A Tecnologia que Conecta e a que Aprisiona

CENA 1. Família na sala de jantar. A comida está na mesa e o ambiente é de silêncio. Os ouvidos mais aguçados escutam pequenos tapas de dedo em telas de vidro. O menino combina a saída no What’s App. A menina bate recorde no Candy Crush. A mãe alterna a tela entre uma mensagem no Facebook e um jogo paciência. O pai checa resultados da rodada e oscilações de ações. Zoom out. Tecnologia é vilã das relações familiares.

CENA 2. Mulher num quarto de hospital, ao lado de seu marido, o paciente. Ele sofreu acidente e precisa de um doador de sangue urgente. Ela pega o celular e posta o tipo sanguíneo no Facebook e em 3 grupos do What’s App. Em 40 minutos 3 se candidatam. O hospital é longe. Doador pede um Uber, que dribla o trânsito com a rota do Waze. Em alguns dias o paciente agradece no Instagram com uma foto saindo do hospital. Zoom out. Tecnologia salva o dia.

Vilã e heroína, a enxurrada tecnológica tem revelado suas dores e delícias em qualquer cena cotidiana. Nossa opinião se forma dependendo da lente de óculos que usamos. Certo é que a humanidade ainda não está preparada para toda essa súbita amplificação de possibilidades. Em 20 anos tudo mudou e mudará nos próximos 20. Aqui estamos nós, perdidos no meio do ponto de inflexão entre o analógico e o digital.

Acredito que tecnologias são pepitas brutas. O minerador da inovação tecnológica descobriu aquele pedaço de valor dentro de um mar de rochas sem sentido. O trabalho do designer é entender como esse minério se transforma em algo que melhora a vida das pessoas. Polir a pedra até que ela releve beleza e utilidade. Até que ela brilhe para os olhos humanos.

Alguns dos últimos trabalhos da Outra Coisa tem perseguido a ideia de que a mobilidade tecnológica, tão acusada de esfriar as relações humanas, tem potencial de aumentar exponencialmente o nível de conexão entre as pessoas.

Conectar pais com a educação de seus filhos.
Conectar empresas com seus colaboradores.
Conectar fãs em torno da essência de sua banda favorita.
Conectar quem procura lazer com quem sabe o que a cidade tem para oferecer.
Conectar alunos com o que dizem seus professores.
Conectar atletas com seus desafios esportivos.
Conectar músicos com quem usa música como matéria-prima para outras criações.

Estes mesmos projetos, sites ou aplicativos construídos por nós nos últimos anos, também podem criar consequências negativas, como um remédio que causa reações adversas. Cabe a cada usuário a decisão de como, quando e com que frequência usá-los.

O filme “Enquanto Somos Jovens” (While We Were Young, 2015), recentemente nos cinemas, tem uma cena que ilustra o caráter geracional do mau uso da tecnologia. Enquanto o casal de quarenta anos (Ben Stiller e Naomi Watts) manipula seus smartphones viciosamente — aprisionado pela tecnologia, como mostra a ilustração do topo — o casal de vinte e poucos mantém uma distância salutar com as telas do mundo digital. Assim como no filme, prefiro acreditar que as novas gerações terão facilidade em diferenciar quando a tecnologia melhora e quando ela piora nossas vidas.