Delação premiada

Pingo fuma muita maconha em casa. O fumacê sobe direto para a janela do apartamento da vizinha, mas nenhuma reclamação voltou para o andar de baixo.

Numa tarde Pingo tentava sair despercebido do seu prédio, porém deu de cara com a dona Gertrudes, a velhinha que mora exatamente em cima do seu apê. Ela não demorou em falar.

— Ah, você que mora aí, é? Eu estava querendo falar com você faz tempo.

Neste momento Pingo já sabia que iria tomar um sabão da velhinha.

Porém, estava cansado de ser discriminado o tempo todo por ser um maconheiro e não queria mais ter que ficar na defensiva. Arregalou os olhos e disparou antes de a velha respirar.

— Olha dona Gertrudes, o que eu faço dentro da minha casa é problema meu. Se a senhora não gosta de uma fumaça cheirosa vagando pelo seu apartamento, fecha a janela! Eu estudei, eu trabalho e sei até qual é a capital da Eslováquia. Passei grande parte da minha vida pelos cantos preocupado com o que os outros podiam achar, mas agora chega! Eu fumo sim e a senhora não tem nada com isso!

A pobre velha não pareceu surpreendida. Falou com doçura.

— Eu queria perguntar se eu tenho feito muito barulho lá em cima. Às vezes eu ando de sapato e sei que faz um barulhão aqui embaixo. Mas agora comprei uma pantufa que você não vai ouvir nada.

Pingo sorriu largamente e recomendou à dona Gertrudes.

— A senhora pode pular do sofá com os dois pés no chão e começar a sapatear que mesmo assim nunca vai me incomodar.