que ensinou ao sobrinho Alberto. Uma tradição de varões.

Tinham marca de ferrar gado e respeito, mesmo sendo vassalos da casa grande de cumeeiras sustentadas por troncos de carnaúba. Mais antigamente, tempo do avô Augustinho, quando não havia cerca e o gado dava cria solto no mato ou nas mangas do rio Jaguaribe, a paga era em bezerros nascidas. Numa proporção apalavrada com o patrão. De quatro reses nascidas pelas mãos do vaqueiro, uma era dele e podia marcar o ferro dos Moiar.

Soube dos predicados de seu Alberto por onde fomos passando e assuntando entre Morada Nova, Limoeiro do Norte e Jaguaretama, no Ceará. Estávamos em Limoeiro e a professora Francisca Girão, autora dos hinos de Morada Nova e do Vaqueiro, não poupou sinônimos para dizer dele. “Um vaqueiro completo”.

Desde os 12 anos e até hoje, aos 62, monta, ferra, aparta, laça, caça boi na mata, capa, mocha, lidera boiada, ajuda parir, vacina, cura bicheira e, principalmente, é um rastreador invejado.

Pelas pegadas, vai tateando a vaca ou o touro desgarrado. Pode estar a uma lonjura de quatro léguas. Sai feito cão farejador, a cavalo, descendo e subindo para apurar o rastro do vacum. Dependendo da fundura e do cheiro do rastro do bicho, sabe se está longe. Esquadrinha se cansado, se estropeado… “Já saí daqui (Morada Nova) e fui bater em Jaguaretama para arrastar uma rês”, conta sem se empabular.

Encourado pra essa vida de vaqueiro, como diz em ladainha, Alberto escapou da morte por vezes. Dificilmente caiu da montaria, mas aconteceu. Herdou um talho de oito pontos na cabeça, consequência de uma chibatada num galho durante uma carreira atrás de uma vaca. Um “ferro” no antebraço e a ausência de duas cabeças de dedos na mão direita. Um laço que lhe decepou o prumo. “Meu ramo foi esse, não quis aprender a ler. Gosto de ser vaqueiro”.

Vaqueirinho taludo

Dayron Ravel de Lima. Foto Iana Soares © OPOVO 2014

Sonho de menino é virar jogador de futebol famoso, certo? Não em Morada Nova. Lá os garotos fantasiam em ser o tal dos pegas de boi na pista de areia. É o que nos diz a história de Dayron Ravel de Lima. Não tão rara por aquelas bandas. Ele é de uma geração de meninos que “entaluda”, ainda na infância, para um dia ganhar fama de vaqueiro de vaquejada, mesmo com todos os riscos a que estão expostos.

Ravel que fez a mãe ir à Associação dos Vaqueiros e Criadores de Morada Nova (AVCMN) para autorizar sua inscrição como sócio da entidade. Aos 12 anos, franzino, derruba bezerros na festa anual do Vaqueiro e corre nos prados em fazendas do município cearense.

Na verdade, Dayron Ravel começou nas vaquejadas sendo “esteira”. Um espécie de escudeiro do vaqueiro competidor e que tem a função de passar o rabo do boi para a a derruba.
O problema, entre alguns existentes na mais tradicional e concorrida das festas da região Jaguaribana, é fazer meninos feito Ravel entenderem que eles também têm de ser bons na escola.

“Difícil”, diz Ylzair Castro que é gerente da AVCMN. Geralmente, “o bom vaqueiro não é um aluno exemplar”. Ravel é estudante da 4ª série do Centro Educacional José Epifânio das Chagas. (DT)

Freguesias do Ceará

Infográfico

© O POVO 2014

Como marcar o animal

© O POVO 2014

Bibliografia

Poder indelével

A escrita realizada a ferro e fogo marca o poder nos sertões do Ceará desde a época dos colonizadores portugueses. Acende o imaginário e cria um design popular

Ana Mary C. Cavalcante

A memória histórica mais remota sobre o início da tradição de assinalar o gado, nos sertões do Ceará, alcança as naus portuguesas do século XVIII. As letras e os desenhos que dobram o ferro são marcas de um poder que descende dos colonizadores lusitanos. “Nunca fomos o paraíso, mas as relações entre o homem e a natureza, antes da chegada dos portugueses, eram menos agônicas e mais amistosas. Os audazes navegantes desembarcaram aqui com a ideia de propriedade, de domínio, de posse”, anexa o escritor Gilmar de Carvalho, estudioso da cultura popular, em entrevista por email.

No processo de colonização, em que tudo passou a ter dono legitimado em cartório, o couro do boi se tornou documento. “Vaqueiro era livre. Gado era ferrado. Era a forma de trazer impresso no couro o sinete, a logomarca de seu dono”, ratifica Gilmar.

Esta “quase escrita à mão”, realizada com o fogo, revela significados na ocupação dos sertões cearenses. Além da ideia de propriedade, “o autoritarismo das elites se evidencia, desde sempre… A marca de ferrar consolida uma força icônica muito grande”, acrescenta o pesquisador.

A prática cria um sertão armorial. “O que mais me chama a atenção nas marcas de ferrar é o desenvolvimento de uma grafia peculiar, nascida do improviso dos ferreiros e dos fazendeiros, com os possíveis palpites dos vaqueiros. Grafia que incorpora influências, ao agrupar letras que se fundem, se enlaçam, se distanciam e se tencionam para significar mais.

Estas marcas de ferrar formam um repertório básico de um design popular, que se trama com o artesanato, no improviso, e dobra a dureza do metal”, une Gilmar de Carvalho. A cultura de ferrar o gado é ainda marcada por uma “violência inquestionável” contra o animal, ele atenta: “A marca de ferrar é irremovível. A queima é indelével”.

O poder que submete o gado a ferro e fogo também quis dominar gente. Correm pelos sertões do Nordeste, nos rastros dos escravocratas ou dos cangaceiros, notícias de pessoas marcadas como bois. Mas Gilmar de Carvalho pondera: os anúncios que comercializavam escravos, ainda que descrevessem cicatrizes e amputações, não registram torturas com marcas de ferrar.

E, mesmo bebendo em nascentes sertanejas, o escritor não acredita que os cabras de Lampião marcassem pessoas com ferro em brasa. “É bom desconfiar de boa parte das façanhas atribuídas aos cangaceiros. Existe muito achismo e poucas comprovações”, conclui o autor da peça-cordel Orixás do Ceará (1974) – na qual figura parte deste imaginário: entre as personagens, está a filha de um fazendeiro que lhe marcou o rosto porque ela engravidou de um cangaceiro.


Couro encantado

“Sorte”, explica Dolores Feitosa, 89, presidente da Fundação Bernardo de Castro Feitosa (Tauá) e ex- do Museu dos Inhamuns, era a forma de pagamento ao vaqueiro pela lida diuturna com as crias do patrão.

Em Sobral, lugar onde nasceu, era cinco-um. De cada cinco reses nascidas, o boiadeiro tinha direito a uma como paga. E fazia o que bem entendia com o bezerro.

Ou construía um pé de meia juntando umas cabeças de gado (sonhando ser, um dia, um criador) ou negociava o animal com o próprio fazendeiro.

Do queijo produzido na fazenda, recorda Dolores Feitosa, os encourados tinham direito à metade. Trabalho puxado.

Rotina de vaqueiro, canta o repente de Severino Pinto, “… era para pegar touro. Amansar bezerro e vaca. Cortar pau, fazer estaca e consertar bebedouro. Fazer queijo, beber soro. Curtir couro, raspar sola. Fazer freio e rabichola. Tanger cabra e capar bode. Quem é vaqueiro não pode ser cantor de viola”.


Há de resistir

A seca prolongada deixa suas marcas no gado cearense. De um lado, números que minguam; de outro, a reinvenção de possibilidades para driblá-la

Émerson Maranhão

Ao lado, a marca criada para o repórter Émerson Maranhão

Não é apenas o calor do ferro em brasa que tem marcado o rebanho bovino no Ceará. A rigorosa seca que se abate sobre o estado nos últimos anos também tem deixado suas marcas. Uma das mais visíveis, e impactantes, é a redução do número de cabeças de gado.

De acordo com a Pesquisa Pecuária Municipal, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2009 e 2012, o rebanho bovino no Ceará passou de 2.494.482 cabeças de gado para 2.714.713, apresentando uma média de crescimento anual constante de pouco mais de 55 mil reses.

Em 2013, ano em que os rigores da seca se fizeram sentir mais severamente, esta trajetória foi interrompida. Num intervalo de 12 meses, o número caiu para 2.580.233 animais, uma redução de cerca de 5% no rebanho, segundo levantamento da Agência de Defesa Agropecuária do Estado do Ceará (Adagri).

“É preciso entender que esta redução não significa necessariamente morte de gado por causa da seca”, pontua o secretário do Desenvolvimento Agrário do Ceará, Nelson Martins. “Ela acontece por vários fatores. Um deles é a migração para outros estados, onde os grandes criadores têm reservas de pastos. Quando o inverno retorna, esses animais voltam. Outro fator é o abate para consumo. E há também, claro, o gado que morreu por conta da estiagem. Mas a redução que houve no período mais drástico, entre 2012 e 2013, foi de 5%, o que é considerado normal. Além disso, é muito menor que a perda de rebanhos em outros estados nordestinos”, garante o secretário.

Números são exatos, mas suas leituras podem ser relativas. O impacto da seca no rebanho bovino cearense é visto através de outro ângulo pelo presidente da Federação da Agricultura do Estado do Ceará (Faec), Flávio Saboya. Apesar de não questionar os percentuais apresentados pela Adagri, ele aponta efeitos práticos desta redução na economia do setor.

“A seca nos tem impactado significativamente. A atividade leiteira, que é uma das principais no semiárido nordestino, sofreu uma redução em torno de 30% nos últimos três anos de estiagem”, afirma Saboya. “Esta situação levou as empresas industriais do leite a ter que importar produtos para atender às suas necessidades. E, veja bem, só a atividade leiteira corresponde a mais de 40% do setor agropecuário do estado”.

Mesmo tendo compreensões distintas a respeito das implicações da seca na atividade pecuária do Ceará, as visões de Martins e Saboya apresentam um ponto de interseção. Ambos indicam uma mudança comportamental e de mercado como a outra grande marca que o período prolongado de estiagem tem deixado de legado.

“A grande lição desses anos de seca foi a criação de um mercado especializado na produção de forragens. Hoje, existem agricultores que produzem forragens para vender para aqueles que não têm”, explica Saboya. “Estamos nos aproximando do modelo do Oriente Médio, de Israel, que é produzir alimento para o rebanho no litoral e levar esse alimente para o deserto onde o rebanho está, no nosso caso, para o semiárido”, completa.

“Nosso criador já está acostumado a conviver com o semiárido, faz reserva estratégica de alimento”, reforça o secretário. “Hoje, suplementamos o alimento do gado com feno e cilo, forragem, sal proteinado. E assim (o rebanho) vai sobrevivendo, não estamos refém do pasto seco”.


30%
FOI O PERCENTUAL DE REDUÇÃO NA PRODUÇÃO DA ATIVIDADE LEITEIRA NO ESTADO NOS ÚLTIMOS TRÊS ANOS DE SECA, DE ACORDO COM A FEDERAÇÃO DA AGRICULTURA E PECUÁRIA DO CEARÁ (FAEC)


2.611.317

CABEÇAS DE GADO. ESTE É O REBANHO BOVINO DO CEARÁ EM 2014, SEGUNDO LEVANTAMENTO DA AGÊNCIA DE DEFESA AGROPECUÁRIA DO ESTADO DO CEARÁ (ADAGRI). ESTE NÚMERO, QUE É PARCIAL, JÁ REPRESENTA UM CRESCIMENTO DE 1,20% EM RELAÇÃO AO ANO ANTERIOR.

Foto Iana Soares © O POVO 2014

Sinais de um clã

Dos papéis da família de dona Chichica, achados em gavetas de casa, a história inicial dos Gonçalves nos Inhamuns se reabre. Tempos dos primeiros bois carimbados pelo avô, pelo pai…

Cláudio Ribeiro

No dia 16 de junho de 1956, num bilhete em folha de caderno, dona Maria de Deus Alves Feitosa, conhecida em Tauá como Dondon Feitosa, confirmou a negociação: “Declaro que na presente data vendi ao sr. Pedro Gonçalves de Almeida os lugares Mato-Grosso e Trapiá por 60 gado macho na idade de novilhote a mais de ano”.

“O gado tinha valor naquele tempo. Era uma moeda valiosa”, exalta Francisca Gonçalves, 71 anos, a professora Chichica, garimpando de seu baú de memórias particulares e documentos familiares o dito bilhete que garante a aquisição feita pelo Major Gonçalves, seu pai. Ele é o comprador citado. A Mato Grosso, segundo ela, tinha para mais de 2 mil hectares. E esse nem é um tempo tão distante.

Dona Chichica junta, há alguns anos, este e outros papéis para o projeto de um memorial da família Gonçalves. Ainda sem data. Tem resgatado também fotos, escrituras, livros, peças das casas e fazendas que pertenceram à rotina do clã. O que mais achar vai caber.

“Os Gonçalves vieram de Pernambuco, seguindo o curso do rio. Chegaram no Ceará no século XIX, depois das sesmarias. Nem eram grandes pecuaristas. As famílias principais daqui eram os Feitosas, os Montes, os Araújos…”, e Chichica vai fiando o começo de sua linhagem. Tauá ainda era chamada de São João de Príncipe e a ribeira do Jaguaribe, que nasce ali, servia de referência para os viajantes.

Muitos dessa parentada ficaram pelo caminho das primeiras viagens e se espalharam também por Arneiroz, Quiterianópolis, Assaré… “Num dia, conversando com o Patativa do Assaré, descobrimos que somos dos mesmos Gonçalves. Ele era Antônio Gonçalves da Silva, da mesma raiz”, diz, do encontro com o poeta.

Numa outra pasta, de muitas espalhadas sobre a mesa, outro documento valioso. Amarelado de história e tempo, com letras de bico de pena, dona Chichica tem um registro das marcas de ferrar gado de seu avô, João Gonçalves de Sousa, feito em cartório. É datado de 4 de setembro de 1886. Nos escritos aparecem dois desenhos reproduzindo os ferros que carimbavam a boiada. A freguesia religiosa era marcada pelo R (impresso deitado), referente à padroeira Nossa Senhora do Rosário.

Os vaqueiros e senhores da fazenda tinham a generosa tradição de cativar suas reses dando nomes e apelidos a cada bicho do rebanho. Dona Chichica também recuperou vários cadernos listando vacas, bois, novilhos e garrotes que viveram nos currais de seu pai.

“Maravilha, Nevoeiro, Jandaia, Grandeza, Simpatia, Palmeira, Alvorada, Chumbada, Sabonete, Amazona, Calunga, Imperoza, Novidade, Mangaba, Avoante, Soberana, Pontiada, Ouro Branco…” Todas marcadas pelo sobrenome Gonçalves.

Foto Iana Soares © O POVO 2014

34.696 marcas

Foto Cláudio Ribeiro

O Ceará, há 75 anos, tem o decreto nº 523, de 29 de março de 1939, que regula o registro de marcas de gado no Estado. O então interventor federal, Francisco de Menezes Pimentel, ordenou, no artigo 1º: “A propriedade sobre o gado bovino, equino, asinino e muar é comprovada, no território do Estado do Ceará, por meio de marca a fogo”.

Os tempos são outros. Já se faz marca também por tatuagem sem ferra quente, chips, brincos. Mas todas precisam ser oficialmente registradas. Segundo Geraldinha Barroso dos Santos, do Setor de Registro de Marcas de Ferrar Gado, da Secretaria do Desenvolvimento Agrário (SDA), desde o início da legislação foram criadas 34.696 marcas.

“Antes da lei, registrava-se marcas em cartório. Hoje muitos ainda fazem isso, mas por desinformação. Não tem validade nenhuma. Vale a oficial”, diz Geraldinha, servidora no setor há 48 anos. Por mês, chegam a apresentar de 30 a 40 novas marcas.

A primeira marca no Ceará, guardada no fichário do setor, pertenceu a João Batista Cunha, morador do sítio Cacimba do Cunha, na Vila Alto Santo, em Limoeiro do Norte. O desenho é o de uma forquilha com o vértice para baixo. Eram comuns, à época, marcas traçadas mais por linhas retas.

Geraldinha esclarece que toda marca, antes de registrada, passa por análise comparativa para evitar repetições. Paga-se taxas — a mais cara é 10% do salário mínimo. O setor na SDA atende pelo número 3219 6396.

Foto Iana Soares © O POVO 2014

O jogo da pega de boi

Tal qual noutros tempos, as pegas apresentam à aldeia quem tem na família a melhor cepa de descendente

Demitri Túlio

Foto Iana Soares © O POVO 2014

Quando é tempo de vaquejada em Morada Nova, no mês de junho, a família de seu Raimundo do Mundico, 56, se muda de tralhas e cavalos para as biqueiras do Parque João de Deus Girão Filho. Da Fazenda Boiada à arena dos jogos das pegas de boi, na sede do município cearense, são pelo menos 15 quilômetros.

Durante três dias, a rotina na fazenda se amiúda e o mundo dos Rodrigues Bezerra passa a girar diferente em torno das patas dos bois. Agora, não para a lida da ordenha, do campeio, do confinamento em currais de gado e comércio.

Semelhante a tempos bem longe, os aldeões se reúnem num canto para assistir aos clãs mais abastados, ostentantes de cavalos potentes e marcas de ferrar como assinatura, disputarem qual família tem a melhor cepa de vaqueiros contemporâneos. Filhos ou empregados da fazenda. Os Girão, os Cunha, os Castro, os Rodrigues…

No casarão de calçada e pé direito altos, pintado de um branco caduco, reboco carcomido, janelas medonhas e muita mosca por causa do leite abundante no curral quase na cozinha, o Divino Espírito Santo (padroeiro de Morada Nova) não é atração da parede da sala de receber. Nem o televisor nem o micro. Mais de uma centena de troféus de vaquejadas, disputadas entre o Ceará e Rio Grande do Norte, deram ao cômodo outro sentido de ser.

Raimundo do Mundico, que de batismo católico é Raimundo Edson Rodrigues Bezerra, herdou do avô (João Bezerra) a marca avoenga e o gosto pelo gado. Não vingou vaqueiro como Chico Caboclo (já finado). Um boiadeiro rei, serviçal do laço firme, lenda das memórias.

Mas viu no jogo das pegas de reses um prazer que não sabe dizer. Desde os 13 anos de menino não perde uma peleja nos campos de treino da fazenda ou no circuito da festa do Vaqueiro. Dia esperado, mais que Copa do Mundo.

Foi por isso que, à exceção da esposa Maria José Silva, enveredou também os filhos e netos que vão rebentando. Em casa, contando com ele, são oito nas disputas ou sendo encaminhados. Mauro Sérgio, 35, Márcia Sheila, 32, Júnior Bezerra, 28 e Evilânio Bezerra, 32 (genro)… E os miúdos Luis Gustavo, 5, Edson Orlando, 8, e João Emanuel, 6.

Márcia Sheila, esposa de Evilânio Bezerra, casou-se depois de um encontro em uma vaquejada dessas. Tiveram Edson Orlando e João Emanuel. A moça bonita, e de aperto de mão seguro, é hábil na montaria de perseguição de rês, também professora de biologia e acadêmica de pedagogia no Vale do Jaguaribe.

INICIAÇÃO

Luis Gustavo, 5, é cria de Mauro Sérgio. Edson Orlando, 8, e João Emanuel, 6, nasceram de Márcia e Evilânio em meio ao imaginário das vaquejadas. Universo lúdico e rude para meninos, homens, moças e bois. Vestem-se, em dias de festa do vaqueiro e para eternizar uma fotografia, de “boiadeiro moderno”. Nada de encourar.

Foto Iana Soares © Jornal O POVO 2014

O relicário Maia

Pelas marcas de ferrar dos Maia, descendentes do sesmeiro Luciano Cardoso de Vargas (o Abrãao do Jaguaribe), narra-se parte da saga do povoamento daquela ribeira

Demitri Túlio

“Sesmeiro fui
Das longas
Largas léguas
Medidas
Pelos passos
Dos meus bois”

(Decassilábico de Virgílio Maia)

A fidelidade às marcas de família e à heráldica sertaneja está no rastro da vida de Virgílio Maia. Um pesquisador vertical de parte do que forja a história do sertão e o modo como foi se fundando o homem de lá e daqui. Chocalhos, esporas, insígnias, brasões, couro de proteger o vaqueiro e o cavalo, mascaras (sem acento mesmo), discursos poéticos, aboios, ferros de boi…

Por esse último, a escrita referência de Rudes Brasões — Ferro e Fogo das Marcas Avoengas. Uma “bíblia” encarnada (em brasa) sobre a tradição ibérica-moura-cabocla de assinar a posse e a propriedade de uma rês. Antigamente criada nas terras que não tinham cercas e o mandatário do colonizador foi acuando e dando nome aos bois nascidos na floresta fechada da caatinga (agora de donos).

Nominação chiada no couro vivo do barbatão, quando era tempo da “apartação” e o fogo imprimia para além de uma posse de reses marruás. Era também o “selo” de domínio do território antes habitado por índios do semiárido. Eram as famílias do “mar além” se estabelecendo na terra rude.

Foi, foi, geração após geração, e veio até que chegou… No Limoeiro do Norte, terra onde rebentou Virgílio Maia. E antes de arribar, aos 13, para se letrar e virar advogado em Fortaleza, deu tempo marcar na memória “o gesto de ferrar um boi, aquele movimento todo, o corre-corre, os desenhos das marcas, o cheiro de pelo, de couro e de carne queimados”. Lembranças indeléveis.

A história da ferra a fogo, narra, passa de pai para filhos e netos. Sua investigação afetiva e etnográfica puxa a raiz “Fidélis” que deu origem aos Maia de Limoeiro. Um estudo particular que vai contar muito sobre os caminhos do gado no Ceará.

O português Manuel Fidélis da Costa, trisavô de Virgílio Maia, era vaqueiro de um fazendeiro que possuía terras em Aracati e aceitou a sugestão do patrão em usar a letra “S” como base da assinatura do gado que fosse futurando com a lida.

Em 1848, Manuel Fidélis se casou com uma Maia (Francisca Thereza da Natividade). Filha do sesmeiro Luciano Cardoso de Vargas. Conhecido, conta Virgílio, por Abraão do Jaguaribe, tamanha sua rama naquela ribeira.

Fidélis e Natividade espalharam filhos, gado e, nas reses, a marca puxada pelo “S”. Avoenga que dela descende mais de 100 assinaturas na pele em brasa.

HERÁLDICA

O “S”, com uma “flor” e uma haste vertical, foi a marca usada por tempos quando Virgílio Maia criou gado em Limoeiro do Norte. Ferro herdado do trisavô Manuel Fidélis Costa. Um vaqueiro que viveu pelas bandas de São Bernardo, hoje Russas, que abarcava o território de onde se esquadrinha Limoeiro.

Arte de Carlus Campos sobre iluminogravura de Ariano Suassuna

SUASSUNA

A pesquisa para Rudes Brasões — Ferro e Fogo das Marcas Avoengas tem parte com Ariano Suassuna (Ferros do Cariri: uma heráldica Sertaneja) e com livros de Oswaldo Lamartine de Faria (Ferro e Ribeiras do Rio Grande do Norte).

Foto Iana Soares © O POVO 2014

Artigo

Fogueiras acesas

Danilo Patrício*

“No sertão os homens ou são irmãos ou inimigos.
E quantas vezes não tirei eu das garras
da onça uma rês sem dono?”
Vaqueiro Arnaldo, em O Sertanejo (1875), de José de Alencar

Preso no breque, encurralado entre a madeira e os outros bois, o bicho se batia esticando o pescoço, quando o estrebuchar já havia sido inútil ante o ferro quente letrado na pele. Era a marca do homem chegando, provocando um som de dor e de raiva no gado marcado. Berro seco. São as imagens e sons que carrego, que me marcaram na infância: Timbaúbas, Filipinas. No cedo da manhã ou no fim da tarde, o chiado do ferro no couro do boi, como me lembra compadre Artur: o berro com a língua pra fora e as pernas esmorecidas. Muxurés e Ibiapabas dele, entre os curiosos que se misturavam aos ferreiros, na ‘catinga de queimado’. Sai de cima menino, se não tu leva um coice!

As flepas de madeira armavam uma fogueirinha baixa, por onde girava a marca de ferro, na ponta de um cabo de madeira, manuseada pelo ferreiro, que se abaixava ou se acocorava no terreiro ao lado do curral. O ferro levava a escrita-posse do dono, fascinante e cruel. Marca da posse e ao mesmo tempo signo de identificação dos bichos nos muitos sertões. Para não esticar o sofrimento tido como inevitável, tangiam todos de uma vez só para receber a marca. Para dentro do breque em fila, no espaço estreito, espremidos ao modo cabeça-garupa. Assim eram dispostos para evitar os rebuliços quando cravado o ferro nas ancas. Ferrado o gado.

Meu avô paterno foi por muitos anos vaqueiro dos Lessa, no Pirabibu. Tempos de quartiação, pagamento ao vaqueiro com a quarta parte do rebanho nascido. Mas nesse pouco pro vaqueiro, não dava muito pra pensar em ferra própria com a descendência dos 14 filhos de José Patrício e Elisa Rodrigues.

O vaqueiro magro, também pescador, madrugava aos sábados e seguia de carroça para negociar na feira da cidade. E com que ele ia o filho Osmar, meu pai, que a partir de um bar no mercado público fazia andar a vida com a compra e venda de gado, a pastorear os rumos da família que formaria.

Foi quem me narrou um dia sobre as curiosidades da composição das ferras, que combinavam letras com números, conforme ordem de nascimento dos filhos. Eu não criei gado, mas nem por isso ele deixou de escrever em mim. Assim quando pai acordava para o matadouro, para o mercado, o curral. Nas viagens em busca de pasto, em tempos de seca, em outras para o Frifort, em madrugadas que tive de caminhão. Leite, queijo, paneladas. E até o berro, entre os amigos vaqueiros, como Zé Ribeiro, e outros tantos que marcam o boi com alegria e festa, astúcias, como nos versos do reisado. “Do meu boi o sebo, é pirão dos bebo”.

É do afetivo chão Pirabibu que brota a autoria de Alencar, valendo-se da poesia sem dono — escritas de vida — para propor a língua nacional, como nos versos da rapsódia Rabicho da Geralda, nas matrizes do cordel: “minha fama era tão grande/que enchia todo o sertão”. A fama do boi ecoa no tempo em que se formam as fazendas nas sesmarias, fundando-se a Propriedade nas terras dos índios Ibus. Por isso o boi falou? Era morrer ou se vaqueirizar!

N’O Sertanejo de Alencar, é “nas faldas da Serra de Santa Maria, no sertão de Quixeramobim” que se faz a Fazenda Oiticica, na mata-virgem. Vestido a caráter, o capitão-mór lá apreciava vaquejadas e o trabalho dos seus. Nesse Pirabibu serrano, o vaqueiro Zé Patrício subia com os filhos para plantar em tempos de seca. E de há muito vamos fazendo nossa autoria, pelas marcas do gado, com quem caminhamos aboiando sertões e cidades. Ao tempo em que recebem marcas de gente, são os bois que permanecem no redemunho dos homens que vão passando.

  • Danilo Patrício é jornalista e pesquisador. Mestre em História pela UFC. Doutorando em História pela UFMG. Autor de Festeiros do Tempo (Ed. Banco do Nordeste, 2014).

DESIGN

O designer de joias Claudio Quinderé recriou, com exclusividade para este caderno especial, o tradicional ferro de marcar gado. O resultado é esta delicada peça composta por um pingente de prata, com base em turquesa, e seis centímetros de comprimento, e um torçal de couro grego preto.


Marcas de identidade

A marca de ferro ancestral antecipa os logotipos que pautam o consumo contemporâneo e redefine rebanhos. Outrora gado, hoje compradores

Émerson Maranhão

A ferração de gado diz mais do consumo urbano contemporâneo do que é possível imaginar. É nos primórdios da prática de marcar no couro do animal um símbolo para atestar sua procedência que está a gênese da logotipia – o conjunto de ícones gráficos tão usuais para identificar marcas e empresas, conferir-lhes valor de mercado e, assim, apontar-lhes diferencial em relação a concorrentes.

Sem risco do exagero, a maçã mordida que eleva smartphones de última geração a sonho de consumo de tantos nada mais é que uma atualização das tatuagens abrasadoras que há séculos sinalizam rebanhos.

“Num momento inicial, no Egito, milênios antes de Cristo, estas marcas a ferro e fogo tinham a função de apenas identificar os animais. E por mais que a moeda da época fosse o escambo, não existem indícios de que aquele símbolo, aquela marcação ligada a determinada pessoa ou família conferisse um valor diferenciado ao rebanho”, explica o designer, escritor e professor da Universidade Federal do Maranhão, Delano Rodrigues.

“O segundo momento se dá nos Estados Unidos, lá pelos séculos XVIII, XIX, com a criação dos Livros de Marcas de Ferro, com interesses claramente comerciais. É aí que estes ícones passam a conferir valor aos animais, a indicar particularidades, a testemunhar que aquele determinado dono do rebanho tem certos tipos de cuidado com o animal ou com o pasto que outros não têm, por exemplo. Isso acontece num momento histórico em que o rebanho já passa a ter valor de troca”, acrescenta Delano, que é consultor de Branding, área do design responsável pelo processo de construção e gestão de marcas.

Atividade profissional que chegou ao Brasil em meados da década de 1990, e que tem obtido grande visibilidade nos últimos anos, curiosamente o próprio Branding também está relacionado com a marcação de gado. Uma das explicações para a origem do termo remete ao verbo to brand, marcar, em língua inglesa, e que é usado para nominar a ferração de rebanhos. “O termo ‘branding’ possivelmente vem de ‘branding iron’, que é como são chamados os ferros de marcar gado nos Estados Unidos”, afirma o professor.

Historicidades à parte, o fato é que nada é mais atual que as referências icônicas que emprestam credibilidade e concedem atestado de qualidade para as mercadorias que disputam a atenção do consumidor hoje, exatamente como as marcas de ferro o faziam quando surgiram e ainda o fazem. Ao identificar um puma em pleno salto, um crocodilo abrindo a boca, ou duas letras sobrepostas numa bolsa de couro ou numa peça de underwear, este consumidor recebe as informações de procedência e sinalizações de qualidade que precisa para se decidir em uma compra.

A marcação continua, só que se dá em outro nível. Ou melhor, em outros níveis. “A marcação hoje é simbólica e transcende o produto. Ela chega até você, você também está marcado. Você quer comunicar algo ao ostentar determinadas marcas. Por mais que uma pessoa não carregue uma tatuagem no corpo, ela está sinalizando fazer parte de um grupo, ou querer fazer. De uma forma mais aprofundada, a gente não deixa de ser rebanho”, provoca Delano.

Artigo

O SERTÃO

EM TODA PARTE

(A PARTE QUE ME TOCA)

Eleuda de Carvalho — profa. adjunta do curso de Letras, UFT-Araguaína

O umbigo da criança, seguindo o costume, foi enterrado no mourão do curral, espaço masculino por excelência onde reinava o tio Zé de Elias, vaqueiro de outra era trajado com sua véstia majestosa curtida de garrancho e poeira. O quarto dos arreios, das espingardas e dos ferros de marcar anexo à sala grande da casa, lá dentro o cheiro dos couros, cotidiano e trabalho, suores animais ao sol de 365 dias por ano. Sóis. A casa do avô está de pé, larga e chã, com seu piso de tijolos, o fogão a lenha, a velha cumeeira de aroeira que viu tantas gerações. Mas o entorno mudou. Não há cataventos na paisagem vestida de ouro gasto, verde algum. Parabólicas apontam o violento céu azul.

Sumiu a lagoa aonde, em antigo inverno, reinavam paturis com seu colar negro no longo pescoço e outras aves, marrecos, pernaltas, tanta pena multicor. E a mata, enfezada, firme e densa, espinhosos cardeiros, o alto pé de sabonete, árvores rijas, um caminho vegetal e mais seria o tabuleiro da Serra Dantas que se vê no horizonte, o território do clã de vaqueiros e plantadores de algodão, de onde vieram os meus antepassados, o bisavô Nenel e sua mulher, magra e alta, Rufina. Gente de muita fé, de palavra, de hábitos austeros e bigodes. Os mais velhos gostavam de propor adivinhas, charadas, testando as inteligenciazinhas afiadas na escola da capital. O avô ouvia cantoria pelo rádio, um aparelho estilo capelinha sintonizado na estação de Limoeiro do Norte e pegava bem até a emissora de Mossoró, a famosa cidade do lado de lá da serra, para a qual demandava a estrada do fio, com os postes desativados do telégrafo, e que passava ali adiante. Pela estrada afora rodavam raros automóveis, naquele tempo.

Dizia o povo do lugar, além do rio que rodeia Jaguaruana, que por aquele caminho andou Lampião em demanda de Mossoró, na divisa com o Rio Grande do Norte (na beira da praia havia um marco de pedra com o timbre português, do século XVII). Francisco Manuel do Carmo, o Titico, conta com minúcias o pavor que Rufina sua mãe teve de que os cangaceiros o raptassem e de que modo as sertanejas previdentes esconderam seus meninos sonhadores na capoeira e nos pastos, e foi assim que Titico, 102 anos, nunca viu o capitão Virgulino, cuja história acompanhou pelos folhetos de cordel. No entrevero, era junho de 1927, perdeu a vida o cangaceiro Jararaca, o túmulo mais florido no cemitério de Mossoró, arranjos renovados por quem acredita que o bandido, redimido pela paixão de sua morte, faz milagre acontecer. O que lembra outro sertão bem mais ao norte, em Sinaloa, no México, onde se dá a reverência mística popular ao santo criminoso Jesús Malverde.

Do sertão de carne e osso ao sertão encarnado nos livros, romances, relatos, narrativas, o mundo estranho e líquido de Guimarães Rosa, a convulsão de Canudos nas malacachetas afiadas da escritura de Euclides da Cunha, o sertão nordestino marcado pela seca dos romancistas da geração de 1930 (editorialmente, surgida em 1928, com A bagaceira, de José Américo de Almeida, mesmo ano do Macunaíma, do mestre Mário de Andrade, que sabia andar pelo mato e tinha o ouvido atento e teve o corpo fechado num catimbó da periferia de Natal, levado por ninguém menos que outro mestre entendidíssimo de sertão, Câmara Cascudo). No manifesto de José de Alencar, “Como e por que sou romancista”, ele recorda o menino que foi – chamado pelos seus de Cazuza – e na viagem de mudança para o Rio de Janeiro, aos noves de idade, quando seu pai foi eleito senador. De carro de boi, com toda a família, agregados e costumes até o porto da Bahia de São Salvador, de onde pegariam um navio para a corte. O cenário do romance O sertanejo cruza este chão áspero no estio, recoberto de mata em flor, se choveu, também paisagem de outra novela, baseada em fatos reais: Quixeramobim, a terra natal de Antônio Conselheiro, afilhado de dona Marica Lessa, a senhora que mandou o amante matar o marido e inspirou a Dona Guidinha do Poço, de Oliveira Paiva.

Emblemático, o livro de Rachel de Queiroz, este sim, publicado em 1930, a estreia da escritora que fixou a literatura cearense na inclemência da seca de 1915. E se outras sucessivas secas ainda mais dramáticas tem havido nestes sertões, nenhuma ficou assim marcada feito ferro quente em couro manso de boi. Será por causa do livro de Rachel? A menina magra que eu era, me chamavam Seca do 15, ou simplesmente Do Quinze, pelas meninas malvadas, pernas finas de sibite baleado. Infâncias velhas ficam para trás.

1997. O ano do centenário da destruição de Canudos. Para entender o que foi Canudos, é preciso sentir Juazeiro. Por trás das janelas fechadas, os Aves de Jesus entoam a ladainha das seis horas da tarde, quando a irmandade se tranca em casa, pois o diabo se solta no mundo, mal escurece o dia. Em Barbalha, ouvi o cantochão dos penitentes que um dia tiveram por mestre o santeiro Joaquim Mulato. O Cariri sagrado se revela em plenitude, a natureza vigorosa da Chapada do Araripe, as águas do Caldas, o frescor de Jardim, o casario do Crato, os engenhos de rapadura, as igrejas de Juazeiro, a Casa dos Milagres de Juazeiro, o Centro de Cultura Mestre Noza de Juazeiro, a ladeira do Horto, a casa de madrinha Dodô, o casarão do Padrinho, a figura santa de Monsenhor Murilo, a paz da irmã Anette, que escolheu seu caminho de ação, os brincantes, os festeiros, os romeiros, os artistas, os doidos: um sertão deste tamanho.

1997. Três pessoas, o fotógrafo, a repórter, o motorista. E a estrada. Pelo sertão do Conselheiro, por Quixeramobim, Assaré, Guaraciaba do Norte, os lugares por onde o santo de Canudos nasceu e viveu no Ceará. E depois, ultrapassando a Chapada do Araripe, na direção do sertão do Pajeú, a terra de um cangaceiro de fama e de um sanfoneiro ainda mais afamado, e além o rio São Francisco que vem se esgueirando pelo Raso da Catarina, beirando os lugares em que o Conselheiro deixou a marca de sua intervenção prática e estética: açudes, igrejas, capelas, cemitérios e cidades. Uauá, Cansanção, Monte Santo, Euclides da Cunha, Bendegó, Canudos: era um ano tão seco, que as cicatrizes submersas ergueram-se resistentes das águas rasas do Cocorobó.

No sertão eu vi o começo do mundo. Era o ano de 2000 e toda a efeméride da aventura marinheira de Pedro Álvares no comando de umas tantas caravelas. Enquanto os meios de comunicação pensavam em 500 anos de Brasil, o jornal O POVO foi na Serra da Capivara, em São Raimundo Nonato, no Piauí, um dos mais importantes sítios arqueológicos das Américas, e ao pé da parede pintada com capivaras, baleias, espirais, decalques de palmas de mãos – quais existem, das mesmas, parelhas, em cavernas da Chapada do Araripe – uma fogueira ardeu ou foi ateada há 50 mil anos. Ainda no Piauí, mas na franja da majestosa Ibiapaba, de onde se ouviu o sermão de António Vieira e da qual nasceu a lenda linda inventada por José de Alencar, metamorfoses minerais se desdobram em sete cidades imaginárias. E no deserto há cachoeiras.

Também vimos uma cidade que se mudava. As ruas de Jaguaribara quietas, as árvores pressentindo o fim, debaixo das águas do Castanhão. Um homem não escondia de ninguém as lágrimas que corriam no cânion do rosto, o papagaio mudo no poleiro esperando a vez de subir no caminhão. Na caçamba, os móveis, as louças, os baús, geladeira, televisão, as fotografias, e em nenhum lugar caberia a memória e a saudade. De outra vez, em Ocara, era o fim do dia, e aí vem Adrião em seu cavalo, apeia junto ao alpendre, tira a sela, as compras que trouxe da cidade, naquele dia da aposentadoria. E depois, tocando na rabeca, que ele diz rebeca, um baião lento e triste, enquanto lá fora descia o breu. E o encontro com Zé do Mestre, seleiro, cuja sabedoria está posta na frase que me diz na tarde quente, ao som das bagens da leucena desfolhada inventando chuva no oco seco do sertão pernambucano: “Sou feliz de ser eu”.

Em Quixadá, a galinha choca está perdendo o bico, perdeu. A figuração faz parte de um território de extrema beleza insólita, porque do solo cristalino emergem aqueles fósseis de montanhas, pedras polidas pelo vento de outras eras, incrustadas de moluscos de um mar que há muito deixou de existir. E sobre estes ossos minerais, quando é tempo de chuva e ela não falta, faz-se da noite para o dia o vestido mais bonito que se viu, todo em rama, flor em flor. Outra imagem sertaneja: o aglomerado de baldes, panelões, cabaças, latas, todo tipo de depósito enfileirado em desarmonia diante do chafariz mal abastecido. Os jumentos sem rumo no asfalto. Aquele menino segurando o rabo do tatu, oferecido ao passante por quaisquer dez reais. Ainda a fome, a seca. E a resistência desconfiada nos acampamentos dos trabalhadores sem terra. O sertão é uma paisagem móvel. Não foi apenas a cidade que avançou sobre o sertão, o movimento é um passo a dois, coreografado: o sertão entrou pela cidade, fez-se espaço de atuação intersticial, periférico, o trajeto realizado por uma força lenta, a massa em expansão.

E o que dizer deste outro sertão que já começa na beira da praia? Aldeias de dunas e oásis, pescadores e rendeiras. Canoa Quebrada tinha seu sertão, lá nos Esteves (as placas bilíngues na Broadway trazem atualmente a denominação “Estêvão”), casas de taipa e palha que acolhiam mochileiros das galáxias, no tempo em que vivia aquela velha bem velha cor de oliva, mãe do poeta Zé Melancia, que tirava da parede da sua cozinha a areia acumulada pelo vento, todo santo dia, com a cuia da infinita paciência. Pontal do Maceió, cenário de tantos carnavais, a turma acampada em barracas debaixo da sombra movimentada dos coqueiros. Agora, só pagando o preço das pousadas e hotéis que brotaram nestes sertões de verdes mares bravios. Mas o sertão é impagável.

O sertão é impagável quando a esperança dos teus olhos se espalhar na plantação. Porque vem vindo a notícia de trovoadas no Piauí, e no horizonte apareceu um torreame de capelo, anunciando a chuva. Mestre Raimundo Aniceto aperta os olhos miúdos de índio cariri e sorri, contando sua experiência de profeta ao mesmo tempo em que arrocha a corda encerada no zabumba que acabou de encourar. O sertanejo é mestre em perceber os mínimos sinais da chuva, desejada e necessária. Há experiências conhecidas de muito tempo, com sua forte inflexão religiosa, registradas nos arcaicos Lunários Perpétuos, tal a das pedrinhas de sal na noite de Santa Luzia. É costume se reunirem os entendidos em princípios de janeiro, em Quixadá, cada qual trazendo a ciência que lhe é própria. Chico Leiteiro, por exemplo. Como se fosse jangadeiro, ele se orienta pelas estrelas e pelo vento. Observa a posição dos astros e fareja os quatro pontos cardeais. Do alto da pedra lisa que se ergue em frente de sua casa, em Quixadá, tal como o flagrou Cláudio Lima, o profeta vaqueiro vara madrugadas, investigando o roteiro das estrelas e sentindo o mundo respirando ao seu redor.

Eleuda de Carvalho e Ariano Suassuna

Sertão, tantos e quais. Experimentado desde o primeiro ar e reescrito ao depois, no ofício de repórter. E atravessando a vida, ou através, moldura presente. Sim, o sertão surpreendente. Encantado, feito este sertanejo que foi o artista Ariano Suassuna. O seu Romance d’A Pedra do Reino, de 1971, transfigura e atualiza o sertão dos sonhadores, dos profetas, das lendas de reis desterrados da Idade Média ibérica, perdidos em África, encantados nas pedras do sertão nordestino. Por ali passou a velhinha do tempo, o bando jovem de Lampião, a Coluna Prestes, por ali passaram cangaceiros e fanáticos modelados em letras de fogo. O fogo das coivaras neste outro sertão em que me encontro, relembrando o traçado entre fronteiras da palavra e da história nos dez anos de trabalho na redação.

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