Cabo, chato!

Oceano Pacífico, em Viña del Mar, Chile — Foto: Rafael Gómez

Até uns 6 anos de idade eu não conhecia nenhum avô. Um deles tinha dado linha na pipa e nunca mais voltado. O outro morava no distante Chile, que eu não fazia ideia onde ficava.

A única certeza da existência do abuelito eram as gravações em fita K-7 que ele enviava. A família se sentava em volta do rádio para ouvir aquelas vozes que diziam palavras que eu mal entendia.

Quando acabava a mensagem, era só virar pro lado B da fita, gravar a nossa resposta e mandar via correio.

Numa época em que não existia internet e o telefone era um bem para os mais abastados, o vai e vem da fitinha magnética, sempre a mesma, era uma boa forma de comunicação.

De repente, bang! Estávamos na rodoviária do Tietê e meu pai disse que o abuelito iria chegar a qualquer momento. Sim, ele veio de busão desde o Chile, numa viagem de três longos dias.

Lembro da minha confusão quando o vi pela primeira vez. Era basicamente o meu pai, só que mais velho. E falava muito mais enrolado.

Morávamos em um quarto e cozinha, contudo não foi um grande problema achar lugar para oito pessoas dormirem. A casa parecia sair de uma cena do filme “Feios, sujos e malvados”, de Ettore Scola.

Devo confessar que nessa idade eu era a definição perfeita de pentelho. Não era daqueles moleques zoeiros e hiperativos que desmontam um lar em segundos, mas um serumaninho metido a gênio, que já sabia ler e escrever, além de conhecer o nome de todas as capitais dos países do mundo. Um chato.

O velho não demorou a notar isso, e me evitava como o diabo desvia da cruz. Ele até cunhou uma frase especialmente para mim, que dizia quando atingia o nível máximo do seu saco: “Cabo, chato!”. Algo como “chega, porra!” ou “tá bom, seu chato!”.

Porém, a gota d’água para mim foi um dia em que ele avisou que sairia para uma volta pelo bairro. Eu me prontifiquei imediatamente para ir junto e fui buscar algo para a expedição.

Quando voltei, o velho já tinha vazado. Sai correndo pela rua e gritava o seu nome. Conseguia enxergar a sua silhueta no fim da via, mas ele fingia não escutar o meu chamado. Desisti.

Foi quando passei a ser muito mal educado com ele, num dos primeiros sinais de algo que me acompanha até hoje: a sede por vingança.

Um dia ele resolveu ir embora, e eu continuei sem avô.

Alguns anos depois, quando já tinha 10 anos, fui visitar meu abuelito no Chile. Estava ansioso para saber como ele ia me receber, afinal, eu provavelmente não tinha deixado saudades.

Ele havia caído de um andaime enquanto trabalhava e estava de cama, se recuperando. Quando entrei em seu quarto, vi um velhinho debilitado, mas que sorriu quando me olhou. Me chamou para sentar ao seu lado na cama, me deu um beijo e falou que estava feliz por me ver. “Mi nieto”, disse ele orgulhoso.

Eu só pude dizer que também estava com saudades. Fiquei horas conversando com ele, como nunca tinha acontecido.

Quando fui embora, senti dentro de mim a sensação que tinha um novo amigo. Alguém mais velho, experiente, que podia me ensinar coisas que nem imaginava. Ele me daria conselhos, se preocuparia comigo: seria um grande avô.

Infelizmente, aquela foi a última vez que o vi, porém, tenho certeza que quando nos encontrarmos mais uma vez, teremos muito para conversar.

Afinal, o que sou eu além da continuação da vida do meu abuelito?