Assessora de merda

Posso dizer, sem sombra de dúvidas, que a faculdade foi o período mais louco da minha vida: surtei, me estressei, emagreci, engordei, fiz amizades (que posso contar nos dedos quantas foram sinceras e que ainda sobrevivem) e, mais que isso, fiz muitas inimizades.

Entrei no curso de jornalismo por alguns motivos: notas boas em português, maior facilidade com as matérias da área de humanas, gostar de escrever e uma inocente vontade de mudar o mundo com as minhas palavras.

Ilusório? Eu sei. Na própria faculdade nos é ensinado que o mundo jornalístico não é tão doce assim. Nem sempre você vai falar o que quer. Existem interesses muito maiores por trás de uma redação dos quais nem se imagina.

Outra coisa muito presente ainda na faculdade é o ego. É sabido que muitos jornalistas se acham deuses, acima de tudo e todos, soberanos e detentores da verdade. Ok. O poder da informação pode corromper. Entendo. Agora o infeliz que não saiu nem das fraldas se achar melhor que colegas de classe só porque tirou notas mais altas, ou se destacou em algum trabalho? Pra mim era demais.

Fui vítima desse ego. Logo no primeiro ano. Um amigo que deixou de ser amigo resolveu me rogar uma praga: “vai ser uma assessora de merda”.

Entendam: muitos jornalistas (formados ou não) acham que assessor não é jornalista. Só pode ser jornalista o cara da bancada, o cara do microfone na mão e o cara da redação. Assessor não. Assessor é a escória do jornalismo, é a grade tida como inútil e sem importância. Assessor é aquele frustrado que não entrou numa redação e agora está ali, escrevendo releases.

Desejar que alguém seja assessor, para mentes assim, é quase que desejar a morte de um infeliz. Ele estará fadado a uma carreira profissional medíocre e sem possibilidades de sucesso, condenado a viver imaginando como seriam gloriosos seus dias se estivesse em um grande jornal, desenvolvendo um jornalismo verdade.

Amigos, a porcaria da praga me pegou em cheio. Cheguei muito, mas muito perto de estagiar na Editora Abril. Fiz uma prova na Editora Online, soube que a minha nota foi excelente, mas acredito que a chefe de redação, mordida pelo ego, quis se levantar assim que ouviu que eu era estagiária da comunicação de uma Cia de Dança.

Sai da companhia e entrei numa agência de AI. A princípio como assistente. Quatro meses depois, me deparei com oito contas pra atender e eu não sabia por onde começar, mas aprendi. Aprendi no dia a dia, com os gritos da minha ex-chefe, aprendi com as colegas de trabalho, mas aprendi. E gostei. Gostei muito daquilo e tinha certeza que aquela era a vertente do jornalismo que mais combinava com o meu perfil.

Dois anos e meio depois, sai desse emprego com a sensação de dever cumprido. Os clientes gostavam do meu trabalho, elogiavam pela dedicação e comprometimento. Me joguei no mundo com a certeza que retornaria ao mercado como assessora novamente.

Errado. Ano de crise econômica não é fácil. No jornalismo, então, não é fácil em período nenhum. Fiquei um ano desempregada.

Hoje sou Analista de Mídias sociais, uma área muito bacana é muito promissora da comunicação. Sempre disse que, se não voltasse pra AI, queria me jogar nessa vertente (uma boa aposta, uma vez que o mundo do impresso se torna a cada dia mais incerto) e consegui entrar.

Então, meu querido amigo, obrigada, mas do fundo do meu coração pela praga que jogou. Por ser uma assessora de merda desenvolvi um lado profissional, responsável e organizado que foram essenciais para a minha recolocação. Por ter sido uma assessora de merda eu aperfeiçoei mais a escrita, ferramenta fundamental na minha função atual. Por ter sido uma assessora de merda, eu me tornei uma pessoa mais metódica que o meu normal, o que ajuda a desempenhar melhor o meu trabalho.

Like what you read? Give Gisele Silva Salvador a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.