Riqueza de Alma
“Não é quem mais tem quem mais pode dar. Às vezes ocorre o inverso, quem menos dispõe é quem mais concede, seja materialmente falando, seja por meio dos afetos.”

Tal como esse caso existem inúmeros outros que revelam que somos, todos, produtos daquilo que nos foi ofertado. Somos amálgamas do sistema, das instituições sociais que nos proporcionaram os alicerces para desenvolvermos enquanto ser humano, das crises que nos ressignificaram, da desigualdade, da economia e política, e entre outros fatores que acabam por emaranhar-nos, em última instância, numa redoma sem empatia, sem capacidade de dar e receber amor.
A busca incessante pela própria capacitação faz com que o meu semelhante sirva apenas para que o meu “eu” possa fomentar mais e mais o próprio ego. O outro tornou-se ser estranho que precisa ser abatido por conta da concorrência. Preciso ser melhor que ele, eliminá-lo, ou desprezá-lo. Ocorre a então desarmonia do coletivo que resulta no caso que presenciamos. Normal para uma cidade como São Paulo, mas anormal demais para ser tratado como reles.
O momento era de sair às ruas à procura de uma narrativa que pudéssemos transcrever. O intuito era falar da história, dos muitos personagens, transeuntes que permeiam um determinado recinto que caberia a nós escolhermos. Assim, entre achados e perdidos, fomos a Rua Galvão Bueno, no bairro da Liberdade.
Contudo, foi no transcorrer de uma ou outra parada, já no dia seguinte, objetivando buscar fontes sobre a tal rua, que uma senhora pedinte parou-nos requisitando alguma ajuda. Pois, bem! Ao olhar atento que cabe ao jornalista, em rápidas frações de segundos enxergamos a sua degradante situação. Não foi fácil digerir, por isso, não foi possível dizer não. A famigerada desconfiança de quem dá ajuda ao necessitado e já faz a pressuposição de que gastarão com ilicitudes, com ela não apareceu. Simplesmente foi…
Mas, mais do que aquilo que a oferecemos foi o que ela nos ofertou. Eu ao tirar alguns vinténs — infelizmente não tinha trocado — , meu outro colega de trabalho também tirou algumas notas e a entregou. Recebeu de coração aberto como quem não tinha a possibilidade de exigir mais nada da vida. Disse: “Que Deus os abençoe, que nada te falte, e que vocês possam sempre ter condições”. Ora, como alguém coberta de lixo, que já desconhecia o que significava higiene há muito tempo, que não mais fazia ideia do que era ter uma vida digna, que já não dispunha dos dentes — os que sobraram estavam apodrecidos — , como alguém, nesse estado, pode ainda professar a um desconhecido, palavras de afago e de bênçãos? Como?
Ah! Gabriel, isso é uma questão de educação, todos falam… não! Não é assim… Nós que conseguimos distinguir o que é verossímil da hipocrisia, tudo fica evidente. Sabemos quem é sincero e quem apela a sinceridade tentando parecer sincero. Parecer é parece ser, mas que não é… Têm vários assim!
E o que mais adoçou esse momento foi que já havíamos passado em vários estabelecimentos, tentado falar com várias pessoas e nenhuma delas fez a mínima questão — algumas foram ríspidas. Ao parar numa loja de bolos, tentamos pôr em prática algumas perguntas a duas senhoras orientais (donas do comércio), mas elas também agiram com desdém não considerando uma mínima possibilidade de diálogo. Quem falou foi uma jovem brasileira que trabalhava há pouco tempo no local e que, sendo franco, não dispunha de nenhuma propriedade sobre a cultura asiática.
Foi logo depois desse episódio que apareceu a senhora moradora de rua já supracitada. Os questionamentos que fizemos a partir do caso dela fizeram com que redefiníssemos nossos próprios conceitos. Não é quem mais tem quem mais pode dar. Às vezes ocorre o inverso, quem menos dispõe é quem mais concede, seja materialmente falando, seja por meio dos afetos. Enganamo-nos sempre quando nos deixamos levar pelos infelizes preconceitos, julgamos por desconhecer, quando conhecemos somos surpreendidos. Foi o que ocorreu. As donas da loja de bolo tinham infinitamente mais possibilidades econômicas e sociais do que aquela pedinte, mas no território da riqueza das afeições elas chafurdaram, veementemente, na lama da frieza. Indispondo totalmente a nós sem nenhum motivo. Foi apenas o não querer, como os demais…
E quem menos podíamos imaginar que teria algo a nos ensinar foi quem mais nos surpreendeu. É fazer o bem e não olhar a quem… Alguém sabe nos dizer quem era aquela pedinte? Qual sua história? Ela é produto de quais causas que marcaram sua vida? Por que chegou aquele estado de miséria? A resposta não sabemos, não foi possível perguntar — alguns mistérios são excelentes para suscitar a curiosidade. O que importa mesmo é que mais do que a outra crônica que tínhamos que realizar sobre a rua Galvão Bueno, foi a mensagem que aquela necessitada nos deixou para que eu pudesse escrever esta: “Deus te abençoe, e que nada te falte”, palavras que valem mais do que qualquer quantia. E somente alguém muito abastado de alma pode, mesmo, ofertar isso aos outros, ainda que na sua vida tudo venha a faltar.
