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Planeta Obe (Pt_4)

Pabu ajeitou seu rabo de cavalo antes de enfiar a cabeça dentro do aquário de proteção. Apesar da surpresa que foi a doença súbita de Yamato, ela ainda queria sair sem capacete para sentir o cheiro do mundo lá fora. Ninguém nunca sentiu um cheiro alienígena e isso a incomodava num nível filosófico. Como era possível viajarem em busca de novas civilizações alienígenas mas não gastarem tempo de pesquisa buscando soluções para filtros de respiração, ou trajes mais espaçosos contra irradiação. Qualquer coisa que permita um ser humano ser humano. Nosso primeiro instinto é entender o ambiente à nossa volta usando a visão: e se nesse planeta em particular a visão não servisse tanto quanto a audição? Afora sons ocasionais de mato sendo triturado, mato sendo pisoteado, mato sendo deteriorado — mato crescendo — existia o chiado baixo, inofensivo e carente, de maneira que nenhum tripulante se vira livre dele desde o pouso no dia anterior. Pensando bem, Pabu era grata pela grossa espessura que a protegia do vento incessante de Obe. O jeito era se acostumar a perder as pessoas de vista após ficarem separados por mais ou menos cinco quilômetros de distância uns dos outros, estar preparada para qualquer evento inesperado e continuar a busca dentro daquele matagal sem sentido por desculpas para sair daquele lugarzinho esquecido por todos e qualquer Deus.
Frances apertou bem as fivelas que selavam a parte de baixo do traje espacial automaticamente, seu cérebro estava ocupado demais pensando em algum adjetivo para o horizonte à sua frente. Não havia. Vindo de uma cidadezinha Alemã poupada das catástrofes e esquecida pelo tempo, onde um céu azul fazia parte das mesmas lendas sobre espíritos das montanhas, Frances estava acostumado aos dias cinzentos, à trabalho duro e pessoas mandonas. A tradição ditava: quanto mais velho você fosse, maior seria seu nível de autoridade sobre os outros. Sendo o mais novo da vila inteira, Frances não podia se dar ao luxo de esperar até atingir a maioridade para participar das conversas mais importantes da cidade (na época ele não sabia que o assunto mais polêmico já levantado pelo conselho era se deveriam ou não investir em alimentos mais saborosos para as vacas). Aos poucos o jovem Frances entendeu que a chave para entender os mais velhos era entrar em sua cabeça e se ver com os olhos de um adulto. Em pouco mais de um mês já havia juntado audácia o suficiente para andar, agir e falar feito gente grande. Entrou no conselho. Bom, resumindo a história: ele ficou tão decepcionado com a falta de propósito de sua cidade natal que resolveu fazer um favor a si mesmo e ganhar uma bolsa integral na melhor universidade do país.
Suas mãos tatearam o resto do traje em busca de outra tarefa. Na falta de coisa melhor pra fazer, subiram direto para a nuca, num ponto tão familiar que o cabelo crescia em chumaços irregulares. Infelizmente, um capacete de proteção de pelo menos cinco centímetros de espessura o impedia de saciar seu vício. Numa lista de prioridades bem calculada, poder tirar o capacete para se sentir minimamente confortável, até porque ele sempre tinha a sensação de ter alguma coisa o vigiando de seu ponto cego, era o primeiro item, e em seguida seria encontrar provas de uma civilização perdida.
Marzia crescera numa família engraçada onde todos disputavam para fazer o discurso mais ridículo no natal. Marzia sabia mais de treze línguas, havia estudado em universidades espalhadas pelo mundo inteiro — estava inclusive estudando as últimas conversas gravados com o ilustre povo de Girdo, alienígenas ávidos por conhecimento e convenientemente apaixonados por chá de lichia. Marzia não tinha nenhum comentário sobre o eficiente capacete do traje, pois ele jazia no solo com uma rachadura na nuca de dez centímetros de diâmetro, vazia exceto pelos resíduos orgânicos que um dia foram Marzia.
O intercom que unia todos numa conversa constante foi inundado de perguntas quando Luiza parecia ter apertado o botão para começar a falar (um bip baixo soava no ouvido de todos) e não soltara mais. Pabu ordenou que todos voltassem à base o mais rápido possível e se apresentassem imediatamente aos cuidados médicos de Raissa. Sua preocupação atingiu o ápice quando Frances perguntou por Marzia e nenhum dos dois reparou que ela havia sumido. Ele a chamou pelo intercom: ela respondeu confirmando sua presença. Ele pediu para confirmar sua localização, ao que ela respondeu prontamente: atrás de você.
[Parte_4]
