HOJE EU POSSO.

Lembrei de você esses dias. Aliás, lembrei de você esses meses. Foi quando bateu um medo bobo de levantar da cama, de abrir aquela mensagem bonita de bom dia e duvidar de cada vírgula que me presenteiem por aí. Afinal, depois de você, a escrita desse roteiro anda meio sem sentido.

Eu me tornei aquele tipo de gente chata que conta o final do filme antes mesmo dos trailers começarem, sabe? E foi você que me ensinou. Aprendi com você também essa mania de querer fugir de tudo. Aprendi tão bem que me perdi de novo.

E eu me perdi tanto e tão bem que foi quase impossível você não me achar. Porque, depois de você, trombei contigo em cada esquina. Não tem um boteco nessa cidade que eu não tenha andado e dito o seu nome. Mas agora, finalmente te vi de uma forma diferente. Pra descobrir meu esconderijo, você escancarou o seu.

E seus olhos sem cor que você insiste em dizer que são verdes. E o perfume caro perfeito para gente barata. Para mim era tudo azul. Azul, azul, azul. E cheirava a mentira. Do começo ao fim, de Norte a Sul. Ainda assim, sorri. Mesmo que meu estômago revirasse. A perna fraquejasse. A mente viajasse. Amasse. Do verbo amassar. Porque ninguém ama no pretérito. Muito menos no imperfeito. Não é a toa que não deu certo.

Eu nunca te amei.

Acho que você soube disso antes mesmo de mim. Ou achou que sabia. Fato é que, assim que estendi o braço, você tirou o corpo fora. E desde então parei de confiar que a mocinha sempre vai se dar bem no final. Que o príncipe vai escalar a torre, que a carruagem vai trazê-la de volta pra casa em segurança e que um beijo é a solução pra tudo.

Depois de você, eu parei de escrever e arranjei milhões de outras desculpas para os meus sumiços, para os meus silêncios e para os meus perdidos. “Desculpa, não posso no sábado, no domingo também não”. Depois de você, fiquei mais blasé: meu nome é ausência e o sobrenome é saudade.

Mas hoje não de você. Hoje percebi que andava com saudade era de mim. E foi muito bom me encontrar, mesmo que ninguém mais o faça, me dar um abraço apertado e dizer que tudo vai ficar bem. Mesmo que nunca vá ficar.

Se der, se puder, se quiser, registra aí no seu calendário: Foi hoje.

Foi hoje que levantei da cama, abri uma mensagem bonita de bom dia e consegui responder sem me importar com as vírgulas. Foi hoje que realmente começou o “depois de você”. Quando você voltar — porque eu sei que você vai voltar — porquê você sempre volta, saiba que hoje não vai dar. Não vou estar. Te indico alguém*.

Açúcar ou adoçante*.

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