À geração perdida, obrigado por não nos escutar

Ontem à tarde uma jovem da minha faculdade foi algemada durante as manifestações. Com o celular ligado o seu colega, estudante de jornalismo, filmava a cena e questionava o policial em tom de protesto. Ao perceber, porém, que não haveria mais saída, que a garota iria mesmo para delegacia, ele baixa a guarda e pergunta:

— Quer que eu ligue para alguém?

Tão calma quanto possível, a garota responde:

— Não, eu já falei com eles. Vou telefonar para minha mãe.

Não conhecia a menina, mas quando ouvi a conversa senti vontade de chorar. Só naquele momento me dei conta da idade de quem estava tomando as ruas naquela quarta-feira.

Não são jovens, eu, com os meus 25 anos, sou jovem, eles são adolescentes. Meninas e meninos que precisaram da autorização dos pais para dormir na escola, para sair de casa, para voltar tarde, para ficar na casa do amigo. Que estão descobrindo sua personalidade, suas falhas, seus valores, seus hormônios. Que pela primeira vez pararam para pensar o que querem do futuro. Que quando presos não tem um amigo advogado, um juiz conhecido, um delegado que deve um favor. Que vão ligar para a mãe quando a coisa apertar — e não há vergonha nenhuma nisso, arrisco dizer que é o que qualquer um com menos de 30 anos faria. E bom, os secundaristas costumam ter menos de 18.

Outro dia ouvi uma psicóloga dizer que ser adolescente é adolescer, crescer e finalmente questionar o que está sendo imposto a você. Ou seja, é um processo lindo, necessário, mas que por algum motivo, insistimos em tolher, reduzir e menosprezar.

Como os donos de um grande saber os chamamos de “aborrescentes”, exigimos que eles se acalmem, parem de sonhar, saiam das redes sociais, leiam livros clássicos, entendam Machado, assinem jornais e curtam Rock ou MPB (porque as músicas de hoje em diam, não dá para escutar!).

Nos esforçamos para que cada um deles se encaixem no nosso padrão e eis o espanto geral quando, sem seguir nossas regras, eles dão uma aula de como se manifestar. Quando ensinam ao experiente político e ao inteligente jornalista que ocupação é diferente de manifestação, que ser a favor da criação coletiva não significa ter uma ideia e depois abrir para críticas e sugestões. Significa fazer o que eles fizeram nessas escolas, sentar junto, criar junto, discutir, debater e depois decidir e cumprir o combinado.

Hoje meu final de semana começa mais feliz, não só porque o governo finalmente recuou, mas porque vi escolas públicas funcionando como escolas. Mais do que isso, porque assisti de camarote a tal da geração perdia, cheia de jovens alienados e irresponsáveis, mostrar que eles não vão nos escutar e por isso mesmo podem mudar muito do que está errado por aí.