Opinião — Reflexões sobre 20 de novembro

Toda vez que a morte de Zumbi dos Palmares, maior líder negro contra escravatura no Brasil, completa mais um ano, forma-se o mesmo campo de batalha. De um lado os que criticam o dia da Consciência Negra, não por serem a favor do racismo, mas por acreditarem que evidenciar a diferença entre negros e brancos é um tipo de preconceito. Do outro, os que não acreditam ser possível ignorar as diferenças que a cor de pele impõe à existência de cada um e, por isso, encaram o feriado como uma conquista, uma forma de colocar em pauta questões importantes para a população negra.

Note que, embora a inflamação do momento nos faça ter raiva do grupo oponente, nenhum dos dois lados defende que negros não devem ser tratados com respeito. A divergência está, na verdade, em algo um pouco mais estrutural: a forma ideal de se tratar a diversidade.

Me lembro que há alguns anos o parlamento francês, em busca de conter ações de preconceito, proibiu que alunos usassem símbolos religiosos – o que incluí vetar terços, kippahs e também véus em sala de aula. Assim, todos estariam ali como iguais e o clima de “campo de batalha” cessaria, afirmaram os líderes que votaram a lei em vigor até hoje. Atrás da minha orelha, no entanto, se instalou uma pulga gigante: não seria melhor que todos fossem tratados como iguais em suas diferenças? Que não fosse necessário negar, esconder ou apagar essa ou aquela característica para que a paz e o respeito reinasse?

É uma pulga idealista, eu sei, mas que desde então aparece constantemente nos meus pensamentos. Apareceu quando andei no vagão só para mulheres em Dubai, quando entrevistei uma jovem de 13 anos que foi excluída do grupo de amigos por ser considerada próxima do diabo, já que seu avô era Pai de Santo. Também veio quando mediei um debate sobre a relação dos negros com a cidade e, claro, neste dia 20 de novembro, quando surgiram mais uma vez os argumentos em defesa de uma “consciência humana” e não uma “consciência negra”.

É claro que somos iguais perante a lei e perante a natureza também. Que “quem vê cara não vê coração” e que muitos outros lugares comuns que ouvimos por aí são verdadeiros. Nenhum deles, no entanto, defende que somos estritamente iguais uns aos outros, ao que me parece por um motivo simples: não somos.

Seres humanos têm muito em comum, mas tem também cores diferentes, gêneros diferentes, orientações sexuais diferentes, tradições diferentes, gostos diferentes, referências diferentes e, mais importante do que tudo isso, histórias diferentes.

Alguns passaram pelo terror do holocausto, por exemplo. Outros tiveram suas terras tomadas e sua cultura marginalizada. Muitas não puderam votar por anos, afinal não eram consideradas cidadãs e uma quantidade ainda maior de pessoas, até hoje, dificilmente descobre a origem do seu sobrenome, mas tem certeza que sua avó ou bisavó foi acorrentada, viveu em uma senzala e, muito provavelmente, foi estuprada.

Estes últimos são os negros, e bom, por esse contexto, e a consciência de todas as consequências que a escravidão trouxe para essa parcela da população, não posso dizer que sou igual a nenhum deles.

O ideal, talvez, é que eu fosse. Que a escravidão não tivesse acontecido ou que ela já tivesse tão superada, que o fato de uma pessoa ser negra não significasse que ela teria menos chances de conseguir uma promoção, que seu cabelo não fosse considerado feio ou exótico, que ela não estivesse sozinha em um restaurante de luxo e que as piadas que comparam negros com bichos ou bandidos não fossem nem se quer compreendidas. Mas a verdade é que, ao menos por enquanto, tudo isso continua acontecendo.

Há quem diga que é um ciclo vicioso, que quanto mais se fala dessas diferenças, mais se fortalece o preconceito. Que a solução seria, como foi feito com os estudantes na França, apenas ignorar a diferença, minimizar ao máximo, parar de falar a respeito, de identificar uma pessoa como negra e outra como branca. Em resumo: “parar o mimi”. Mas será o silêncio tão bom assim?

Talvez eu tenha uma posição um pouco tendenciosa neste caso. Sou jornalista, uma pessoa que ganha a vida contando histórias e estudando como comunicar os fatos da melhor forma possível. Não exatamente uma fã do silêncio ou dos segredos. Mas pense bem, você, na sua vida pessoal, já solucionou algum problema sem falar sobre ele? Eu nunca.

Da mesma forma que é impossível apagar da nossa história cotidiana um namorado que poderia não ter existido, uma opinião que não se acredita mais, uma briga que poderia nunca ter acontecido, não há como simplesmente apagar da História capítulos e capítulos nos quais os negros eram tratados, literalmente, como a carne mais barata do mercado. É impossível e, o que pouca gente lembra, profundamente desrespeitoso.

É a nossa história que nos torna quem nós somos. Negar tudo isso, tentar invisibilizar essas diferenças é, no fim das contas, negar a existência do outro, negar a existência do diferente, negar quem se é, agir mais uma vez como Narciso, achando feio tudo o que não é espelho.

Falar do diferente não é fácil. De racismo e escravidão, menos ainda. É preciso disposição para encarar de frente fatos tão terríveis, para assumir seus privilégios e combatê-los, para abraçar o que até então te era ensinado como menor, errado, ruim, estranho. Mas me parece o único caminho possível. O único que de fato respeita o outro e a sua história. E, consequentemente, o único que de fato pode ser transformador.

E para você, o que lhe parece? Será que não precisamos MESMO falar de racismo? Será que é desconsiderando as diferenças que combatemos a intolerância? Qual será, enfim, a melhor forma de lidar com a diversidade humana? Abraçando com empatia? Ou ignorando e começando do zero?

Eis uma reflexão digna de feriado.