17
Planeta Obe (Pt_2)

A expedição foi aconselhada a ficar dentro de um perímetro pré-estabelecido a fim de manter todos próximos o suficiente para ajudar em caso de emergência. Cinco horas depois, quase todos haviam se acostumado à estranheza de não se perderem de vista mesmo estando a quilômetros de distância. Apenas Raissa, a pilota, e Umi, a maquinista, preferiram gastar dois dos três dias a mais para procurar danos na nave. Nenhuma das duas queria admitir o quanto aquele ambiente parecia anormal até para padrões alienígenas.
A luz solar era fraca (apesar da proximidade de dois Sóis de tamanho considerável) e constante, sem noite, passando a sensação de uma eterna manhã cinzenta. Havia também uma brisa responsável pela única sensação de movimento no planeta inteiro e embora não fosse forte o suficiente para deixar os exploradores em estado de alerta, e assoviava de maneira irritante.
Ao fim do dia os tripulantes reuniram-se na ‘cozinha’ e trocaram informações descontraidamente. Caio e Tamur dividiram suas descobertas sobre a fauna e flora minimalista, incluindo a árvore predadora e raízes que costuravam a terra feito linha, deixando uma série de lombadas baixas escondidas dentro da relva. Tamur, com seus olhos escuros e nariz torto de tanto cair de cara no chão, optou por ater-se à comentários técnicos e breves, tentando ao máximo mascarar o profundo desconforto que aquele planeta inteiro lhe causava com medo de arruinar a expedição. Se analisasse o ambiente tão bem quanto analisava suas chances de sobrevivência sozinho, teria percebido que os outros 11 tripulantes também sentiam-se ameaçados pelo vasto nada que se estendia por quilômetros e quilômetros. Frances, Marzia e Luiza trocavam idéias sobre que outras funções eles poderiam exercer até que algo diferente fosse encontrado, uma vez que seus talentos linguísticos e estudos neurológicos seriam de pouca ajuda, pelo que parecia. Frances, dedicado em provar sua teoria de que é possível detectar sinais telepáticos através de resquícios mentais, pequenas insinuações que pipocam pela mente, falhou em detectar a complexa rede de comunicação que conectava o planeta inteiro.
A rede, mais parecida com uma nebulosa de conexões, era dividida por hierarquias, onde os sinais mais fortes prevaleciam sobre aqueles vindos de criaturas menos ‘despertas’. Elaine sentia a tal nebulosa como uma presença onisciente. Verificou todos os leitores mais uma vez para ter certeza de que nada estava desregulado quase sem pensar. Pabu era a única que lia a ânsia geral estampada em suas ações calculadamente despreocupadas, ela própria mudando sua postura numa tentativa de relaxar o ambiente.
Após a verificação meticulosa dos sistemas de segurança, todos os doze astronautas se prepararam para dormir, embora nenhum deles tenha conseguido esquecer o barulho incessante do vento lá fora.
Do lado de fora, o chão se mexia fervorosamente. A nebulosa pulsava com a troca de informação frenética. Olhando do ponto de vista de um humano, nada parecia diferente. Crepitando rente ao solo, criaturas espinhosas, com número incontável de pernas, mandíbulas, dentes, antenas, olhos — tudo misturado numa confusão anatômica sem precedentes. Se alguém observasse com mais atenção ainda, repararia que esses bichos, aracnídeos, anfíbios e insetos de até um metro de comprimento, arrastavam-se de seus esconderijos em pânico, pois somente eles sentiam a animação pulsante abaixo do solo, onde algo fora plantado há bilhões de anos atrás.
[Parte_2]
