Vendetta

Quando estava no colegial, me apaixonei por uma colega de classe.

Ela era linda, morena e com seios fartos. Tinha um belo sorriso, era engraçada e cheia de vida.

Em um impulso adolescente, acabei me declarando para ela antes de tentar conquistá-la. Ledo engano.

Ela não disse não, mas também não dizia sim. Me manteve em banho maria por muitos meses. Mostrava algum interesse, ficava olhando no fundo dos meus olhos, mas sempre que eu tentava consumar a minha paixonite, ela escapava sorridente.

Eu não entendia nada. Apesar de ela não me querer, fazia que queria. Os meus amigos me diziam que ela queria e que o problema era eu. Com pouca experiência no mundo feminino, me atrapalhei todo.

Ligava para ela todos os dias, mandava bilhetinhos amorosos e até peguei a Mobilete emprestada de um amigo para entregar um enorme urso de pelúcia na casa dela.

Nada. Ela agradeceu, mas nada! Desencanei, não tinha mais o que fazer.

Alguns dias depois, ela veio me perguntar por que não estava mais ligando, não mandava mais cartinhas ou dava as minhas investidas.

Achei que era um sinal. Ela me queria, então. Entrei no nível máximo de idiotice apaixonada, quando o cabra pensa em contratar um ‘telegrama romântico” ou mandar um helicóptero despejar rosas sobre a casa da moça.

Uns dias depois ela apareceu com um cara na escola. Um panaca que descia da ponte da Avenida Dr. Arnaldo pendurado numa corda. Nunca desejei tanto um acidente ali.

Quando ela me viu no pátio, pegou o cara pela mão, caminhou até a minha frente e tascou um beijão nele. Bem na minha frente!

Fiquei mal, fui tomar satisfações. Por que você tá fazendo isso comigo? Ela se fez de desentendida.

Procurei esquecer, mas demorou um pouco. Isso me deixou cabreiro com as mulheres por muito tempo, mas juro que esqueci.

Mais de 10 anos depois, estava passando de carro por uma rua e vi minha antiga paixão no ponto de ônibus.

Ela estava muito acima do peso, vestia uma roupa de tia quando vai na feira, carregava várias sacolas e tinha um filho pequeno em cada uma das mãos.

Parei em frente a ela e falei um oi. Ela sorriu, mas sobravam poucos dentes daquela arcada que tinha virado a minha cabeça. Seus olhos estavam cansados, os cabelos desgrenhados, os peitos caídos e não havia sinal do panaca da corda.

Pensei em oferecer uma carona, entretanto abri a janela do passageiro, apontei o dedo em sua direção e disparei exultante:

HAHAHAHAHAHAHAHAHAHAHA!

Acelerei fundo e fui embora. Só então pude esquecê-la de vez.

Fim