Reportagem — As 5 lições de Jacinda Ardern, a fada sensata da vez

O que outros líderes podem aprender com a reação da primeira-ministra diante de um dos maiores massacres da Nova Zelândia

“Fada sensata”. A gíria usada no mundo online para elogiar aqueles que em meio aos discursos de ódio são porta vozes de mensagens claras e empáticas achou sua maior representante aonde menos se espera: no mundo analógico, mais especificamente no meio político. O nome dela é Jacinda Ardern, e ela é primeira-ministra da Nova Zelândia, país que enfrentou o maior massacre de sua história moderna na última segunda-feira, dia 15 de março de 2019.

Aos 38 anos, Jacinda já despertou o amor da internet outras vezes. É a mulher mais jovem a ser eleita chefe de estado de seu país e foi a segunda líder do mundo a dar à luz durante o exercício de seu mandato — o que lhe rendeu olhares desconfiados, respondidos com declarações afiadas em defesa à igualdade de gênero.

Mas, se a juventude, a maternidade e boa oratória são características circunstanciais e não fazem de ninguém, necessariamente, uma grande líder, sua atitude diante da morte de 50 pessoas em duas mesquitas da cidade de Christchurch parece não deixar dúvida: estamos diante de uma liderança diferente de todas as outros (ou ao menos das que andam mais populares nas redes sociais).

Mas afinal, o que ela fez de diferente? Como ela usou a empatia para combater o ódio? Destaco abaixo 5 lições que podemos aprender com Jacinda Arnrs (e gostaria MUITO de ver outros líderes colocando em prática).

  1. Deixe sua prioridade clara desde o começo

Poucas horas separaram o ataque às mesquitas da primeira coletiva de imprensa cedida pela premiê. Mesmo assim, Arnrs já sabia qual seria sua prioridade: garantir que as vítimas viriam sempre antes do atirador.

Não à toa, ao invés de começar a fala condenando o ataque, ela optou por prestar um serviço e indicar como o país prestará socorro às vítimas. Logo em seguida, desencoraja o compartilhamento do vídeo que divulga o assassinato e resume tudo o que foi feito até então, substituindo possíveis detalhes que explicitam a crueldade do atirador por homenagens aos policiais que o capturaram e aos médicos que estão prestando socorro.

2. Em um mundo racista, é preciso ser antirracista

Se a direita conservadora, em busca de se mostrar ponderada, relativiza ataques racistas, machistas, homofóbicos ou xenófobos, esse certamente não é o caso da primeira-ministra da Nova Zelândia. O ataque, claramente direcionado à população muçulmana, em sua maioria imigrantes, foi encarado pela líder como um atentado à toda a população do país, independentemente de sua religião ou de sua origem.

Jacinda viajou até as cidades atacadas ao lado do líder da oposição, justamente para evidenciar a união frente ao terror. Cravou um novo bordão: “They are us” (Eles são todos nós) ao se referir às vítimas, sem abrir espaço para questionamentos e, no lugar da discussão ao redor das políticas de imigração, propôs mudanças na política de armas e de investigações.

Atitudes que não acabam com o racismo no mundo ou mesmo na Nova Zelândia, mas deixam claro que ele é institucionalmente inaceitável. Ardern chegou até a convocar a população a combatê-lo.

3. Você ainda deve substituir um tweet por um abraço

Nem só de palavras é construído um posicionamento. Imagem e atitudes também contam bastante, como Ardern provou ao ir até Christchurch prestar solidariedade.

Usando um lenço para cobrir os cabelos, em sinal de respeito aos costumes muçulmanos, a premiê levou flores, conversou e consolou os familiares da vítima. Atitude que não só comoveu o mudo e fortaleceu o sentimento de união, mas também aproximou a líder de um grupo que, até então, seguia apreensivo por seu status de imigrante, e gerou imagens capazes de se espalhar ainda mais rápido do que um belo textão de Facebook.

4. Não dê audiência ao ódio

É bastante comum em casos como esse que entre outras demandas o atirador esteja buscando por reconhecimento, fama, audiência. O que Jacinda Arns negou, não só ao voltar sua atenção às vítimas no lugar da perseguição, mas literalmente se recusando a pronunciar o nome do criminoso (já identificado e detido pela polícia).

“Ele é um terrorista. Ele é um criminoso. Ele é um extremista. Mas, sempre que eu me pronunciar, ele permanecerá sem nome”, disse Ardern pedindo que todos que forem falar do ataque busquem citar aqueles que morreram, e que não devem ser esquecidos.

A declaração, dada em discurso no parlamento, foi a cereja do bolo de uma reação tão empática quanto estratégica, que não só busca unir o país em uma reação mais pacifista, mas obriga a mídia a olhar para novas versões. O que, de fato, pode trazer efeitos práticos e garantir a segurança do país.

Jaclyn Schildkraut, autora do livro “Tiroteios em massa: mídia, mitos e realidades”, explica, por exemplo, que a cobertura da mídia centrada nos atiradores é um dos gatilhos para replicações de casos como esses. E uma investigação da ABC News, em 2014, descobriu que nos 14 anos depois de Columbine, pelo menos 17 atiradores escolares — e outros 36 estudantes que ameaçaram ataques que foram evitados — citaram diretamente o caso. O levantamento não incluía, claro, o tiroteio ocorrido na semana passada em uma escola pública de Suzano, em São Paulo.

5. Pense no futuro

Sempre que passamos por momentos de dificuldade, tão importante quanto apaziguar a crise, é tirar algum tipo de lição para o futuro. E na política a regra não é diferente. Mas o que há para aprender com um massacre que matou 50 pessoas? Para a primeira-ministra da Nova Zelândia a resposta veio no dia seguinte: as políticas de armas do país precisavam ser revistas.

Como costuma acontecer, a bandeira ganhou força diante da tragédia, especialmente porque o atirador tinha a autorização necessária para usar as armas escolhidas para o ataque. Assim, em 10 dias a primeira-ministra promete apresentar uma proposta para a nova regulamentação, que deve prever, por exemplo, a proibição de armas semiautomáticas (o a tirador usou duas delas no ataque).

Há quem duvide que o efeito Jacinda perdure até lá, mas vale dizer que diante de um dos dias mais sombrios vividos pela Nova Zelândia, parte da população já começou a se movimentar e devolver seu armamento para a polícia.

“Nós não precisamos delas no nosso país”, declarou o fazendeiro John Hart do distrito de Masterson, que decidiu entregar seu fuzil semiautomático depois do apelo da primeira-ministra.