São Paulo — Foto: Rafael Gómez

São Paulo maluca e gostosa

12:00. E piscando. Obviamente a luz acabou no meio da noite por causa da chuvarada e estou atrasado pro trabalho. Num pulo já estou debaixo do chuveiro queimado pela falta de energia. A água gelada me faz dar um novo sentido pro “banho de gato” e vou tropeçando até a porta da rua enquanto acabo de me vestir.

Quando abro a porta, um portal para outra dimensão surge. Agora parece que moro em Veneza, pois as ruas viraram um rio só, com correnteza e tudo. Sair andando não é uma opção. Nadando é possível, porém leptospirose não é minha doença favorita, então passei.

Por sorte, o caminhão do lixo passou pela rua antes da chuva e foi deixando pelo caminho diversas garrafas pet, que a água fez com que acumulassem no quintal da minha morada. Em um primeiro momento xinguei todas as gerações da Limpurb, contudo a engenhosidade humana iluminou o meu cerebelo e me deu uma boa ideia pra chegar ao trabalho.

Junto todas as garrafas de forma alinhada, pego uma corda que guardava pra momentos de desespero maior e fabrico uma linda e segura jangada de pet. Subo no muro de casa, agarro uma faixa que estava pendurada entre dois postes e faço dela uma vela. “Pronto, posso até competir contra o Torben Grael agora”, pensei comigo.

Lanço-me ao mar de bosta e lixo e, como se o Senhor quisesse me ajudar, uma lufada de ventos fortes me colocam em velocidade de cruzeiro a caminho da labuta. Como num sopro, chego até a Avenida Paulista e, distraído pela fama repentina que ganhei pelas ruas alagadas, me lembro que meu trabalho não é por ali. Faço o contorno e me aventuro descendo as cataratas da Rua Augusta, sentido centro.

Confesso que me decepcionei. Fazia anos que não passava pela velha Augusta e ao invés das prostitutas em botes salva-vidas, dormia agarrado aos postes um arco-íris de garotos e garotas coloridos. Fiz meus braços de remos e escapei dali.

Cansei de navegar e parei a jangada em um estacionamento a R$ 50 por hora na Xavier de Toledo. Só esperava que o manobrista não me desfalcasse o porta-moeda. Em frente do Teatro Municipal, cantarolei a melodia de uma dessas musicas que falam da beleza feia de São Paulo.