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Giovana Catarinacho
Aug 9, 2017 · 3 min read

“Ai, Catarina, larga desse livro.”

Eu quero. Já joguei esse livro em rios e estradas, observei enquanto ele se desfazia em outro estado da matéria incontáveis vezes.
Ele volta. Ele conta coisas que não quero saber. A expressão correta seria na verdade “não posso saber”.
Um livro de capa simples me atraiu a atenção no sebo por não ter título na lombada. Quando peguei para investigar melhor, vi que não havia título nenhum, nem história ou imagens no miolo. Achei estranho e perguntei à dona da loja se ela sabia por que tinha um diário em branco ali, ainda mais um em estado perfeito e de boa qualidade. Logicamente ela devia ter se preparado para este momento pois foi sem hesitação que ensaiou uma cara de surpresa genuína e disse que poderia levar o diário por dez reais — um preço baratíssimo para um belo acabamento e o grosso miolo de papel pólen intocado.

O livro se mostrou sábio. Ele esperou até que eu chegasse na metade de suas páginas para começar a revelar suas propriedades ‘mágicas’. Fui seduzida com belíssimas pinturas em aquarela, poesia fina e contos sublimes até o momento de apresentações reais. Ele desenhou, de sua maneira fantástica e hipnotizante, em três folhas separadas explicando exatamente o que era, além de um livro. Sua forma real, por assim dizer.
A primeira folha mostrava a ideia que fazíamos de sua aparência. A segunda retratava a minha ideia sobre ele, agora que já o conhecia ‘melhor’. A última era sua aparência real. Nenhuma das três se parece minimamente e tenho certeza de que vou morrer antes que alguém possa olhar a última página sem minha permissão. Sua forma tanto quanto sua missão para este mundo está além da compreensão humana do sobrenatural atualmente.

O livro é parte de mim agora. Posso abrir quantos livros quiser, em seu interior as palavras estarão trocadas com as do diário. Sou prisioneira de sua vontade, escrava de seu humor. Escrevo sem saber se minhas palavras podem ser compreendidas pois tudo que consigo ler são os escritos do livro repetidos em loop infinito.
O conteúdo?
Sei de tudo que vai acontecer com você, seus pais, o besouro atrás da luminária, os seres etéreos que esperam sua vez de andar sobre o planeta, com o motorista do ônibus infantil que decidiu tomar uma dose de whiskey antes de sair pro trabalho e vai matar mais de quinze crianças, com os presidentes, as nações, as ilhas desconhecidas e povos distantes. Não é segredo o que exatamente, mas como tudo acontece deverá permanecer selado e escondido para sempre.

O livro é praticamente interminável e Destino adoraria tê-lo de volta — se estivesse vivo, pelo menos, poderia devolvê-lo. Minhas instruções foram apenas: não deixe que Caos se aproxime deste livro se deseja que Vida continue a existir.

Continuo a viver minha vidinha medíocre, sem liberdade para fazer o que quiser ou apoio para lidar com tudo isso. Então sempre que falam: “Ai, Catarina, larga desse livro”, só posso responder com:

“Não posso. Preciso saber o próximo capítulo”.

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