Opinião — Marielle, desculpe por não estar presente (Ass. uma jornalista)

Sou jornalista, feminista e em 2018 decidi me jogar de vez nas leituras, escritas e apurações políticas.O que significa muitas coisas, entre elas que, no dia 14 de março, me senti profundamente envergonhada: uma vereadora negra, lésbica, vinda da perfiria e eleita com o 5o maior número de votos do Rio de Janeiro foi assassinada — e eu não fazia a menor ideia de quem ela era.

Naquela madrugada, após ver as fotos de uma mulher sorridente tomar conta do meu Instagram, seguida de mensagens de luto e revolta, corri para entender do que se tratava. Li todas as notinhas que sairam sobre a sua morte. Decorei seu partido, seus aliados, o sobrenome, estado civil e o nome da escola em que ela estava antes de ser assassinada. Na manhã seguinte, ainda me juntei ao coro de incoformados e de dentro de um taxi, mesmo um pouco mareada, escrevi e compartilhei meu pesar. Um post, era tudo o que me sentia capaz de fazer diante de tanta ignorância.

Hoje, dez dias depois daquela manhã de quinta-feira, após ler a avalanche de notícias falsas que foram indiscriminadamente compartilhadas, percebo que eu não era a única jornalista alienada nesta história. Pelo contrário, se hoje vejo qualquer pessoa repetir que Marielle “colheu o que plantou”, sei que é porque, até outro dia, estávamos todos, incluindo os jornalistas que hoje fazem Marielle presente por todo o mundo, repetindo por falta.

A prova veio através de uma busca simples. Voltei aos veículos de imprensa que mais leio (Folha de São Paulo, Estado de São Paulo, Época, Veja, Carta Capital, O Globo, além de Nexo e Huffpost) e adivinhem:alguns chegam a não ter nenhuma postagem com o nome de Marielle antes de sua morte. Um perfil da vereadora negra que saiu da favela da Maré e foi eleita com 46 mil votos? Nem sombra.

À Folha, Marielle falou duas vezes, através de artigos que publicou na coluna #Agoraquesãoelas: um no qual refletia sobre os números surpreendetes que levaram à sua eleição e outro no qual se posicionava contrária ao chamado Distritão — proposta de alteração eleitoral que acabou caindo por terra.

Já no Estado de São Paulo, Marielle foi entrevistada algumas vezes, mas sempre como uma fonte secundária, dentre de pautas que nem sempre estavam conectadas à política. Ela comenta, por exemplo, o escândalo do papel higienico preto que usou “black power” como slogan ou a queda do Brasil no ranking mundial de igualdade de gênero.

Na Carta Capital, talvez pela cobertura mais assidua dos partidos de esquerda, Marielle compõe uma das reportagens da última cobertura eleitoral e é apontada como uma das representantes feministas eleitas naquele ano. Também há a presença da vereadora em matéria sobre o Dia da Visibilidade Lésbica (uma de suas bandeiras), e em reportagem sobre violência na Maré — na qual Marielle Franco é “apenas” mais uma moradora da comunidade.

Marielle ainda aparece com alguma frequência no jornal O Globo. É lá que está a única descrição da carreira da vereadora escrita antes de sua morte (entre os veículos pesquisados, claro) — além de reportagens que a citam seu trabalho, como essa que trata de aborto e destaca a porposta da líder para a criação de um programa de atenção humanizada ao aborto legal.

Nexo, Veja, Época e Huffpost, por sua vez, não citaram nem uma vez Marielle antes de sua morte.

Eu sei, essa é uma pesquisa informal, com uma amostra pequena na qual a maior parte dos veículos tem sede em São Paulo. Mesmo assim, como jornalista, essa apuração jogou bem na minha cara uma dura realidade: temos que voltar a fazer nossa lição de casa.

A minha ignorância sobre uma personalidade política que estava incomodando o suficiente a ponto de ser executada, somada a pouca presença dela nas mídias tradicionais (e até mesmo nos veículos considerados “mais jovens”) deixou claro que a ausência da imprensa é quase tão relevante quanto sua presença.

Não falar sobre jovens que estão dando seus primeiros passos na política. Sobre mulheres, negras, lésbicas que estão trabalhando na periferia. Sobre o conceito de direitos humanos. Sobre projetos que buscam alternativas para casos polêmicos de violência, uso de drogas, aborto e assim por diante. É também uma forma de alimentar as tão temidas e famosas fake news.

Sei que não é só isso, que muitas vezes os leitores leem apenas aquilo que querem ouvir, que a vida é corrida, que a equipe de uma redação é pequena, que o mundo político não para, que existe graus de noticibilidade e que a audiência de uma vereadora é bem menor do que a de um governador. Mas, acima de tudo isso, sei que a minha responsabilidade era estar presente, seja na vida de Marielle, seja na de cada ativista que se mobiliza para garantir direitos à população mais carente do país.

Por essa ausência, eu peço desculpas à Marielle .