Sem partido ou meu partido?

“ — A segunda guerra foi um absurdo que matou milhões de judeus. — diz o professor.

- não concordo prof, meu papi falou que isso foi uma campanha de marketing para conseguirem fundar o estado de israel, você está ofendendo minha crença e a moral ensinada pela minha família, vou te denunciar”.

“ — A gravidade é diretamente proporcional a massa de um objeto e inversamente proporcional ao quadrado da distância do mesmo, por isso a terra orbita em torno do sol.

- Professor, isso é extremamente ofensivo. Minha família crê que a terra é plana e está colada nas costas de uma tartaruga gigante nadando pelo oceano-universo, vou te denunciar”.

“ — Anos após a viagem do navio beagle, Sir Charles Darwin, postulou a mais completa teoria acerca da vida no nosso planeta. A evolução das espécies é hoje um dos fatos mais comprovados e estudados que existe.

- Isso é um absurdo! Como pode nos ensinar essa história sem pé nem cabeça? Todo mundo sabe que o homem veio do barro, a mulher de uma costela dele e os dois foram expulsos do paraíso porque uma cobra falante, que na verdade era o diabo, convenceu a mulher que comeu uma fruta proibida de uma árvore mágica. Sendo assim, deus (que é perfeito mas de vez em quando fica irado) mandou os dois embora para cá. O senhor está ofendendo a mim e a crença de milhões de pessoas pelo mundo, vou te denunciar”.

Esses são casos hipotéticos que podem estar prestes a ocorrer se as escolas forem obrigadas a se tornar sem partido. O que se ensina em uma escola é ciência, respaldada pelo método científico. São fatos científicos que não são flexíveis, não são passiveis de interpretação e não devem respeitar crenças individuais.

Karl Marx é famoso e ensinado até hoje, porque suas ideias mudaram o mundo, não porque os professores querem sabotar o futuro promissor de adoração ao deus mercado que está reservado aos seus alunos. Em contrapartida, Ludwig V Mises e a escola austríaca não são ensinados, por serem irrelevantes. Por mais bonitinho que seja o pensamento dessa turma, não há nada de concreto que possa ser ensinado.

Marx é igual a: fatos históricos e geográficos importantes para o mundo atual. Deve ser estudado, juntamente com outros autores, se quiser entender porque vivemos como vivemos.

Mises é igual a: nada, deve ser estudado se quiser sonhar com uma distopia ficcional de baixa qualidade.

Não nego a existência de professores partidários, mas são apenas maus profissionais, como existem em todas as áreas. Fato é que o poder de persuasão de um professor é mínimo perto da influência direta dos colegas. Vá a uma escola particular e verá um mar de direita, vá a uma escola pública e verá um oceano esquerdista, nosso meio diz muito mais a respeito de nossas ideias do que o coitado do professor.

Tive aula com um mestre, o chamo de meste porque era excelente, que durante muitos anos entrava na sala de aula com um broche de estrela vermelha na lapela do paletó. Suas aulas eram fantásticas, por que ele nos passava as informações dos fatos aceitos pela academia, sem partidarismos. Mas de tempos em tempos caíamos na questão política e o que se via era um bando de adolescentes de classe média alta contra um professor petista. Ele não tinha nenhum poder sobre o pensamento preconcebido por nós. Vale lembrar que ele não era o único dos professores que tinha orientação política declarada e mesmo assim, ninguém daquela escola, que eu ainda tenha contato, é minimamente de esquerda (o que é uma pena).

O escola sem partido até seria um projeto de lei razoável, se fosse honesto. Se não fosse apenas um engodo para trocar uma suposta ideologia praticada pelos malignos professores comunistas, por uma outra em que alguns acreditam que é a correta. Novamente, não nego a existência de alguns professores que tentam defender bandeiras em salas de aula: comunistas, capitalistas, cristãos, evangélicos. Qualquer tipo de doutrinação é condenavel. Mas dai a acreditar que isso é um plano maligno para tomar o país, são outros quinhentos.

O que me incomoda nesse projeto além de ser uma via de mão única para uma escola doutrinadora (só que do lado “SERTO” da doutrinação), é que existem problemas muito mais sérios a serem tratados e ao invés de ajudar, um grupo de políticos defendendo uma agenda particular está contribuindo para mais retrocesso. Será que só eu vejo um sério problema nisso? Que esse projeto vem para bestializar mais ainda o nosso sistema de ensino que é sofrível?

Para mim, a coroação desse projeto fecal, não está no texto da lei em si, mas nas justificativas dadas pelo senador. atentem-se ao décimo quinto argumento exposto:

“15 — Finalmente, um Estado que se define como laico — e que, portanto, deve ser neutro em relação a todas as religiões — não pode usar o sistema de ensino para promover uma determinada moralidade, já que a moral é em regra inseparável da religião;”

Excelentíssimo senador, moral e religião são praticamente antônimos. Moral emana de reflexão coletiva onde os indivíduos (mortais e humanos) ponderam sobre como é a melhor forma de viver em conjunto de acordo com a época vivida, não de regras fixas estabelecidas por algum livro. E se sua moral não é o resultado de sua própria consciência , mas depende do medo ou do respeito que sente por um ser místico todo poderoso, o senhor é um ser abominável. Pois no primeiro momento de dúvida quanto sua fé, a moral se esvai. Deixando de temer esse ser o senhor deixa de ter moralidade, já que ela não é intrínseca ao seu ser.

Infelizmente o projeto está para ser votado, e só nos resta esperar. Caso tenha interesse, estou deixando o link para o texto da lei, aqui em baixo

http://www.senado.gov.br/atividade/materia/getTexto.asp?t=192255