Satan Goss ataca o gigante guerreiro Daileon, que era pilotado pelo Jaspion

Satan Goss versus Deus

Por volta de 1988, toda criança de Pirituba tinha um álbum de figurinhas do Jaspion, que quando era virado, se transformava no álbum dos Changeman, ambas séries japonesas de muito sucesso no Brasil.

Na hora de trocar as figurinhas repetidas, a molecada se reunia na entrada da favela, no limiar da rua minha rua. Tinha que ser lá, pois era em frente à casa do Nenê, e sua mãe fazia questão de fiscalizar o escambo.

O álbum 2 em 1

Evangélicos fervorosos, os familiares do Nenê eram conhecidos no bairro por viver ao pé da letra da Bíblia e da doutrina da igreja. O garoto, que não frequentava a escola, também não podia brincar por muito tempo na rua e jamais falar com meninas.

O meu amigo, por muito implorar aos pais, acabou ganhando um álbum de figurinhas de aniversário, mesmo sem assistir às séries, porque a TV não era permitida em sua fé.

Ele sempre tinha para trocar várias figurinhas do Satan Goss, inimigo de morte do Jaspion. Um dia alguém abriu o álbum dele e percebeu que no lugar do poderoso Satan Goss, que “tem o poder de enfurecer os seres e transformá-los em monstros incontroláveis”, estava a sorridente Anri, andróide animadinha que era secretária do Jaspion.

Anri: curto-circuito

Nenê, que tinha o nome bíblico de Josué, claro, explicou que a sua mãe vetara a entrada do nome de satanás em sua residência. Ela riscou o nome do capeta do álbum, que não era nada mais do que um robozão parecido com o Darth Vader usando saia, para colocar a cybergarotinha no lugar.

Quando ele acabou de explicar, explodiu da minha boca uma gargalhada bem alta, que me fez até curvar. Porém, quando retornei do meu estupor, todos os colegas me olhavam com reprovação constrangedora.

Nenê profetizou: “Rir de Deus é o seu castigo e para toda a eternidade serás mal visto e repudiado por isso”.

Ele estava certo.