As fotografias que não fiz (minhas selfies)

A menina de 16 anos faz foto no feriado em Búzios. Essa menina também tira um autorretrato com a língua pra fora no show da Katy Perry e o palco ao fundo. Publica no Instagram. A menina de 16 anos tem um monte de registros clicados de uniforme, com os amigos do colégio. Ela acumula milhares de fotos, não ampliou nenhuma, mas estão todas guardadas digitalmente na pasta “Meus Álbuns” do smartphone dela.

Vejo hoje esse mundão digital, que às selfies pertence, e me dou conta: não tenho fotografias da minha adolescência. E ainda devo agradecer à minha família e ao hobby do meu pai os registros que guardo dos meus primeiros anos de vida. Não fosse ele, não teria as imagens que usei para, adulta, me reconhecer quando criança. E para provar que tinha cabelos genuinamente alourados aos amigos que duvidam disso diante da minha madura morenice.

Mas da adolescência… Não tenho uma foto das tardes em que eu e Silva jogávamos bola na rua com os meninos. Nem do By By, do MC de J (Monstrinho Creck de Jiló) ou do Biafrinha, os protagonistas do nosso recreio, no colégio. Ou para mostrar o fusquinha da mãe da Ana Paula, uma lata de sardinha de gente, em que éramos seis (talvez sete) nos espremendo e nos divertindo maravilhosamente a caminho do show do New Order no Maracanazinho. Ela nos deixou na porta e fomos só nós, moleques, ao show da minha banda favorita! Eu não cliquei um dos primeiros sonhos da minha vida realizado.

Também não cliquei aquele lindo entardecer que vi da Praia do Rancho, no Carnaval em Saquarema, aos 16 anos. Minha indumentária diária era um biquíni e minha amada canga lilás, amarrada habilidosamente como uma minissaia cintura baixa. Eu conheci o Alex ali e desenvolvi uma paixão platônica, que, veja só, acho que foi platonicamente correspondida. Não tenho nenhuma foto minha na praia, ou com o bodyboarder Alex (nem do dia em que ele, do nada, sentou no meu colo na cozinha e ficou brincando com o meu cabelo e eu quase morri de felicidade), ou com a canga lilás.

Não guardo fotos dos tantos pores de sol a que assisti da areia de Ipanema, Posto 10, em frente ao Cap Ferrat, com os amigos de praia que fiz na época. E menos ainda das noites e mais noites — e muitas noites — que passava com meus amigos do prédio sentada na rampa da garagem de cima — conversando sobre o nada, já que era adolescente novinha, sem autorização para baladas. Tinha que me contentar com as nights entre play, térreo e casa de algum vizinho do edifício, para ver ‘A Profecia’ e depois não conseguir dormir de medo. Ou passar a madrugada na casa da Flavinha e ouvir os vinis de rock dos irmãos dela, no toca-disco que ficava camuflado em um baú da sala de estar. Pensando bem, essas foram algumas das minhas melhores noites. Não, também não tem um clique disso pra rever hoje.

Não tenho como rever, adolescente já mais velhinha, as fotos que mostram que eu fui, sim, a Meio Ambiente, casa noturna no Alto da Boa Vista. Ou o vestido trapézio preto que eu usava com um batom vinho de farmácia. Nossa, e minha argola de prata com o cabelo repicado… Isso tudo devia ser horrível, talvez seja bom não ter foto disso. Mas queria ter uma imagem da noite em que fui ao Balibar, na Barra, na festa-surfe do colégio da Mariella, e depois dormimos na casa do pai dela. Era o dia da estreia da MTV no Brasil!!! Na volta da festa, a gente encheu a cara de guaraná e virou a madrugada vendo videoclipes amalucados na telinha. Groove is in the Heart…

E ninguém ia acreditar no ônibus que peguei, às 05h da manhã, depois de mais de uma hora de espera no ponto, para voltar do longo e inesquecível show do INXS no Rock in Rio 91, no Maracanã. Talvez não tivesse conseguido me apoiar com os dois pés no piso do coletivo, de tão cheio que estava, mas vai saber?! Não tenho foto das apresentações do festival, nem do dia seguinte, em que fiz tudo de novo, pra ver Faith no More e Gun’s’Roses.

Pior, muito pior: nem do meu encontro com o Mike Patton, o vocalista do Faith no More! Minha paixonite aguda. Na época, se pedia autógrafo. E eu ainda perdi o meu!

Nem do show do Bob Dylan em que fui com meu pai…

Não tenho fotos do início da faculdade ou na faculdade. Nem da entrada em sala de aula do então garoto desconhecido, de cabelo grande e liso, enquanto eu o admirava… Das tantas noites de sexta-feira que viramos na Kitschnet, em Copacabana, para ouvir a melhor música da cidade…Eu não bebia nada, mas dançava até 05h da manhã e esperava amanhecer na praia, com a galera, pra poder pegar o ônibus de volta pra casa já com o céu claro. Fotos da Dr. Smith, da Bang!, do show do Ramones e do Tim Maia no Circo Voador? Nada…

Por sorte, alguns amigos - mais velhos um pouco - fizeram registros de curtas viagens nossas. Logo depois, eu, já pós-adolescente, comecei a tirar fotos de algumas voltas que dava por aí, atravessando limites e fronteiras. Essas, posso recapitular nos meus álbuns — físicos — de fotografias. Da época em que ampliávamos a partir de negativos e chamávamos assim…Fotografias. Como as que não tenho, da adolescência. Esses negativos virtuais, que não se perderam com o tempo, confio ao arquivo da minha doce memória analógica digitalizada. Essas são as minhas selfies.