Às vezes eu realmente acho que já fui uma pessoa melhor.
Provavelmente eu esteja redondamente enganada.
Seja como for, com 20 anos sabemos menos do que achamos e mais do que deveríamos. E eu flutuo nesse limbo doentio que tem sido a redescoberta do que eu sou, ou fui, ou sei lá.
Pela primeira vez, desde a maturação sexual da vida adolescente/adulta, eu me sinto total e sinceramente livre. O que é, cá pra nós, bizarro. Nunca achei que fosse, de fato, sentir a pueril liberdade que é ser dono de si mesmo. Sempre pensei que não havia sido feita pra isso.
Primeira vez, inclusive, que nenhum dilema moral, devastador, brutal e visceral toma meu subconsciente a ponto de me atirar com força em algum abismo vácuo e frio. Eis que o filhote das mazelas da Lisbeth Salander com o Florentino Ariza, finalmente, encontrou paz.
Na ausência da plenitude de um relacionamento. Na ausência do maior amor da minha vida. Na ausência do meu pai. Na ausência de quem eu já chamei de melhor amigo.
E isso, aqui dentro, é tão simbolicamente frio e real que chega a doer a ponto de não sentir-se. O que, de certa forma, contribui para o crescimento pessoal de quem vos escreve. E para o decréscimo gradativo da paciência que aqui um dia habitou, também. Amorteceu a ponto de se tornar parte de mim. E, como tal, fora absorvido pelas células que compõe minha alma.
Estranhamente, e pela primeira vez desde que tenho consciência de mim enquanto ser humano, eu não me sinto morta. Eu não me sinto dependente de alguma sensação, de alguma existência que não a minha. Eu não resido mais no quartinho pânico que existe no sub-solo do fundo do poço.
E isso é, de longe, a sensação mais estranha que já tive.
Afinal, eu existo além da dor. Da visceralidade. Do sofrimento. Da ausência. Dos medos. Dos pânicos. Do álcool. Do cigarro. Eu, ao que tudo têm indicado, sou um ser completo.
E isso me conforta só até certo ponto.
Porque eu não sabia que existia vida além do abismo das minhas emoções. Borderline é foda gurizada, não se iludam.
Cá pra nós, vivo hoje a experiência mais difícil de todas que enfrentei até então.
A de ser, pura e simplesmente, sem culpas ou devaneios, eu.
Caralho, não sabia a complexidade dessa parada.