Acende o cigarro naquela janela grande da área de serviço. Sente o vento gelado do princípio de inverno invadir o corpo. O pijama branco que cobre o corpo nu não disfarça a contração dos vasos sanguíneos dos teus mamilos. O óculos de armação de metal pende em teu nariz como alguém que se precipita diante de um abismo, querendo cair e prendendo-se na inércia de estar exatamente onde é preciso estar para não despencar.

Vai. Sente essa fumaça quente saindo dos teus pulmões. Sente tua língua encostar de leve no filtro branco. Sente o arrepio daquele início de maio descendo tua espinha. Sente teu cabelo desarumado farfalhar no vento. Sente, pela enésima vez, tuas unhas tamborilando no parapeito da janela.

Tu foi desenhada da figura do caos interno. Isso não é poético. Nem bonito. Mas teus olhos piscam tão devagar que tu, internamente, gostaria que fosse.

Fosse bonito. Fosse poético.

Fosse tudo, menos o que é.

E o que isto é, meu bem, é apenas você.

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