Cinquenta tons da quarta de cinzas

Agora 2014 acabou. Feliz 2015! Mas não pense que será dito que o ano só começa depois do Carnaval. Não é uma idiotice dessas.

Agora posso afirmar com orgulho que o lazarento ano de 2014 acabou. Podem achar que a loucura fala por estas palavras, porém não o é.

Trazia há tempos 2014 comigo. Isso por causa de três tarefas procrastinadas desde o ano que passou, talvez até antes:

  1. Ler a outra metade de um livrinho do Dostoievski que havia começado e não encontrara tempo/vontade de terminar;
  2. Prender com parafusos de tamanho adequado a porta do armário da cozinha que insiste em cair;
  3. Colocar um pouco de Durepoxi numa fenda da pia que faz a água rolar chão afora há meses.

A procrastinação é uma arte para poucos. Você simplesmente não deixa e esquece de fazer algo, apenas adia por um longo período algo que uma bendita hora terá que fazer. Não tem como fugir.

Você pode procrastinar a retirada do lixo da sua casa por um mês, por exemplo, contudo será forçado a fazê-lo, talvez até antes disso, já que vai ser lembrado pelo odor repugnante e pelas possíveis visitas de ratos, baratas e até urubus.

Embora os distúrbios práticos causados pelas três tarefas relacionadas acima sejam mínimos, a lembrança delas é irritantemente diária. É como aquele pernilongo que te faz zoeira no ouvido a noite inteira, mas que lépido como um fantasma, se esconde a ponto de você nunca achar o desgramado. Então você procrastina dar uma bela chinelada no vagabundo.

Mas na noite seguinte o zumbido do inferno volta para te lembrar: BZUUUIII! você não matou o pernilongo.

Sempre que via aquele livro magrinho por cima das coisas ele me gritava: “Leia-me, acabe-me, absorva-me”. Mas eu não o fazia, deixava para algum dia que ainda estava por vir.

Quando estava secando a louça e me virava em direção ao armário, depois de me assustar com o escorregão que pisar na poça d’água do vazamento da pia causava, tentava habilidosamente abrir a porta solta sem que essa caísse nos meus pés. BANG!

Mais uma unha roxa pelo acidente. BANG! Mais uma lembrança das tarefas procrastinadas.

Na terça-feira de Carnaval, entediado com tanta pluma e confete, passei a mão no livrinho não acabado.

Página por página, cerca de um ano de procrastinação caiu em apenas um par de horas. Boa a história! Quando li as últimas palavras da última linha escrita no livro, estava renovado.

A euforia tomou conta de mim. Estava livre daquele grilo falante russo. Agora sabia o que a frivolidade da tal Nástienka era capaz. Fim.

Joguei o Dostoievski de lado e levantei determinado. Corri pegar uma chave de fenda e fui até a cozinha.

Cerca de cinco minutos depois, a portinha que outrora insistia em cair agora estava firme como uma rocha, apertada com dois parafusos robustos e na medida indicada para tal engenho.

Eu estava impossível! Duas tarefas que ruminavam em minha vida estavam postas. Eram passado. A satisfação que sentia me fazia correr pequenos choques elétricos pelo corpo. Era como se numa só tacada eu tivesse costurado a paz e erradicado desigualdade social de todo o mundo. Era digno de louros na Assembleia Geral da ONU.

Enquanto comemorava o êxito de tamanho alívio, fitei a fenda da pia. Fiz evaporar com o olhar a água empoçada no chão. Aquilo não ficaria mais assim.

Fui até onde estava guardado, há cerca de dois anos, uma embalagem de Durepoxi. Nem quando reparei que o produto estava com a validade vencida desde setembro de 2013 pude me deter. Peguei a massa branca e misturei a uma parte igual da massa verde, o que resultou num bolo acinzentado.

Com os dedos em riste e um sorriso meio louco no rosto, apertei a massaroca nas juntas da pia por onde a água teimava em escorrer. Sentia o pulsar frenético de minhas têmporas e as palpitações no peito quando terminei o serviço. Estava finalmente livre!

Minha lista mental de tarefas estava vazia. Eu não devia mais nada para o mundo. Eu não devia mais nada para mim mesmo.

A vida que venha agora com novidades, porque não tenho nada programado para fazer.

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