Amiga, não nos reconhecemos mais

Toru Fukuda

Quem é você?”, pensei ao encontrá-la. Ontem éramos amigas, ou fomos. O tempo era tão incerto como a pessoa a minha frente. O riso não saía fácil, e nosso silêncio familiar já incomodava. Emendei um assunto no outro, mas desejava não dizer nada, só encarar essa nova desconhecida.

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Nunca fui muito boa com desapegos. Talvez por ser filha única, amigos eram quase parte da família, eles me acompanhavam nas brincadeiras, nas viagens, nos segredos.

Quando minha melhor amiga saiu da escolinha no pré-um, eu implorei a minha mãe para sair também. Internalizei o discurso de que não tinha razão para eu fazer o pré-dois. Sem sucesso, não criei grandes memórias daquele ano.

No ensino fundamental, uma grande amiga se mudou para outra cidade. Lá estava eu querendo planejar uma nova vida fora de São Paulo.

Mais tarde meu melhor amigo teve de sair do colégio. Passei o primeiro dia do Ensino Médio chorando na quadra.

Com o tempo fui abandonando a teoria do carma e tirando aprendizados dessas situações que nos acompanham a vida toda. Ficou mais claro que eu queria seguir meus amigos porque sentia que precisava deles.

Estar com eles me dava segurança, como se nossa relação validasse que o meu jeito era um bom jeito de ser — seja lá o que isso significa. Sem falar que minava o medo de estar sozinha — acho que nunca fomos estimulados a lidar com nossa própria solidão.

Mas, muito mais saudável do que precisar de alguém é estar com pessoas pelo simples e verdadeiro motivo de querer acompanhá-las. Agir assim é compreender que nem sempre os caminhos serão paralelos e que a sensação de estar junto tem vários desdobramentos.

Penso que, se eu acredito que preciso de alguém, estou mais inclinada a aceitar situações que me ferem para manter essa pessoa por perto. Acompanhar alguém pela espontânea vontade de estar junto nos mune de certa autonomia para romper com relações que não fazem mais sentido.

Eu amo os meus amigos e, faz parte de amar alguém respeitar sua individualidade e autonomia. Essa sinceridade rompe limites materiais, de modo que não importa se eu estou aqui e a Raquel está na Itália. Gostamos uma da outra e quando ela vem para São Paulo o carinho só se materializa.

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Naquela tarde não a reconheci. Achei estranho, esse era um jeito novo de me distanciar de alguém. Ver um conhecido se transformar em desconhecido incomoda, pois fica a dúvida: ela mudou ou eu mudei? Mudamos, talvez.

Fato é que ali percebi a bifurcação, numa rua já cheia de rachaduras. Às vezes amigos vão embora e outras vezes nós que vamos. Com toda a autonomia peguei a esquerda e fui seguindo pelo trajeto que me fazia melhor.

Quem sabe um dia nos encontramos pelo caminho? antes de permanecermos ou nos distanciarmos mais uma vez.